Capítulo 4

1316 Palavras
Andrew McCarthy estava ali. O terno caro parecia um pouco amarrotado, o nó da gravata um pouco frouxo, o rosto abatido. Parecia deslocado naquele ambiente de luz fria e paredes pálidas, como uma peça cara esquecida no lugar errado. Ao percebê-la a poucos metros de distância, Andrew levantou o copinho de café em sinal de cumprimento. Sophie fez menção de dar meia volta e sair dali, mas Andrew a chamou. — Calma, Senhorita Sanders, não precisa fugir de mim como se eu fosse um criminoso — disse ele de onde estava. Sophie piscou, surpresa e contrariada, mas desistiu da fuga. — Você é maluco, então eu acho que eu preciso fugir, sim. Já tenho problemas demais! Um leve sorriso cruzou o canto da boca de Andrew, mas sem alegria. — Mesmo que eu tenha uma forma de salvar seu sobrinho? Ela sentiu o estômago apertar. — O senhor está me seguindo? Como sabe sobre o Lucas? — Você trabalhou como recepcionista do buffet que cuidou do evento de ontem, esqueceu? Muito fácil conseguir seus dados e saber tudo sobre você. — Andrew bebeu o café em um gole só e fez uma breve careta. — Além disso, eu fui conversar com a diretoria do hospital — respondeu, calmamente. — Ouvi que estão pretendendo encerrar a pesquisa da sua irmã em poucos dias. O que é muito triste, porque o tratamento experimental foi o único que estabilizou o quadro de imunodeficiência do Lucas. — E por que isso é da sua conta? — Sophie cruzou os braços, o tom de quem já não confia em ninguém. — Porque eu posso mudar o rumo dessa história. — Ele deu um passo adiante, a voz baixa, quase um sussurro. — Quero financiar a pesquisa. Sophie riu, sem humor. — E o que ganha com isso? — Você sabe, Sophie. Sophie estreitou os olhos. — Ajudar você a destruir sua esposa? Andrew ficou em silêncio por um momento, como se medisse as palavras. Depois respondeu, sereno: — Me ajudar a recuperar o que ela destruiu, melhor dizendo. Havia algo na voz dele que não parecia raiva, mas um tipo de dor contida, meticulosa, como quem aprendeu a sofrer em silêncio. Sophie soltou o ar devagar. — Senhor McCarthy, me desculpe, mas isso é maluquice… Andrew se aproximou de Sophie, entre o intimidador e o amável. Por um segundo, seu perfume caro se misturou ao cheiro metálico do hospital. — Sua irmã é uma pesquisadora brilhante. O projeto dela pode salvar o Lucas e eu posso garantir que nada o interrompa. Por um instante, o corredor pareceu pequeno demais para aqueles dois desesperados. O som de um monitor soou distante, lembrando que havia vidas em jogo além daquela conversa. Andrew se afastou, ajeitando o paletó, como quem acabava de fechar um negócio. — Pense nisso, Sophie — disse, antes de sair. — Às vezes, o preço da salvação é menor do que o da culpa. Sophie ficou parada no meio do corredor. Tinha até se esquecido do café, pois o gosto amargo subindo à boca antes naquele momento era outro. — Senhor McCarthy! — Sophie o chamou antes que ele sumisse. — Espera! Eu… Eu quero saber como posso fazer… para te ajudar… Satisfeito, Andrew se voltou calmamente e deixou um pequeno meio sorriso escapar no meio da barba bem feita. *** A lanchonete do hospital tinha o ar cansado de quem já viu todas as madrugadas do mundo. O cheiro de café velho misturava-se ao som distante de talheres e conversas abafadas. Sophie entrou ao lado de Andrew, sentindo o desconforto crescer a cada passo. Ele caminhava à frente, firme em seu passo de quem estava acostumado a decidir o destino das pessoas. No canto mais reservado, um homem os esperava. Elegante demais para aquele cenário. Terno cinza claro, gravata estreita, um leve sotaque francês no gesto de acender o cigarro eletrônico que não podia usar ali. Quando viu os dois, levantou-se. — Senhorita Sanders, muito prazer em finalmente conhecê-la. — A voz era cortês, mas o sorriso não alcançava os olhos. — Sou Sean Duvall, advogado do senhor McCarthy. Estou aqui para cuidar do acordo. A confusão no olhar de Sophie ao perceber que Andrew tinha levado um advogado até o hospital não passou despercebida. Andrew apenas respondeu com um sinal para que se sentassem. Sean abriu a pasta de couro sobre a mesa. O som do fecho ecoou como um disparo discreto. Retirou de dentro um maço de papéis timbrados com letras miúdas. Entregou-o para Sophie ler. — Tecnicamente, nada aqui fala de paternidade — ele comentou enquanto Sophie passava os olhos pelas linhas do contrato. — O que temos é um Acordo de Representação e Confidencialidade. O senhor McCarthy se compromete a financiar integralmente o projeto de pesquisa da doutora Emily Miller, além de cobrir todos os custos do tratamento do menino, Lucas. Sophie o interrompeu, confusa. — Eu não estou entendendo… Eu preciso mesmo assinar um contrato para… Sean ergueu os olhos devagar. — Para manter discrição absoluta e colaborar publicamente com uma narrativa familiar? Sim, precisa, Senhorita Sanders. Estamos falando do CEO da NAVAL, uma das maiores fábricas de embarcações do mundo. Absolutamente tudo é contratual quando envolve esse sobrenome, mon cher. Sophie franziu o cenho. — Narrativa familiar? — Chame de encenação pública, se preferir. — o advogado ajeitou os punhos da camisa. — Mas o que importa é que o mundo não lê contratos, senhorita Sanders. O mundo lê somente as manchetes. Sophie prosseguiu com a leitura. O texto parecia inofensivo: confidencialidade, imagem pública, conduta. Nada que dissesse claramente o que estavam tramando. E talvez por isso fosse tão perigoso. Andrew não disse uma palavra. Limitava-se a observá-la do outro lado da mesa, o rosto impassível, os dedos entrelaçados sobre o relógio de pulso. Sophie respirou fundo. — E se eu disser não? Sean respondeu sem hesitar, como quem já esperava a pergunta: — A pesquisa da sua irmã perde o financiamento em quinze dias. E, pelo que sei, o menino não tem tanto tempo. O silêncio que se seguiu pesou como chumbo. Sophie baixou o olhar para a folha, a caneta repousando sobre a linha da assinatura. Por um instante, pensou em Lucas, no som do respirador, no olhar esperançoso de Emily. — Eu consigo imaginar o quanto tudo isso está soando louco para você, Senhorita Sanders. — Sean Duvall engrossou seu discurso de persuasão. — E sei melhor do que ninguém, afinal conheço o Andrew desde os tempos da faculdade de Direito, e conheço os métodos pouco convencionais dele. — ele olhou para Senhor McCarthy, que preferiu encarar o porta-guardanapos neste momento. — Mas posso te garantir que você só tem a ganhar se aceitar. Quando ergueu o rosto, Andrew a observava, imóvel… *** Sophie empurrou a porta do quarto de Lucas com cuidado. Emily cochilava na poltrona ao lado do leito, a cabeça tombada, o jaleco amassado, as olheiras profundas. Ela nem mesmo tinha ido para casa. Lucas seguia dormindo. Estável, como sua irmã lhe dissera pouco antes Sophie se aproximou, as mãos ainda trêmulas por tudo o que acabara de vivenciar. Ajoelhou-se ao lado da cama, pegou a mão pequena do filho e encostou os lábios nela. — A mamãe fez o que precisava — sussurrou, quase sem voz. Ficou assim por alguns segundos, tentando convencer a própria consciência de que havia escolhido o certo. O monitor piscava, compassado, como um lembrete de que a vida seguia frágil, mas insistente. Do lado de fora, o sol começava a aparecer. No estacionamento, Andrew McCarthy entrou no carro de Sean Duvall, pensativo e em silêncio. O advogado abriu a pasta de couro e entregou o contrato para ele. Andrew passou o polegar sobre a tinta fresca, sem emoção aparente, apenas um olhar longo e distante, como quem acabava de selar o próprio destino ao ler aquele nome: SOPHIE SANDERS
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR