Pré-visualização gratuita Prólogo
O vento uivava como um lobo solitário entre as torres do castelo, cortando o silêncio gélido que reinava naquele lugar perdido entre florestas antigas e montanhas cobertas de neve. As pedras escuras da fortaleza, cobertas por uma fina camada de gelo, pareciam guardar segredos que o tempo se recusava a apagar. A neblina rastejava pelos corredores, como se tivesse vida própria, deslizando entre colunas de mármore n***o e portas pesadas de carvalho.
No coração do castelo, escondido atrás de paredes espessas e portas blindadas, havia um escritório. Não era apenas uma sala e sim, um santuário do poder. Um espaço onde o passado e o presente se encontravam em equilíbrio perigoso. As paredes eram revestidas de madeira nobre, escuras como o próprio céu de inverno, fotografias em preto e branco de antigos chefes da máfia observavam silenciosas desde suas molduras douradas, enquanto prateleiras exibiam relíquias da velha guarda misturadas a tecnologia de ponta, como telas de vigilância e dispositivos criptografados.
Ali, atrás de uma imponente mesa de nogueira, ele permanecia. O Alfa. O chefe da máfia russa. Um homem de presença quase sobrenatural, envolto em uma aura de autoridade que ninguém ousava desafiar, seus olhos, de um cinza cortante como aço, varriam relatórios, mapas e nomes com uma frieza calculada. Cada decisão tomada naquele lugar tinha peso de vida e morte, e seu império se estendia muito além das fronteiras visíveis.
Mas apesar do poder absoluto, havia um vazio. Uma ausência que ecoava no silêncio do escritório como uma nota suspensa no ar. Ele sentia, com a precisão de um predador que reconhece sua presa antes mesmo de vê-la, que havia algo a caminho. Sua ômega predestinada. A única capaz de atravessar as muralhas invisíveis que ele erguera ao redor do próprio coração. Ela ainda não havia chegado, mas ele a esperava. Em meio ao frio eterno e à solidão que nem o luxo era capaz de esconder, ele sabia: quando ela viesse, traria consigo o calor necessário para despertar o que há muito tempo ele havia enterrado. E talvez, apenas talvez, o homem por trás do Alfa finalmente respirasse.
Na Itália, onde o sol beijava as colinas e o aroma de lavanda se misturava ao das padarias nas primeiras horas da manhã, a vida seguia tranquila para ela. A ômega. Seu mundo era feito de simplicidades e encantos: caminhadas por vielas de pedra antiga, risos ao lado dos pais em jantares regados a vinho tinto e música clássica tocando ao fundo enquanto desenhava à luz do entardecer. Havia paz em seus dias, uma paz suave, quase inocente.
Ela morava em uma casa charmosa, coberta por trepadeiras e janelas abertas para os campos verdes, onde a vida corria em ritmo lento e doce. Trabalhava em uma pequena escola para crianças do jardim de infância, onde sua sensibilidade e intuição chamavam atenção de todos. Era uma alma calma, embora carregasse no fundo dos olhos um brilho inquieto, como se algo dentro dela estivesse à espera de algo que nem ela sabia nomear.
Tudo parecia estável… até o dia em que o telefone tocou.
Foi no fim da tarde, quando o céu começava a dourar. O toque do celular soou estranho, quase deslocado naquele cenário tranquilo e ao atender, sua expressão mudou, primeiro confusão, depois silêncio. Um daqueles silêncios que congelam o tempo. A voz do outro lado era fria e mecânica, carregando o peso da tragédia.
Seus pais haviam sofrido um acidente. Um caminhão desgovernado na estrada entre Florença e Siena. Morreram na hora, disseram, sem dor. Mas essas palavras não significavam nada diante da dor que rasgava por dentro.
O mundo, que antes era caloroso e colorido, ficou cinza de repente e tudo perdeu o sentido. A casa, a escola, os campos, tudo parecia parte de uma vida que já não era mais dela e o chão lhe foi tirado dos pés, e uma nova realidade se impôs, feita de luto, saudade e um vazio impossível de preencher.
E naquele momento, sem que ela soubesse, um fio invisível começou a puxá-la em direção ao norte, para longe da luz da Toscana, para dentro do frio de um castelo russo. Então, decidida e vivendo em seu luto, a jovem ômega começa a juntar seus caquinhos aos poucos, agora sozinha e sem seus pais, ela precisava recomeçar até que em um dia, homens estranhos entram em sua casa e tudo que dizem é que ela precisa ir com eles, para sua segurança.
Era onde o destino, até então adormecido, começava a despertar.
E ela foi, rumo a Rússia. Deixando para trás todas as lembranças felizes que viveu com seus pais, onde viveu uma vida feliz até seus vinte e seis anos, mas que agora, era símbolo de uma enorme tristeza que afundava seu peito. Duas almas. Dois corações e dois lobos. Opostos, mas que em todas as vidas encontraram alguma forma de se conectar, mas que sempre, sempre se reencontravam.
Mas agora, as coisa poderiam ser diferentes, pois Kai Vasiliev não era um alfa fácil de lidar e Aurora La Rosa, talvez, não entendesse sua forma de amar.