XIV

533 Palavras
A primeira crise do reinado de Ewan MacAllister não veio com estandartes inimigos. Veio com fome. O degelo tardio destruíra colheitas no leste. Vilas inteiras migravam para as cidades muradas. Comerciantes inflavam preços. Pequenos lordes começaram a disputar grãos como se fossem territórios. Nada disso era guerra. Era caos interno. Ewan convocou o conselho ao amanhecer. Mapas agora dividiam espaço com relatórios de fome, rotas comerciais e rumores de revolta. — Se isso continuar — disse Duncan — teremos levantes antes do próximo inverno. — Tropas não resolvem fome — acrescentou Seumas. — E se resolverem, será da pior forma. Ewan escutava sem interromper. — Os reinos vizinhos observam — continuou o chanceler. — Um rei recém-coroado… sem rainha… sem herdeiro… transmite instabilidade. Ewan ergueu o olhar. — Cheguem ao ponto. Houve um breve constrangimento. Seumas respirou fundo. — O povo precisa ver mais do que um guerreiro no trono. Precisa ver… humanidade. — Humanidade não enche celeiros. — Mas acalma multidões. Duncan cruzou os braços. — Um rei comprometido é visto como alguém que tem algo a perder além da própria glória. Ewan ficou em silêncio por alguns segundos. — Estão sugerindo que eu resolva fome… com casamento. — Não apenas isso — disse o chanceler. — Uma rainha une casas. Abre rotas. Aplaca rumores. Mostra que o rei pensa no futuro. Ewan inclinou-se sobre a mesa. — Estão dizendo que eu preciso parecer bom. — Precisamos que o povo acredite que há algo bom em você — respondeu Seumas com honestidade dura. O silêncio caiu como lâmina. Ewan endireitou-se. — Eu garanti fronteiras.Eu reduzi guerras, eu trouxe estabilidade externa. Ele olhou um por um. — Agora vocês me pedem um símbolo. — Pedimos um contrapeso — corrigiu Duncan. — Para o medo. Ewan assentiu lentamente. — O medo mantém a ordem. — Mas não mantém lealdade — rebateu o chanceler. Ewan virou-se para a janela, observando o pátio. — Querem uma rainha para que o povo acredite que eu posso amar. — disse, sem emoção. — Como se isso garantisse misericórdia. Ele voltou-se para o conselho. — Não escolherei esposa para ser amado.Escolherei, se escolher, para garantir o reino. Seumas engoliu seco. — Então… você aceita considerar? Ewan pensou. Não por dúvida. Por estratégia. — Tragam-me nomes. — disse enfim. — Casas fortes. Reinos úteis. Mulheres educadas para governar, não para enfeitar tronos. O conselho respirou aliviado. — Mas saibam disto — completou ele, a voz baixa e firme. — Nenhuma delas mudará quem eu sou.Quem se sentar ao meu lado deve suportar o que eu faço e principalmente o que sou. O alívio virou silêncio respeitoso. Mais tarde, Ewan permaneceu sozinho na sala do trono. A cadeira de pedra parecia maior agora. — Um homem comprometido é visto como bom… — murmurou. Ele tocou o braço do trono. — Bom não venceu minhas guerras. Mas sabia: símbolos movem povos tanto quanto exércitos. E se uma rainha fosse necessária para conter o caos… ele a teria. Não por esperança. Por necessidade. E, enquanto os primeiros nomes começavam a circular entre os conselheiros, uma nova batalha se aproximava. Não nos campos. Mas dentro das muralhas… e talvez, pela primeira vez, dentro dele.
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