No jardim, o evento seguia em pleno esplendor. O sol poente reluzia nas taças de espumante e nas joias das convidadas. Veronica McCarthy subiu ao pequeno palco de madeira, cercada por arranjos de lírios brancos e pela logomarca da fundação beneficente (da qual era dona) bordada no tecido dourado.
Ela pegou o microfone e, com a voz firme e o sorriso ensaiado, chamou por Andrew para discursar com ela.
Mas Andrew não estava ali.
Veronica fez uma pausa breve, esperando vê-lo surgir entre os empresários e filantropos, o terno azul escuro destacando-o da multidão. O murmúrio das conversas cresceu quando a espera se alongou mais do que deveria. Ela disfarçou com um sorriso elegante e fez uma piadinha para os convidados, enquanto seu olhar percorria os rostos.
Victor Montgomery aproximou-se por trás do palco, discreto, inclinando-se até quase tocar o ombro dela. O sussurro m*l chegou a se misturar ao som dos violinos.
— O senhor McCarthy deixou a mansão há poucos minutos. Sozinho.
Veronica virou o rosto, sem alterar a expressão.
— Como assim deixou a mansão sozinho? Para onde ele foi?
Victor assentiu, mantendo o tom baixo.
— Logo depois que a recepcionista inútil foi dispensada. Foi visto seguindo na mesma direção que ela tomou a pé.
Por um segundo, Veronica sentiu o sangue gelar.
— Entendo. — respondeu, fria, e retomou o microfone. — Vou discursar sozinha.
Victor recuou. Veronica respirou fundo e retomou o discurso com a voz impecável, como se nada tivesse acontecido, dizendo aos presentes que Andrew precisou se aumentar em razão de um m*l estar. Falou, enfim, sobre solidariedade, sobre o dever das famílias privilegiadas, sobre o exemplo que os McCarthy pretendiam deixar ao mundo.
Por dentro, porém, as palavras se embaralhavam. Enquanto os aplausos soavam e as câmeras registravam o sorriso perfeito para a Vanity Fair e o The New York Times, Veronica manteve o olhar fixo no horizonte. Tentava imaginar o que poderia haver naquela recepcionista inexpressiva para fazer Andrew ir atrás dela sem explicações.
***
Andrew dirigia sem pressa, os olhos concentrados na estrada, mas em cada desvio de olhar estudava Sophie brevemente. Até que respirou fundo, como quem luta contra algo interno, e quebrou o silêncio:
— Escuta, aquilo que aconteceu na festa. — a voz grave, quase áspera. — Não deveria ter acontecido.
Sophie virou o rosto para ele pela primeira vez desde que entrara naquele carro. Estava realmente surpresa.
— Senhor McCarthy, eu…
— Veronica não tinha o direito de tratá-la daquela forma. — completou, sem erguer os olhos da estrada. — Sinto muito.
As palavras não foram ditas com doçura, nem com a intenção de consolar. Eram secas, quase protocolares, mas carregavam um peso que Sophie não esperava, pois pela primeira vez naquele dia, alguém havia reconhecido a injustiça e a tratado com o mínimo de humanidade.
Ela inspirou devagar, tentando controlar a emoção que subia à garganta.
— Obrigada — murmurou.
Andrew assentiu levemente, sem acrescentar nada. A verdade é que não falava por ela. Falava por ele mesmo. Cada palavra era um corte contra a própria esposa. Depois do e-mail que ainda ardia em sua memória, até um pedido de desculpas soava como um ato de ruptura.
O celular de Sophie vibrou dentro da bolsa. Ela puxou o aparelho rápido, como se fosse oxigênio. Uma mensagem de Emily: Lucas continua estável. Exames em andamento.
Andrew notou o brilho ansioso nos olhos dela.
— Alguém esperando por você? — perguntou, sem disfarçar a curiosidade.
— Não… É… é só família, na verdade. — Sophie respondeu, guardando o celular.
O carro voltou ao silêncio de antes. Denso, desconfortável, mas não exatamente hostil. Os dois trocaram apenas mais algumas palavras. Andrew perguntou o endereço em voz neutra, e Sophie respondeu meio constrangida
Quando o navegador anunciou que o destino estava próximo, a noite já ocupava cada mísero canto de Nova York.
Os prédios baixos do Harlem eram banhados por uma claridade amarelada, o som de vozes nas calçadas, vitrines refletindo o movimento da rua. O bairro pulsava em outra cadência, viva e imperfeita, distante dos gramados milimétricos dos Hamptons.
Andrew diminuiu a marcha e observou discretamente. Rostos apressados cruzavam pelas calçadas estreitas, e um saxofone distante soava em algum apartamento. Aquela desordem parecia, de algum modo, mais autêntica que os protocolos de sua própria vida, ele pensou.
Sophie o orientou até uma rua estreita.
— É aqui — disse, com a voz cansada.
A BMW parou junto à calçada. Ela abriu e hesitou por um instante, como se buscasse algo para dizer.
— Obrigada pela carona, senhor McCarthy.
Andrew permaneceu em silêncio por um instante, o motor ainda ligado, o som grave e constante parecendo preencher os espaços que as palavras não ousavam. Sophie se remexeu no banco, sem saber se abria a porta do passageiro e deixava o carro de vez ou se esperava a réplica de seu benevolente motorista.
Mas Andrew não falava coisa alguma. Encarava Sophie de maneira ambígua.
— Sophie… — ele disse, finalmente — eu tenho uma proposta para você.
Ela arqueou as sobrancelhas, confusa.
— Uma proposta?
Andrew engoliu o ar como quem se prepara para um mergulho. O olhar firme, sem rodeios.
— Sim, uma proposta que a princípio vai parecer um pouco maluca, mas… Eu quero que você finja ser minha filha.
O silêncio que se seguiu foi quase físico, pesado o suficiente para cortar a respiração. Sophie piscou, achando que tinha ouvido errado. Não, ela só podia ter ouvido errado.
— O quê?
— Você ouviu bem: gostaria que você fingisse ser minha filha. Uma filha de um caso antigo, extraconjugal, mas que gerou uma filha bastarda… que seria você.
Sophie soltou uma risada curta, quase incrédula.
— Isso é uma piada?
— Não, não tem piada nenhuma. É só uma ideia que acabei de ter. De repente você me pareceu uma bela vingança. — Andrew falou como quem acabara de formular o próprio destino. — Minha mulher me enganou por mais de vinte anos. Fez o mundo acreditar numa família perfeita, e eu acreditei também. Ela me fez criar como meu um filho que não tem o meu sangue, que não é meu herdeiro legítimo! Agora quero que ela sinta o mesmo gosto amargo. Quero que veja em você o reflexo da minha suposta traição.
Sophie demorou a responder. As mãos suavam no colo.
— Isso é... absurdo. O senhor não me conhece, não sabe nada sobre mim.
—Sei que precisa de dinheiro ou senão não teria aguentado calada a humilhação da Veronica. Por isso, quero te ajudar.
— Me ajudar me fazendo fingir que sou sua filha? De onde você tirou essa ideia maluca?! Você não tem cara de quem lê Sidney Sheldon.
Andrew apoiou o cotovelo na janela, a voz descendo para um tom quase íntimo.
— A ideia pode até ser maluca, mas o pagamento seria generoso, isso eu te garanto. Eu te pagaria o bastante para você nunca mais se preocupar com nada.
Era tentador? Era! Mas ao mesmo tempo completamente insano.
— O senhor é louco. — Sophie abriu a porta do carro com um gesto brusco. — Eu não sou parte da sua doença, senhor McCarthy. Muito menos da sua vingança. Boa noite e adeus.
Sophie saltou do carro antes que Andrew dissesse mais alguma coisa. O vento frio da noite a golpeou como uma bofetada, e ela caminhou até o prédio onde morava, sem olhar para trás.