Aurora Narrando:
Itália, tempos atuais.
Dois dias se passaram desde o velório. A casa estava mais silenciosa agora, não aquele silêncio pesado de luto imediato, mas um tipo de quietude estranha, como se as paredes estivessem esperando que eu dissesse o que fazer. Maria dormia no quarto de hóspedes. Antonio ia e vinha, sempre com alguma desculpa prática “preciso buscar os documentos”, “o jardim precisa de água”, “o café da vila é melhor que o da casa”, mas eu sabia que ele ficava por mim e eu ficava grata por isso.
Naquela manhã, o advogado da família chegou com um semblante grave e uma maleta preta de couro que parecia ter envelhecido junto com ele. Senhor Vittorio era amigo do meu pai desde os tempos de universidade e cada linha em seu rosto parecia guardar uma história da nossa família. Sentamo-nos na sala de estar, onde o cheiro deles ainda pairava no ar como um véu invisível. Ele ajeitou os óculos no nariz, puxou um envelope pardo e começou a ler o testamento com a solenidade que o momento pedia.
Tudo foi deixado para mim. A casa, os terrenos, os investimentos e não havia surpresa nisso, meus pais sempre foram discretos, mas diretos. Mas então ele tirou uma pasta azul-marinho, encadernada com um laço grosso de cetim cinza.
— Isso… é uma instrução separada deixada por seu pai. — Disse ele, estendendo a pasta com as mãos trêmulas. — Ele foi bem claro quanto a isso e pediu que fosse entregue exclusivamente a você, Aurora.
Peguei a pasta com cuidado, sentindo o peso não só do papel, mas de algo mais — como se aquela coisa carregasse um segredo antigo. Havia uma etiqueta colada na frente com a caligrafia familiar do meu pai: “Somente para Olga.”
— Olga? — Repeti, franzindo a testa. — A prima da minha mãe?
— Sim. — Vittorio confirmou, limpando a garganta. — Ele deixou instruções explícitas para que você mesma entregasse isso a ela e disse que ninguém mais deveria ler o conteúdo, que que isso era importante para... ‘manter o equilíbrio da matilha’, essas foram as palavras dele.
Minha cabeça girou.
— Mas… Olga mora na Rússia e a gente não se vê desde que eu era criança. — Suspirei. — Minha mãe quase não falava sobre ela e quando falava… era sempre com um certo cuidado, como se Olga fosse um assunto delicado.
— Não sei, signora*. — Vittorio apenas deu de ombros, parecendo igualmente confuso. — Mas seu pai parecia... sério. Como se isso fosse mais do que um desejo ou uma missão, talvez.
Fiquei olhando para a pasta, as pontas dos meus dedos formigando. Não era só papel, eu sentia, como ômega e como filha, que aquela pasta carregava algo que podia mudar tudo. E agora, havia um mar e milhares de quilômetros entre mim e as respostas. Antonio, que estava sentado ao meu lado, se mexeu, tenso.
— Você vai ter que ir até lá? — Ele perguntou, a voz firme, mas com uma sombra de preocupação.
— Não sei… — Respondi, ainda encarando o nome dela como se fosse um enigma. — Mas parece que meu pai deixou uma última estrada pra eu seguir e eu acho que… vou ter que descobrir onde ela leva.
Maria Narrando:
Encontrei Antonio sentado na varanda dos fundos, com os olhos perdidos no campo dourado que cercava a casa, o vento agitava seus cabelos escuros e havia uma linha de preocupação entre suas sobrancelhas. Conheço meu filho e sei quando ele está tentando entender algo que vai além do que pode tocar.
Apoiei a mão em seu ombro e me sentei ao lado dele no banco de madeira. esperei alguns segundos antes de perguntar, pois não queria pressioná-lo, mas precisava saber.
— O que o advogado disse para a Aurora, filho?
Antonio suspirou, mantendo o olhar no horizonte por mais um instante antes de me encarar.
— Leu o testamento e tudo ficou com ela, como era esperado. — Respondeu, e então hesitou. — Mas… ele entregou uma pasta. Azul, disse que o pai dela deixou instruções específicas.
— Que tipo de instruções? — Perguntei, sentindo o estômago apertar.
— Era para ser entregue só para uma pessoa: Olga., aquela prima da mãe da Aurora… que mora na Rússia.
Meu coração deu um pulo. Olga. O nome soava como uma lembrança antiga, escondida entre os papéis esquecidos do passado da minha melhor amiga. A relação entre ela e Olga sempre foi envolta em silêncio e se havia silêncio entre elas, havia motivo, mas o que me deixava curiosa era o que poderia ter os levado e ter contato com Olga.
— Aurora abriu essa pasta? — Perguntei, mais seca do que pretendia.
— Não, ela levou direto pro quarto e deve ter guardado em algum lugar. Achei melhor não perguntar… ela parecia meio fora de si depois disso. — Antonio balançou a cabeça.
Fechei os olhos por um momento, sentindo a tensão subir pelas minhas costas era um aviso instintivo, aquele tipo de sensação que uma loba sente quando algo se aproxima da floresta e o vento muda de direção.
— Não podemos deixar que ela vá para a Rússia. — Murmurei, com mais certeza do que dúvida.
— Mamma, calma. Ela nem disse que vai. — Antonio franziu o cenho.
— Mas vai. — Interrompi. — Você conhece a Aurora, ela é teimosa como o pai e se ele deixou aquela pasta com ela dizendo que era importante… ela vai se sentir na obrigação de entregar. E se Olga está envolvida nisso, não é coisa simples.
— Você sabe de alguma coisa? Sobre a Olga?
— Sei que sua madrinha evitava esse nome e que quando o mencionava, receio nos olhos dela. — Olhei fundo nos olhos do meu filho. — Aurora é uma ômega poderosa, mas está frágil, ferida e há coisas do passado da família dela que não deviam ser reviradas agora.
Antonio ficou em silêncio por alguns segundos, depois assentiu lentamente.
— Então o que a gente faz? — Ele pergunta, então segurei a mão dele.
— Precisamos fazer ela ficar aqui e precisamos pegar aquela pasta!
Narrador Narrando:
O escritório era frio e moderno, enterrado nas entranhas do porão do castelo na Rússia. Paredes de concreto polido, vidro escuro e iluminação indireta davam ao lugar um ar de bunker de luxo. As janelas estavam fechadas, protegidas por cortinas grossas, como se ali dentro o tempo não pudesse passar. Sentada diante de um computador de última geração, uma beta de aparência eficiente, com seus olhos azuis focados na tela e sem se importar com os cachos loiros, quase brancos, caindo em seus olhos, ela digitava com uma velocidade quase sobre-humana. Os dedos percorriam o teclado como se já soubessem o que escrever antes mesmo que o pensamento se formasse. Ela usava um terno cinza impecável, os cabelos presos em um coque um pouco bagunçado, mas que era sua marca registrada.
— Confirma-se a morte de Lorenzo e Giulia La Rosa. — Ela disse, em russo fluente, com a voz neutra de quem está acostumada a lidar com informações sensíveis. — Acidente de carro na estrada SP36, na Itália. A filha não estava com eles no momento do acidente e segue bem, está em casa com a madrinha.
Do outro lado da sala, de pé junto a uma estante de vidro com relíquias de antigas linhagens, estava um homem. Alto, robusto, com presença de alfa marcado em cada gesto. Os olhos escuros brilhavam com interesse ao ouvir o relatório. Antes que pudesse responder, uma figura feminina se aproximou com passos apressados. Olga. Seu cabelo grisalho já mostrava a idade avançada, mas sua presença ainda era magnética, quase imperial. Ela estava pálida. Pálida demais.
— O que você disse? — Perguntou, num sussurro áspero.
A beta se calou por respeito a sua mãe, ela sabia o quanto ela era sensível a essas coisas e o quanto amava sua família mesmo de longe. O alfa a olhou com leve curiosidade. Olga encarou a tela, os olhos arregalados.
— Aurora… está viva?
— Sim, mãe. — A beta respondeu — Recebeu o testamento ontem e foi entregue uma pasta com instruções diretas do pai.
Olga levou a mão à boca, quase em choque. Um tremor percorreu seu corpo. O alfa estreitou os olhos.
— Ela é a chave. — Olga sussurrou, mais para si mesma do que para os outros.
O silêncio na sala se tornou denso, carregado de significados ocultos.
— Ela corre perigo. — Continuou Olga, agora olhando diretamente para o alfa. — Você precisa mandar buscar Aurora. Agora. Antes que alguém mais descubra, antes que seja tarde!
O alfa não respondeu de imediato. Observou Olga com atenção, como se estivesse pesando muito mais do que palavras.
— Está dizendo que ela não sabe? — Ele perguntou. — Que ela não sabe que neste momento ela deve vir diretamente até nós, que não foi preparada para isso?
— Não, Lorenzo nunca contou e nem Giulia, mas se ela descobrir sozinha… se outros souberem antes o que tem naquela pasta. — Olga fechou os olhos, respirando fundo. — Tudo o que protegemos até agora será posto a perder e minha prima vai ter morrido em vão.
O alfa deu um passo à frente, o cheiro do poder e da decisão dominando o ambiente.
— Preparem a equipe. — Disse, por fim. — Nikolai vai junto e vai trazer ela em segurança! Se ela vier com um arranhão…
Ele não terminou a frase. Não foi preciso.
*Signora = Senhora.