Pré-visualização gratuita 1- Franciele
Franciele Narrando
Me chamo Franciele, tenho 25 anos, sou magra, meus cabelos são pretos e longos, tenho 1,70 de altura, atualmente minha rotina é dedicada à casa e à minha filha que estuda em um colégio militar, o pai dela, meu marido, também é militar, e isso faz com que eu assuma grande parte das responsabilidades do lar sozinha. Ser esposa de militar não é fácil, muitas vezes, ele está ausente por conta do trabalho, e cabe a mim garantir que tudo funcione bem aqui em casa, minha filha tem uma rotina rígida na escola, e eu faço o possível para apoiar ela, ajudando nos estudos e garantindo que ela tenha tudo o que precisa, apesar dos desafios, eu amo minha família e faço tudo com muito carinho, cada dia é uma nova batalha, mas também uma nova oportunidade de ver minha filha crescer e se tornar uma mulher forte e disciplinada.
Eu nunca vou esquecer daqueles dias. Era sempre a mesma história: meu pai chegava em casa bêbado, tropeçando nas próprias pernas, os olhos vermelhos de raiva ou de frustração, eu nunca soube ao certo. O cheiro forte da bebida impregnava a casa antes mesmo de ele abrir a boca para gritar. E então começava: os xingamentos, as portas batendo, os copos quebrando no chão da cozinha. Eu e minha mãe nos encolhíamos em um canto qualquer, esperando a tempestade passar.
Eu era nova, mas já entendia que aquilo não era normal, que não era justo. Olhava para minha mãe e via o cansaço estampado no rosto dela, mas também via algo pior: esperança. Uma esperança cega e teimosa de que um dia ele mudaria, de que o homem que ela amava voltaria a ser aquele de antigamente. Eu tentei convencê-la. Tentei dizer que podíamos sair dali, recomeçar, fugir daquela prisão que chamávamos de casa. Mas ela me olhava com aqueles olhos marejados e dizia que ele ainda tinha jeito, que era só uma fase, que ele precisava dela. Cada vez que ela falava isso, uma parte de mim morria. Eu queria gritar, queria sacudi-la, queria fazê-la enxergar que ninguém deveria viver assim, muito menos ela. Mas, no fundo, eu sabia que nada que eu dissesse mudaria sua decisão. Então, fui guardando tudo dentro de mim, sonhando com o dia em que eu mesma conseguiria ir embora. Eu prometi para mim mesma que um dia eu sairia daquela casa e construiria um lar onde nunca precisaria ter medo. Onde ninguém precisaria se esconder de gritos e estilhaços no chão. E, anos depois, eu cumpri essa promessa.
Hoje, sou uma mulher casada e construí uma vida diferente da que vivi na infância. Minha filha é meu maior orgulho, e tudo que faço é pensando na felicidade dela. Não deixo que nada a faça sentir medo ou insegurança. Quero que ela cresça sabendo que merece respeito, que merece amor e que nunca, em hipótese alguma, deve aceitar menos do que isso. Olho para ela e vejo a força que um dia precisei ter. E isso me faz seguir em frente, sabendo que quebrei o ciclo e construí um futuro melhor para nós.
Certa noite, enquanto a colocava na cama, ela me olhou com aqueles olhinhos brilhantes e perguntou:
— Mamãe, você já teve medo quando era pequena?
Respirei fundo, sentando ao lado dela e acariciando seus cabelos.
— Sim, filha. Tive muitos momentos difíceis quando era pequena, mas sempre soube que um dia tudo mudaria.
Ela franziu a testa, pensativa.
— E como mudou?
Sorri, sentindo um aperto no peito.
— Porque eu prometi para mim mesma que faria diferente, que te daria uma vida cheia de amor e segurança. E é isso que faço todos os dias.
Ela sorriu, me abraçando forte.
— Eu te amo, mamãe. Obrigada por cuidar de mim.
Segurei as lágrimas e retribuí o abraço.
— Eu te amo mais, meu amor. Sempre vou cuidar de você.
Ela se aconchegou no travesseiro, ainda me olhando com curiosidade. Naquela noite, depois que ela dormiu, fiquei sentada na poltrona ao lado da sua cama, observando sua respiração tranquila. Pensei em tudo que passei, em como minha história poderia ter sido diferente se minha mãe tivesse tomado uma decisão diferente. Mas então percebi: eu tomei essa decisão. Eu quebrei o ciclo. Eu sou a mudança que queria ver. E isso me dá forças para seguir em frente, todos os dias.
Depois de ajeitar o cobertor da minha filha e dar um beijo em sua testa, saí do quarto dela em silêncio. Fechei a porta devagar e fui para a cozinha. Meu marido tinha acabado de chegar, estava sentado no sofá, tirando a farda com aquele olhar cansado de sempre.
Fui até o fogão, coloquei a comida no prato e levei até ele, como sempre fazia. Ele me olhou de relance, murmurou um "obrigado" baixo, sem muito ânimo. Estranhei, mas deixei pra lá. Me sentei ao lado dele e, antes que ele começasse a comer, me aproximei para lhe dar um beijo.
Foi aí que senti. Algo nele estava diferente. Ele não correspondeu como de costume. Seu toque não teve aquela firmeza, aquele calor que eu conhecia tão bem. Ele desviou o rosto, como se estivesse distante, como se algo o estivesse consumindo por dentro.
Meu peito apertou. Algo tinha mudado. Eu só não sabia o quê.
Fiquei parada por alguns segundos, tentando entender o que estava acontecendo. Observei seu rosto, mas ele evitava me encarar. Pegou os talheres e começou a comer em silêncio, como se eu nem estivesse ali.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, mantendo a voz calma.
Ele demorou um pouco para responder, mastigando devagar, como se estivesse processando a pergunta.
— Só um dia difícil — disse por fim, sem emoção na voz.
Não acreditei. Eu conhecia meu marido, sabia quando algo o incomodava de verdade. Mas também sabia que, se ele não quisesse falar, eu poderia insistir a noite inteira que ele continuaria fechado.
Suspirei e me encostei no sofá, cruzando os braços. Minha mente começou a trabalhar rápido, puxando lembranças dos últimos dias, procurando qualquer sinal de que algo estivesse errado. Mas até ontem, ele ainda era o mesmo. Me beijava antes de sair para o trabalho, me mandava mensagens quando tinha tempo, perguntava sobre nossa filha… então, o que tinha mudado de um dia para o outro?
Engoli seco e resolvi tentar mais uma vez.
— Você sabe que pode falar comigo, né?
Dessa vez, ele parou de comer e olhou para frente, encarando o nada. O maxilar travado, os dedos apertando o garfo com força.
— Eu sei.
Foi só isso que ele disse. Mais uma resposta curta, vazia.
Meu coração apertou ainda mais. Algo estava errado, e eu ia descobrir o que era.