Nas Paredes do Medo

1767 Palavras
ottaA [93] Por que esse tipo de coisa só acontecia comigo? Droga. Por que Hanna simplesmente não me dizia por que motivo decidira me odiar tanto para que ambas pudéssemos resolver aquilo da maneira mais apropriada possível? Ela não podia ser tão terrível o tempo todo, podia? Quando levantei os olhos, e percebi que ela ainda me encarava, percebi o óbvio. Talvez ela pudesse sim. Não demorou muito para que todos começássemos a ouvir o som da chuva nos telhados da academia. Eu comecei a pensar que poderia até me acostumar a isso. Talvez estivéssemos realmente predestinados a agora viver sempre em baixo de uma grossa nuvem de chuva. Não que não fosse esquisito, mas não havia nada que alguém pudesse fazer sobre isso. Sr. Encharpe não havia aparecido de novo, e isso só me fazia perguntar por que só eu achava isso estranho. Talvez eu só devesse “desencanar mais”, como sugerira Ivi. E era o que eu estava tentando fazer na aula de literatura, quando fomos todos despachados para a biblioteca da escola. Eu gostava daquela biblioteca, mas ela nem se comparava com a Biblioteca Municipal. Não que esta também não fosse grande, mas ela não tinha os mesmos livros velhos, não tinha aquele ar acolhedor e empoeirado. Ali, tudo era lustrado, cheiroso, didático, limpo e claro. Também não havia nenhuma Sra. Hernessa por trás do balcão atendente, mas sempre algum aluno morto de sono que se disponibilizava a ser o ajudante do dia apenas para ficar sentado sem fazer nada e sem precisar estudar. Como Ivi estava preocupada demais procurando coisas nas prateleiras, me contentei em me sentar em uma mesa perto das janelas, abrindo uma versão longa e mais estendida de Harry Potter, para que pudesse abrir minha agenda sobre ele. Saquei a lapiseira enfiada entre as espirais e me pus a folhear as folhas mais recentes, até que encontrasse uma folha em branco. Certo. Havia tanta coisa entalada em minha garganta, em meus pensamentos, e havia só uma forma de pôr tudo para fora, e eu sabia bem qual era essa forma. E eu tento me esconder, tentando me camuflar nas paredes, do meu medo. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [94] Talvez não tivesse como ser mais clara que isso. As palavras não estão aqui, E agora eu as vejo, bem claras em minha mente. As lágrimas se esgotam num sorriso demente Que teima em achar que tudo está bem... Ás vezes, eu achava que gostaria de mostrar essas coisas a alguém. Mas Ivi talvez não entendesse, por que ela não era tão sentimental quando eu precisava que ela fosse. Eu conseguia ver o sentido por trás das palavras, enquanto as rabiscava no papel. Tudo parecia fácil demais... claro demais. Mas então as palavras perdiam sentido quando eu mais precisava delas. Como naquele momento, quando me obriguei a fechar a agenda rapidamente, quando alguém se sentou do outro lado da mesa. E não foram só as palavras que deixaram de fazer sentido, mas minha respiração também pareceu ficar desbotada, presa nos pulmões. Isso por que eu sabia quem era. Aquela sensação estranha que me dominava quando ele estava por perto acabava de correr por minha espinha. Ergui os olhos para ele, que me observava curioso. — Algo me diz que você não está lendo. Era estranho como nada daquilo combinava com ele. Eron havia cruzado seus braços poderosos no tampo da mesa, e semicerrava seus olhos verdes por baixo dos cílios escuros. Era incrível como tudo parecia bizarro ao seu redor. Tudo parecia... errado. — Você também não me parece estar... — eu contra ataquei, dando de ombros enquanto fingia estar perfeitamente a vontade... mesmo que minhas pernas estivessem tremendo por baixo da mesa. Foi a sua vez de dar de ombros. — Eu não sou muito do tipo que segue regras. Eu não pude deixar de sentir um calafrio em r*****o a sua afirmação. — Por falar em seguir regras... — eu comecei — Você não precisava ter dito aquilo na frente de todo mundo hoje. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [95] Ele ergueu as sobrancelhas escuras. Será que ele tinha a mínima ideia de como era bonito? — Se queria falar comigo em particular deveria ter me avisado antes, Eveline. Eu quase engasguei. Havia algo no modo como ele falava meu nome. E não era só por que ele preferia me chamar pelo meu nome inteiro. Era algo que me fazia engolir com dificuldade. — Você entendeu o que eu quis dizer. Você fez de propósito, não é? — O quê? — ele abriu mais os olhos verdes de maneira inocente, me fazendo mesmo achar que ele falava sério. — Nada. Esqueça. Ele estreitou mais os olhos, enquanto os dançava por mim. Ele achava divertido. Devia achar muito engraçado que eu procurasse um lugar adequado para por as mãos, por exemplo. — O que foi? — não resisti de perguntar. Ele apenas deu de ombros. — Eu não sei... é só por que você é a pessoa mais séria que eu já conheci. — seus olhos foram da minha agenda para meu rosto — sabe, se fosse como as pessoas que eu conheço, já teria dado uma boa surra naquela garota... Eu pigarreei. Sabia muito bem de quem ele falava. — E como são as pessoas que você conhece? São de alguma g****e? São Assassinos? — lamentei ter pego pesado demais, mas ele não pareceu perceber. — Chega, eu já falei demais... digamos apenas que eles são... bem, de m***r. — ele ergueu as sobrancelhas escuras enquanto abria mais os olhos. — Opa! Piada de funeral... Chacoalhei a cabeça. Qual era o problema dele? Ele não parecia ser o tipo de pessoa agradável, então por que todas as meninas não conseguiam parar de babar por ele? Provavelmente por que nenhuma delas havia conversado com ele como eu. E foi aí que percebi. O bonitão que estava deixando as garotas loucas estava falando comigo. De novo. Talvez fosse por isso que Hanna estivesse louca da vida, no fim das contas. Será que eu deveria me aproveitar da situação? Droga. Eu realmente gostaria de ser um gênio quando situações assim exigissem um pouco de inteligência. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [96] Ele se desprendeu da mesa, se recostando na cadeira, e perceber que seus ombros ficavam mais destacados quando ele fazia isso não fez maravilhas para minha atenção. Tanto que a lapiseira caiu de meus dedos, rolando até seu lado da mesa. Ele a pegou entre seus próprios dedos, a rolando enquanto observava o tubo cor de rosa, e esperei que ele não percebesse que a ponta dela estava pateticamente roída e mordida. — Você sempre escreve durante as aulas? — ele perguntou me devolvendo a lapiseira e observando minha reação. — E você sempre finge que está prestando atenção durante as aulas? — foi mais forte que eu, e quando percebi, as palavras já haviam encontrado caminho pela boca e saído para fora. Ele entortou a boca num sorriso, e Ivi desmaiaria se estivesse por perto. — Do que você está falando, Eveline? — Me diga você. Você não se comporta exatamente como um aluno novo. Quero dizer, não é como se você estivesse particularmente interessado nas coisas que os professores dizem. Um aluno novo normal estaria mais preocupado em pegar a matéria e acompanhar os conteúdos. Ele analisou minha teoria enquanto ponderava seriamente minhas palavras, balançando a cabeça e fazendo com que uma mecha de cabelo escuro caísse a frente de seus olhos. — Me parece muito observadora. Diga, tem me analisado? Meu rosto imediatamente se avermelhou. m***a, Eve! Por que você não enfia de uma vez a cabeça no microondas e deixa torrar? — Ahn... eu... não, não. Não foi isso que eu quis dizer... eu só... — parei quando percebi que estava gaguejando demais. m***a, m***a, m***a. — Escute. — resolvi abrir o jogo quando percebi que seu sorriso estava aumentando, se divertindo mais do que o normal com a situação em que ele próprio havia me colocado. Então eu ia ser honesta. Ele precisava saber que eu não caia de amores por ele como as outras. Eu apontei um dedo em sua direção — Eu sei que tem alguma coisa errada com você, certo? Eu não acredito que acabei de dizer isso. Caminho das Estrelas 1 FALANGE Christyenne JottaA [97] E antes que eu pudesse prever seu movimento, ele já havia se debruçado novamente sobre a mesa, em minha direção, segurando meu pulso e me impedindo de me afastar, seu rosto a poucos centímetros do meu. — Então me diga o que há de errado. Tem tantas coisas sobre mim que eu gostaria de saber. Tantas coisas que eu gostaria de entender... Mas não foi sua proximidade que me fez saltar, mas o seu toque. Por que de repente, me lembrei do sonho que havia tido naquela mesma madrugada. — Você... — eu sibilei olhando para seus dedos envoltos em meu pulso, para onde ele também desviou o olhar. Seu toque era quente. Mesmo com o clima frio, sua pele era extremamente quente. Me perguntei se esse era o motivo por ele nunca estar usando blusa, o que me fez a expelir a próxima pergunta i****a. — Você não sente frio? Sua expressão endureceu. Agora ele estava sério. Não havia nada de zombador em sua expressão, havia apenas algo frio, por mais que ele parecesse ser extremamente quente, por mais que a expressão fosse apropriada de várias formas, eu tinha que admitir. — Sempre responde perguntas com outras perguntas? — foi a única coisa que ele disse. Me permiti olhar dentro de seus olhos por um segundo, me arrependendo instantaneamente do ato. Aquele brilho que havia por trás de suas íris, como se houvesse algo queimando lá no fundo, parecia estar mais forte que nunca. Era como se... eu estivesse sendo absorvida para dentro de uma órbita distante, e não havia nada em que eu pudesse me agarrar para impedir. Era como se ele pudesse transpassar cada fiapo fino de minha mente até chegar aos meus pensamentos, e só quando uma voz soou acima de minha cabeça, me tirando daquele transe perturbador, percebi que eu também havia me debruçado sobre a mesa, e ambos estávamos muito próximos um do outro. — Hum. Eu espero não estar interrompendo nada... — a voz de Ivi me trouxe novamente a realidade. Eu ajeitei minha coluna rapidamente, engolindo em seco enquanto percebia que eu havia agido como uma i****a. Sua otária. Certifique-se de nunca mais olhar dentro dos olhos desse cara de novo...
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR