O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo piscar compassado dos monitores. O ar cheirava a álcool e silêncio. O Hospital Infantil Mount Sinai dormia, mas Sophie não. Sentada ao lado do leito, ela observava a respiração frágil de Lucas, o peito subindo e descendo como se cada fôlego fosse uma promessa. A madrugada se arrastava, lenta e fria, e o som dos aparelhos se misturava ao ritmo do coração dela.
A enfermeira entrou em passos leves, verificou o soro, ajustou a tela do monitor e saiu sem dizer palavra. O som da porta voltando à posição ecoou no corredor vazio, como se selasse o isolamento daquele pequeno mundo.
Sophie inclinou-se um pouco mais, ajeitou a coberta até o queixo do menino e passou os dedos pelos fios finos de cabelo. O toque era tão suave que quase se confundia com uma prece. O corpo pedia descanso, mas sua mente se recusava a ceder. Fechou os olhos e encostou a testa no colchão, sentindo o calor fraco da pele de Lucas.
Por alguns instantes, o som dos monitores pareceu distante, dissolvido em um zunido que vinha de dentro dela. As lembranças começaram a surgir devagar, como reflexos em um vidro molhado. Primeiro o cheiro da chuva. Depois, o farol de um carro. E então, o rosto de Daniel se formando na escuridão da memória, a boca dele se movendo em palavras que ela nunca quis ouvir de novo.
O hospital desapareceu, e Sophie voltou àquela noite em que tudo começou a ruir.
A chuva castigava o para-brisa com força, e o som do motor preenchia o silêncio entre eles. Sophie olhava para Daniel, esperando dele alguma a******a ou demonstração de afeto que nunca vinha. Seu coração estava disparado e ela retorcia o aparelho do teste de gravidez feito naquela manhã, no banheiro do trabalho, com dois palitinhos indicando positivo.
— Eu fiz o exame, Dan — ela disse, então, com a voz quase engolida pela tempestade. — E deu positivo.
Daniel não desviou os olhos da estrada. Continuou dirigindo como se ela não tivesse dito nada. A forma como ele agarrava o volante indicava impaciência e irritação.
— A gente pode resolver isso juntos — Sophie insistiu, tentando tocar o braço dele.
Mas Daniel recusou o toque. Ele encostou o carro bruscamente ao lado de um poste e ligou pisca-alerta, fazendo sua luz vermelha e impaciente refletir na pele pálida de Sophie.
— Resolver? — a voz dele saiu fria, como se cuspisse a palavra. — Você acha que ter um filho agora é resolver alguma coisa?
— É o nosso filho, Daniel. Eu achei que você…
— Que eu o quê? — Ele virou-se enfim, o olhar duro, sem um traço de alegria por aquela notícia. — Que eu ia jogar fora tudo o que construí por causa de um caso que eu nunca tive a intenção de prolongar?
Sophie engoliu em seco. Suas mãos se retorciam novamente contra os joelhos.
— Eu não quero nada de você. Só achei que devia saber….
Daniel riu, um som breve e sem alegria.
— Beleza, então, agora eu sei! Tá satisfeita?!— ele tirou a carteira do bolso, pegou algumas notas e jogou no colo de Sophie. — Acho que isso daí vai dar para você resolver essa questão.
— Você não está entendendo, eu não quero o seu dinheiro — a voz dela falhou, trêmula. — Eu só… eu te amava.
— Então é melhor esquecer esse amor antes que ele vire má sorte para você e para esse pedaço de carne crescendo aí dentro. — Daniel abriu a porta enquanto olhava com desprezo para a barriga de Sophie. — É melhor não vir mais atrás de mim e nem tentar algum contato comigo ou com a minha família, senão eu não vou ficar só na ameaça.
Ela ficou imóvel, encarando o perfil dele, o homem que uma semana antes jurava amá-la. Agora era só um estranho.
Sophie desceu. A chuva caiu pesada e implacável sobre ela. Quando olhou para trás, o carro já estava se afastando, o som do motor engolido pela tempestade.
Ela desperta com um sobressalto e ouve o som do respirador de Lucas, dando-se conta de que tudo tinha sido apenas uma lembrança disfarçada de sonho. Olhou mais uma vez para o filho tão pequeno, tão frágil, lutando para sobreviver. Segurou a mãozinha dele e voltou a dormir.
Despertou somente no início da manhã seguinte, com o barulho da porta sendo aberta. Emily entrou trazendo duas xícaras de café. Seu jaleco estava amassado, o cabelo preso às pressas, mas o olhar mantinha aquela doçura paciente de quem dava a vida para ver outras pessoas bem. Colocou uma das xícaras na mesinha ao lado do leito e ajeitou a prancheta debaixo do braço.
— Nosso menino continua estável, mas sem melhora significativa — disse, consultando rapidamente os gráficos na folha.
Sophie não respondeu e permaneceu sentada com os dedos entrelaçados sobre o cobertor de Lucas, observando o peito do menino subir e descer em intervalos curtos. A respiração dele era o único som que importava para ela.
Emily pousou a prancheta, respirou fundo e deixou escapar o que vinha tentando adiar.
— Sophie, eu preciso te dizer algo realmente sério.
As palavras ficaram presas no ar como fumaça fria. Sophie levantou o olhar devagar, os olhos marejados, sem dizer nada. Emily tentou manter o tom profissional, mas a voz tremia.
— O hospital suspendeu o financiamento da pesquisa. — ela continuou. — Faltam recursos e a diretoria decidiu priorizar outros programa que, na opinião deles, são mais urgentes. Sem financiamento, nós não vamos poder continuar com a pesquisa.
Sophie apenas balançou a cabeça, enquanto observava a respiração tão fraca de Lucas. Seus olhos ficaram molhados de lágrimas. O silêncio entre as duas pesou como um diagnóstico.
— Eu vou tentar enviar o relatório para outra fundação, talvez consigam uma extensão de prazo… — Emily tentou dar alguma esperança para a irmã.
Emily se aproximou, tocando o braço dela com cuidado e disse:
— Você precisa descansar.
Sophie forçou um sorriso fraco, os lábios quase imóveis.
— Eu não posso descansar enquanto ele respira por aparelhos, Em…
Emily quis insistir, mas sabia que seria inútil. Limitou-se a sentar ao lado da irmã, entregando-lhe o café. As duas ficaram ali, olhando o menino dormir, enquanto o amanhecer tingia o vidro do quarto com uma luz pálida.
Sophie deixou o quarto, sentindo-se preocupada com o filho. O corredor do hospital cheirava a desinfetante e fim de madrugada. O som distante de rodinhas de maca e passos apressados quebrava o silêncio. Ela caminhava devagar. Tinha o corpo cansado, o olhar perdido no chão encerado. Quando virou a esquina em direção à máquina de café, parou bruscamente e não acreditou no que:
Andrew McCarthy!