Capítulo 4
As mentiras que contamos
Serkan
Como se não bastasse ter sido rejeitado por uma das poucas brasileiras que não considerei vagabundas no mundo, ainda por cima teria que aturar aquela linda garota como funcionária. Serkan, se ela tivesse se deitado com você na primeira noite, não teria sido nada excitante como ela é agora para você. Ela seria somente mais uma na multidão de mulheres que frequentam as noites das grandes metrópoles. Claro que ela era diferente, ela tinha uma personalidade forte que eu podia sentir a metros de distância. Isso me atraía e me repelia ao mesmo tempo. Mas, enfim eu sabia ser possuidor de um gênio um tanto difícil e tinha plena ciência de que a estava maltratando porque tinha sido rejeitado. Burra ela não era. Eu só não sabia o que fazer com ela. Porém eu tinha assuntos realmente importantes a tratar naquele canteiro de obras. Eu tinha sido contratado como diretor-geral da Albaf para gerenciar e proteger na justiça os projetos que precisavam de advogados com experiência em assuntos complicados, e aquele era um assunto complicado. Já tinha oferecido 2 milhões de reais ao tal Silva, um velho que não queria nos vender sua casa e ele nada aceitava. Quem sabe se eu levasse aquela garota brasileira, que entendia seus costumes, para falar com ele, talvez produzisse algum resultado.
Nós fomos para o estacionamento juntos. Coloquei o óculos de sol e desativei o alarme do carro. Juliana parou ao lado do que julgou ser o meu carro, uma caminhonete cinza e me lançou um olhar. Cruzei os braços e apontei para ela o meu carro, um esportivo Ford Mustang. Ela arregalou os olhos e se moveu vindo em minha direção.
Já no caminho, olhava para suas pernas naquele vestido cinza que me deixava ver os joelhos, discretamente para que ela não me flagrasse olhando. Paramos no sinal vermelho e apoiei o braço na janela. Ela me olhou rapidamente e retribuí aquele olhar curioso. Eu confesso que não gostei nada dos olhares que um dos advogados lhe deu, mas não podia deixar transparecer que me incomodei e que nem mesmo sabia como me portar nesse país. As coisas eram apenas diferentes, as pessoas se portavam de outra forma e eu nunca entenderia o que significavam aqueles sorrisos em demasia. Amizade? Interesse? Tudo era complicado para mim. Eu precisava de uma cartilha de como me portar no Brasil.
Por fim, chegamos. Saltei do carro e Juliana o fez logo a seguir. E lá estava aquela única casa de dois andares atrapalhando a construção do condomínio. Eu, como advogado, já tinha oferecido ao dono daquela propriedade o dobro do que valia seu imóvel, porém ele era teimoso e não queria vendê-lo à construtora. Eu era um dos advogados mais bem sucedidos do meu país, mesmo com 32 anos. Eu já não sabia mais o que fazer para aquele brasileiro vender sua casa. Eu descendia de uma longa família de advogados renomados, desde meu bisavô. Meu pai Metin Sadik era sempre consultado por mim em Istambul, pois eu já não sabia o que fazer. Ele sabia porque eu tinha aceitado aquele emprego no Brasil há 1 ano atrás. Eu estava fugindo desesperadamente de um casamento com a filha de um dos melhores amigos da família. Fomos prometidos na infância, mas tudo mudou tão rápido na Turquia! Eu não me sentia na obrigação de casar com ninguém e as famílias não estavam me perturbando, porém os pais dela tinham expectativas ao meu respeito e como em um pesadelo aceitei o noivado. Aquilo era de fato um pesadelo que me assombrava todas as noites pois Asli não tinha qualquer atrativo para mim. Quando começaram a falar em marcar o casamento, eu fugi para o Brasil aceitando um ótimo emprego no escritório da Albaf. O dono, de família turca, conhecia meu pai há anos e um telefonema foi o suficiente para solucionar minha vida. Mas com toda a minha experiência, eu não sabia mais o que fazer com aquele velho. Aproximei-me de Juliana e sorri sem nenhuma vontade. Ela precisava tentar por mim. Uma última vez era necessário. Depois disso eu diria a construtora que não podia fazer mais nada.
— Juliana, por favor, converse com esse senhor e o faça vender a casa para os meus clientes.
Ela me encarou seriamente e depois sorriu.
— Quer que eu convença alguém a vender sua casa?
— Sim, exatamente.
Apoiei as mãos na cintura a olhando, ainda sabendo que ela não era capaz de ver meu olhar de súplica com aqueles óculos de Sol.
— Como vou fazer isso ,senhor Serkan?
— Ora eu não sei, você o entende, são brasileiros, talvez possa dizer alguma coisa a ele que não sei, dizer que existe um outro lugar melhor que esse que eu desconheço.
— Ah meu Deus, eu vou tentar.
Ela respondeu com impaciência. Bati na porta. Alguém gemeu lá dentro da casa e logo abriu a porta.
— Ah é você, turco s****o! — Respondeu o velho.
Ele ia fechar a porta em nossa cara quando a segurei.
— Senhor, por favor, ouça minha funcionária, ela tem alguma coisa para lhe dizer.
Juliana ficou me olhando de pé ali parada com ar incrédulo. Em seguida ela o olhou. Reparei nas vestes do velho, parecia andar bebendo, estava de pijamas e com os poucos cabelos da cabeça totalmente desalinhados.
— Senhor Alberto, eu vim explicar ao senhor que isso aqui será um condomínio de luxo, com pessoas que não são parecidas com o senhor. Elas podem ser grosseiras e metidas — Ela me olhou, pensei em onde eu me encaixava naquela frase — Melhor o senhor aceitar os 2 milhões de reais que querem pagar ao senhor e ir morar perto do mar, que acha? Há casas maravilhosas em Cabo Frio, Arraial do Cabo... Por esse preç...
Ele não a deixou terminar de falar.
— Filha, sei que sua intenção pode ser boa, mas é melhor saber logo, minha querida falecida esposa morreu nessa casa, é como um santuário para mim e eu não vou vender o seu lugar preferido na vida. — Os olhos dele mostravam emoção e saudade. Havia pesar em sua voz.
Aquele foi meu último recurso. Não havia mais nada a ser feito e a construtora teria uma casa completamente diferente das outras em volta. Uma casa que parecia um lixo, há muito tempo que não era pintada e tudo estava m*l conservado. Virei de costas, levando a mão aos cabelos desesperado.
— Não é possível, meu senhor! A sua falecida querida não está mais nessa casa!Ela está no céu, se Allah assim desejou!
— Alá? O que é Alá, garoto? O que você sabe da morte e da minha mulher?!
— Senhor Alberto, Allah é Deus para ele, é Deus, e sua esposa está no céu, foi o que ele disse.
— Pois eu não sou da sua religião e por isso não vou vender o túmulo da minha Elisa para ninguém!
— Não aguento mais isso, quer apodrecer ai, apodreça! — Gritei e sai andando para voltar a meu carro.
Ouvi as passadas do salto alto atrás de mim e sabia que Juliana me seguia.
— Senhor Serkan, não vai me esperar?!
Parei com os olhos fitando o chão. Que país quente!
— Claro que vou te esperar. Que calor infernal! Eu quero voltar ao ar condicionado, isso foi inútil, esse homem é um i****a, são 2 milhões de reais!
— Mas a vontade dele deve ser respeitada, a lei está do lado dele.
Parei e examinei suas feições. Não era possível que ela estava tentando dizer a um advogado de que lado a lei estava.
— Eu sei, Juliana, eu sei! Vamos embora!
Entrei no carro completamente contrariado, sentindo as gotas de suor descerem pelo meu rosto, absolutamente irritado, sem saber como suportavam tal temperatura naquela cidade. Juliana entrou no carro e estava igualmente suando. Alguns fios de cabelo grudavam em seu pescoço e ela parecia nervosa. Em um rápido movimento, ela prendeu os cabelos para o alto deixando o pescoço a mostra. Era voluptuosa, tinha s***s fartos, ancas largas, uma mulher realmente bonita. Não percebi que olhei tanto tempo, visto que ela reparou e me lançou um olhar confuso. Desviei os olhos para a direção e girei a chave para sair dali. Logo liguei o ar condicionado e meu humor melhorou.
Ao chegar a empresa, cada um foi para seu lado e tentei esquecer o incidente do velho e aquela garota. Como era possível que somente uma noite tivesse deixado aquele efeito em mim? Não era possível acreditar naquilo. Não eu, não Serkan Sadik. O resto do dia foi improdutivo e moroso. Eu só queria ir para casa e tentar fazer alguma coisa que me fizesse superar o efeito que a garota fazia em mim.
Porém eu precisava agradecer. Eu tinha que agradecer pelo esforço que Juliana fizera em tentar convencer o velho teimoso. Era educado agradecer, mas também eu queria vê-la mais uma vez. E tudo saiu do controle quando eu simplesmente a convidei para tomar um chá. Eu devia ter ido quieto para minha academia, depois para minha casa, ligar o ar condicionado e continuar sendo um homem rude e feliz. E tudo saiu errado mais uma vez.