Capítulo Um: Dor e Lágrimas.

1513 Palavras
Aurora Narrando: Itália, tempos atuais. O céu parecia chorar comigo enquanto o carro seguia pela estrada sinuosa de volta para casa enquanto as gotas de chuva batiam no vidro como se tentassem consolar o peso no meu peito. Eu estava no banco de trás, entre minha madrinha Maria e Antonio seu filho e meu ex-namorado. O silêncio entre nós era espesso, cortado apenas pelo som dos limpadores e dos nossos pensamentos não ditos. Ainda me lembro do momento em que o telefone tocou em uma uma tarde comum, eu estava na cozinha, preparando café, quando ouvi o toque agudo do celular e atendi sem pensar muito, quem liga numa terça-feira à tarde, senão por banalidades? “Senhorita La Rosa?” disse uma voz masculina, profissional, mas com uma gravidade que congelou meu sangue. “Aqui é da Polizia Stradale. Lamentamos informar que seus pais sofreram um acidente de carro na SP36 e infelizmente eles não resistiram aos ferimentos.” O tempo parou e meu corpo seguiu em pé, mas minha alma se descolou dali, como se fosse apenas uma espectadora da minha própria ruína. Lembro de deixar a xícara cair, do cheiro de café invadindo o chão, do som do vidro se espatifando e do grito. Um grito que nem parecia meu. E agora, sentada nesse carro, tudo parece distante e ao mesmo tempo sufocantemente presente. A casa que estamos prestes a alcançar já não é mais um lar, é um eco de tudo o que foi e que jamais será de novo. Antonio, ao meu lado, mantém o olhar fixo pela janela, mas sei que ele sente, afinal ele conhecia meus pais. Foi praticamente da família por anos e ainda que tenha sido ele quem terminou, sei que também carrega essa perda. Maria segura a minha mão com força. Ela sempre foi uma figura maternal pra mim, mas agora, ela parece carregar a difícil tarefa de ser o que resta da minha estrutura e não sei o que vai acontecer amanhã e nem se vou conseguir dormir essa noite. Mas neste instante, só quero chegar e abrir a porta da casa onde cresci, sentir o cheiro deles espalhado pela casa, pela última vez. Porque quando esse cheiro desaparecer… acho que é quando vai doer de verdade. A chave tremeu na minha mão quando alcancei a porta. Era a mesma de sempre, a que meu pai mandou fazer quando eu tinha dez anos, com o pequeno pingente de lua que ele mesmo soldou ao chaveiro e então o som da fechadura se abrindo ecoou dentro de mim como um adeus. Respirei fundo antes de girar a maçaneta notando que Antonio e Maria me observavam em silêncio. Empurrei a porta devagar e o calor da casa me envolveu como um velho cobertor esquecido, ainda impregnado do cheiro deles. O aroma doce de lavanda da minha mãe, misturado ao toque amadeirado e selvagem do meu pai, estava em todos os cantos grudado nas cortinas de linho bege, nos estofados de veludo, nas almofadas bordadas à mão que minha mãe costurava nos domingos chuvosos. O saguão tinha aquele tapete oval trançado que sempre escorregava quando eu passava correndo e a lareira que se encontrava apagada agora, ainda guardava vestígios do último fogo aceso por meu pai. Acima dela, fotos nossas, uma Aurora sorridente entre um alfa e uma ômega que eram o universo. Nossos sorrisos eram largos, despreocupados e cheios de vida. Eu não consegui dar mais do que dois passos quando a dor se enrolou em mim como uma corrente, me fazendo cair de joelhos ali mesmo, no meio da entrada, os dedos cravando o tapete e foi quando chorei como uma filhote sozinha na floresta, perdida, com a alma aos pedaços. Eu era isso agora. Uma ômega órfã, desamparada, com os ecos dos uivos do meu clã apagando-se um por um dentro de mim, meus pais eram minha matilha, meu pilar e tudo o que eu mais amava, mas agora eles foram tirados de mim da forma mais c***l, sem que eu pudesse ao menos me despedir. Maria se ajoelhou ao meu lado sem dizer nada, apenas me envolvendo com os braços e deixou que eu chorasse em seu colo, como se eu fosse a menina de cinco anos que rasgou o joelho ao cair da bicicleta. Seus dedos passaram pelo meu cabelo com carinho e paciência. — Eles ainda estão aqui, amore mio. — Ela sussurrou no meu ouvido. — Em cada canto, em cada cheiro e você não está sozinha. Antonio ficou de pé por alguns instantes, inquieto. Ele sempre foi assim, detestava não saber como agir diante da dor. Mas, finalmente, se aproximou, abaixando-se ao nosso lado. — Se quiser… posso ajudar a arrumar tudo com a mamma. — Disse ele, a voz baixa, respeitosa. — Principalmente o escritório do seu pai… eu sei que vai ser difícil pra você entrar lá. Levantei os olhos para ele. Por um instante, vi o garoto que segurou minha mão na escola quando eu chorei pela primeira vez ao ouvir que lobos também morriam, vi o amigo antes do ex-namorado e, naquele momento, agradeci em silêncio por ele ainda estar aqui. Assenti com a cabeça, a voz presa na garganta. — Obrigada… mas deixem o quarto deles por último, eu ainda não estou pronta. — Vamos fazer tudo no seu tempo, tesoro. Com amor e com cuidado. — Maria apertou minha mão. E então, lentamente, eu me levantei. Sabia que cada cômodo traria um golpe novo, como o aroma do pão que minha mãe fazia aos domingos e o som do velho toca-discos que meu pai teimava em consertar. Mas aquela era minha casa e por mais que agora ela fosse feita de ausência, também era feita de memórias. E eu precisava delas para não me esquecer de quem sou, Aurora La Rosa, filha de dois lobos extraordinários. Ainda de pé. O quarto deles parecia intacto, como se o tempo tivesse parado ali dentro. A colcha de linho branco, cuidadosamente esticada sobre a cama, ainda carregava os vincos da última arrumação feita pela minha mãe e as cortinas bege dançavam levemente com o vento que passava pela janela entreaberta. E o cheiro, meu Deus, o cheiro deles. Deitei devagar sobre o lado da cama onde meu pai costumava dormir, afundando o rosto no travesseiro dele, o tecido ainda impregnado com seu perfume, uma mistura de musgo, floresta úmida e um toque de café preto. Era o cheiro da proteção, do alfa da casa e o outro travesseiro, mais delicado, exalava lavanda e baunilha, puro aconchego, o cheiro da minha mãe, da mulher que me fazia chá nas cólicas, que penteava meus cabelos em silêncio quando eu chorava por amor. Me encolhi entre esses dois mundos, como se pudesse me esconder do presente e mergulhar no passado onde ainda era possível ouvir a risada deles ecoando no corredor. Uma lágrima quente escorreu pela minha bochecha, mas eu não a limpei. Queria sentir e precisava sentir. Ouvi passos suaves se aproximando. A porta rangeu baixinho e então Antonio entrou. Não me virei, mas senti sua presença hesitante, pesada, como se ele tivesse lutado consigo mesmo antes de cruzar aquele limiar. — Não tem nada demais no escritório. — Ele disse depois de um longo silêncio, a voz baixa, quase distante. — Só os papeis de sempre… livros, fotos, aquela velha máquina de escrever que ele jurava que ainda era melhor do que qualquer computador. Eu continuei deitada, ouvindo sua voz como se ela viesse de um sonho, não perguntei por que ele parecia nervoso ou o que realmente o trouxe até ali, mesmo que fosse curioso seu comportamento, mas deveria ser apenas o luto. — Mas… — Ele hesitou e eu ouvi o som de seus dedos tamborilando no batente da porta — Provavelmente vai ter coisa no trabalho dele que você vai precisar resolver, alguns documentos, contratos… seu pai era um homem respeitado. Vai sobrar muita coisa pra você. Virei o rosto devagar, sem me levantar, só o suficiente para encontrar seus olhos. Eles estavam vermelhos, mas ele evitava me encarar por completo. — Você pode me ajudar com isso? — Perguntei, minha voz soando rouca, quebrada, mas firme. Ele assentiu, rápido demais, como se já esperasse a pergunta. — Claro. Eu quero ajudar, o que você precisar, eu tô aqui. Eu apenas fechei os olhos por um momento, tentando absorver a oferta de apoio sem desmoronar de novo e era estranho como ele parecia ainda fazer parte de mim, mesmo depois de termos seguido caminhos separados. Talvez porque crescemos juntos ou porque parte da minha dor também era dele. — Obrigada, Antonio. — Murmurei. — Só… fica um pouco? Só por agora? Ele não respondeu. Apenas veio até o outro lado da cama e se sentou na beirada, em silêncio. Como quando éramos adolescentes e ele me fazia companhia quando eu tinha pesadelos. Como se o tempo não tivesse passado, apesar de tudo. Ali, naquele quarto cheio de fantasmas e memórias, nos permitimos apenas existir. E, por um instante, isso foi o suficiente.
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