verdades quebradas

1031 Palavras
— Chega. A voz de Elisa saiu firme, mesmo com o peito queimando. — Eu cansei. Eu vou ficar casada com o meu marido. Não vou fugir. Não vou fazer nada de errado. Já aceitei isso. O pai a encarou, desconfiado. — Mas sobre engravidar ou não… — ela continuou — isso não é uma decisão de vocês. Isso é uma decisão minha e do Elijah. Só nossa. — Não — o pai respondeu, seco. — Isso está no contrato. — Isso está errado! — ela elevou a voz pela primeira vez. — Vocês não têm o direito de decidir sobre o meu corpo! Ela respirava com dificuldade. — A minha vida inteira vocês decidiram tudo. Meus sonhos, minha faculdade, minhas escolhas… tudo foi controlado. Tudo esmagado pra servir vocês. Apontou para a madrasta. — E agora querem decidir até quando eu tenho que engravidar? O pai avançou um passo. — Abaixa esse tom. Você já é uma mulher casada. — Mulher, sim. Propriedade, não! O tapa veio rápido. Seco. Violento. O rosto de Elisa virou com o impacto. O silêncio tomou a sala. Elijah estava do lado de fora. E naquele instante, quase perdeu o controle. Ela levou a mão ao rosto, sentindo o ardor, mas não chorou. Não ali. Virou lentamente para o pai. — Eu já fiz tudo o que você quis — disse, com a voz estranhamente calma. — Casamento. Contrato. Aparência. Então relaxa. Você não vai perder seu dinheiro. Sorriu, ferida. — Nem essa “família perfeita” que você vende por aí. A madrasta tentou intervir: — Você não tem escapatória, Elisa. Faça tudo certo. Vá pra lua de mel. Em cinco meses, engravide. Faça exames todo mês. Se não fizer, ele perde dinheiro. Elisa riu. Um riso quebrado. — Então é isso? Minha vida vale o dinheiro de vocês? O pai foi direto: — Chega de faculdade. Chega de estágio. Chega de independência. A sua função agora é estar linda em casa, acompanhar o marido nos eventos e dar um filho em cinco meses. Ela fechou os olhos por um segundo. — Vocês podem me deixar sozinha agora? — pediu. — Ele precisa voltar pros convidados. O pai saiu sem olhar para trás. Assim que a porta fechou, Elisa desabou. Sentou-se, cobrindo o rosto, chorando baixo, como quem já chorou demais na vida e aprendeu a não fazer barulho. — Eu sobrevivo… — murmurava. — Eu sobrevivo… A sogra dela entrou minutos depois. — Elisa… — tocou o ombro dela. — Seu rosto… — Daqui a cinco minutos eu resolvo — respondeu, enxugando as lágrimas. — Um pouco de blush, colírio… vai parecer emoção do casamento. A sogra saiu. E então a porta se abriu de novo. — Elisa? Era Elijah. Ela se virou rapidamente. — Tá tudo bem — disse, rápido demais. — Eu só… me emocionei. Ele se aproximou devagar. — Seu rosto tá vermelho. — Maquiagem resolve — ela tentou sorrir. — Eu não vou te fazer passar vergonha. Fica tranquilo. As lágrimas começaram a cair de novo. Ele não disse nada. Apenas se aproximou… e a abraçou. Forte. Seguro. Sem exigência. Ela resistiu um segundo — depois cedeu. Chorou no peito dele, silenciosamente. — Respira — ele murmurou, passando a mão pelos cabelos ruivos dela. — Eu tô aqui. Ele tinha ouvido tudo. O tapa. O contrato. A cláusula da gravidez. E ali, segurando aquela mulher que m*l conhecia, Elijah entendeu uma coisa com clareza dolorosa: Aquele casamento podia ter começado como um contrato. Mas ninguém tinha o direito de destruir Elisa daquele jeito. E isso… ele não ia permitir. Elijah foi o primeiro a se afastar. Não de forma brusca. Com cuidado. Ele segurou o rosto de Elisa com delicadeza, analisando a marca avermelhada ainda visível. — Confia em mim — disse baixo. — Eu cuido disso. Ela respirou fundo, assentiu com a cabeça. Passou rapidamente um pouco de maquiagem, corrigiu os olhos com colírio. O vermelho virou “emoção de noiva”. O inchaço virou “choro de felicidade”. Perfeita para o espetáculo. — Pronta? — ele perguntou. — Sempre — ela respondeu. Ele abriu a porta e estendeu o braço. Elisa o segurou. E, em segundos, voltaram a ser o casal ideal. --- As luzes os cegaram assim que entraram no salão. Câmeras. Sorrisos. Aplausos. — Olhem pra cá! — Mais perto! — Um beijo! Elijah colocou a mão firme na cintura dela e puxou Elisa para si. Ela sentiu o corpo dele rígido, atento. O beijo veio — mais longo, mais convincente. O suficiente para arrancar suspiros dos convidados. Ela fechou os olhos por um segundo. Não por amor. Por sobrevivência. Flash atrás de flash. — Que casal lindo! — Perfeitos! Eles sorriram. Sempre sorriram. Foram levados até a mesa do bolo. Um bolo imenso, branco, decorado com detalhes dourados. Elijah pegou a faca, colocou a mão sobre a dela. — Juntos — ele murmurou. Cortaram o bolo sob aplausos. Ele levou um pequeno pedaço até a boca dela. — Prova. Ela obedeceu. — Delicioso — disse, para as câmeras. Ele também comeu, depois limpou delicadamente um pouco de glacê do canto da boca dela com o polegar. — Beijo! Beijo! Beijo! O salão inteiro gritou. Elijah não hesitou. A puxou novamente, a beijou com firmeza, sem pressa. Um beijo público, intenso o bastante para calar qualquer suspeita. Mas, no meio do beijo, ele encostou a testa na dela e sussurrou: — Ninguém mais te encosta daquele jeito. Nunca mais. Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo. — Obrigada… — respondeu quase sem voz. Eles se afastaram sorrindo. Fotos. Mais fotos. Abraços ensaiados. Por fora, um conto de fadas. Por dentro, Elisa estava em pedaços — mas, pela primeira vez desde o início daquela história, não estava sozinha. Elijah manteve a mão dela presa à sua o tempo todo. Como um aviso silencioso. Como uma promessa que não constava em contrato algum. E enquanto o mundo aplaudia aquele casamento perfeito, ele tomou uma decisão silenciosa: Aquilo podia ser um contrato para as famílias. Mas ninguém mais pisaria nela. Nem o pai dela. Nem o pai dele. Nem o acordo maldito que os uniu.
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