o dia do casamento

730 Palavras
Dois dias se passaram. E então chegou o dia. Elisa estava deslumbrante. O cabelo ruivo cacheado fora cuidadosamente arrumado, com um corte elegante que moldava o rosto delicado. Dois cachos caíam suavemente de cada lado, emoldurando os olhos azuis intensos. Usava uma coroa fina, brilhante, que parecia feita sob medida para ela. A maquiagem realçava ainda mais sua beleza — ela estava impecável, irreal. Linda demais para alguém que estava indo ao altar sem amor. Elijah a esperava usando um terno branco impecável. Alto, musculoso, sério. Quando a viu entrar no salão, ficou completamente impressionado. Por um instante, esqueceu o contrato, a obrigação, a encenação. Ela estava maravilhosa. O casamento acontecia em um salão de festas chique, renomado, luxuoso demais para parecer acolhedor. Havia muitos convidados — empresários, políticos, famílias influentes. Era um evento importante demais para a família Damari permitir qualquer erro. Quando a música começou, Elisa entrou acompanhada do pai. Cada passo era observado. Cada respiração, julgada. O pai a levou até o altar e a entregou a Elijah como quem cumpre uma negociação. Eles se olharam. Por fora, pareciam um casal perfeito. Por dentro, dois estranhos presos. O celebrante falou, os votos foram ditos mecanicamente. Diante de centenas de olhos atentos, eles sorriram, trocaram alianças, se beijaram de forma contida, ensaiada. Aplausos ecoaram. Elisa tinha 24 anos. Elijah, 33. E ali, diante de todos, eles se tornaram marido e mulher… no papel. Depois da cerimônia Naquela mesma noite, longe dos convidados, Elisa foi chamada para uma conversa que não deveria existir naquele dia. O pai dela estava sério. A madrasta, impaciente. O clima era sufocante. — Agora que você é casada — o pai começou —, precisa entender uma coisa muito importante. Elisa cruzou os braços. — Pode falar. — Existe um contrato entre as famílias. Ela franziu a testa. — Contrato? — Um contrato claro — ele continuou. — Assinado com a família Damari. Você precisa respeitar todas as cláusulas. Não pode cometer erro nenhum. Nenhum. — E por quê? — ela perguntou, já sentindo o estômago revirar. — Porque qualquer erro seu faz a gente perder dinheiro. Ele respirou fundo e completou: — Olha pra sua irmã. Ela é muito nova pra eu ter que casar ela porque você fez algo imprudente. Elisa riu. Um riso seco, ferido. — Então deixa eu ver se eu entendi, pai… — ela disse lentamente. — Eu acabei de casar à força com um homem que m*l conheço. E o senhor está me dizendo que eu não posso fazer nada “imprudente”? Ela se aproximou. — O que o senhor acha que eu vou fazer? Fugir? Você acha mesmo que eu tenho condições de fugir dessa família? Ele permaneceu em silêncio. — Relaxa — ela continuou. — A sua filhinha preciosa não vai precisar casar com ninguém, não. O senhor deixou tudo bem claro quando me vendeu. — Elisa, não complica as coisas — a madrasta interrompeu. — Você sempre quer bancar a coitadinha. Elisa virou-se para ela, o olhar afiado. — Eu sou tudo, menos coitadinha. Respirou fundo. — Mas podem ficar tranquilos, querida família. Eu não vou fazer nada de errado, não. O pai assentiu. — Ótimo. Então preste atenção. Você vai pra lua de mel hoje com o seu marido. Ela não respondeu. — E o contrato diz mais uma coisa — ele continuou. — Em até cinco meses de casamento, você precisa engravidar. O mundo parou. — Oi? — Elisa arregalou os olhos. — Calma aí. Deixa eu ver se eu entendi direito. Ela riu, incrédula. — Vocês fecharam um contrato até decidindo quando eu tenho que engravidar? — É uma cláusula — o pai respondeu. — Vocês não acham que isso deveria ser uma decisão minha e do Elijah? — ela rebateu. — Vocês já perguntaram a ele se ele quer um filho agora? — Não importa — o pai disse, frio. — O pai dele quer. Elijah estava ali. Em silêncio. E pela primeira vez desde que a conhecera, ele sentiu raiva de verdade. Viu o desprezo. Viu a humilhação. Viu como Elisa era tratada como mercadoria. E entendeu que aquele contrato não tinha ferido só ela. Tinha ferido os dois. Ele cerrou os punhos. Aquele casamento, que começou como obrigação, acabava de se transformar em algo mais perigoso: uma prisão com cláusulas demais — e humanidade de menos. .
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