Terra Brasilis

1868 Palavras
Capítulo 3 Terra Brasilis Juliana  Serkan se posicionou ao meu lado e me lançou um olhar irritado. Se não fosse pelo meu primeiro emprego como tradutora e pela necessidade, eu sairia correndo dali. Minhas mãos tremiam e suavam. Aquele homem conseguia ser ainda mais bonito a luz do dia. — Você? Minha intérprete? — Ele falou baixo e se sentou. — Bom dia a todos! — Parece que sim... err — Vacilei por alguns segundos —  Senhor Serkan. — Perfeito, vou lhe dar as instruções mais tarde. Apresente-se a eles, como sua primeira tarefa, eu lhe desejo as boas vindas e que tenhamos um ótimo trabalho. — Ele sorriu um sorriso sem vontade. — Perfeitamente. Apresentei-me a todos da reunião e comuniquei que era a nova tradutora de documentos para assuntos do exterior. Em seguida, me sentei. — Bem... Ele fez um gesto com a mão de quem iria prosseguir a reunião, se aproximou de mim e me estendeu um papel, que parecia uma planilha. — Então, Juliana, parece que será minha assessora, então anote tudo que julgar importante sobre o que vou dizer, vai te ajudar a entender os documentos. — Sim, senhor. Aquele perfume, aquela presença imponente e segura deixava minhas mãos trêmulas. E então ele começou a se comunicar com o grupo. — Eu sei que devem estar se perguntando sobre muitas coisas agora, mas só posso assegurar que estou a frente da empresa nesse momento e vim passar algum tempo até que tudo se acerte. Estudei o português para ficar no lugar do senhor Henrique e me mudei quando ele precisou se afastar por fim. Lamento que seu afastamento seja por saúde, que Allah... — Ele estancou sua frase, claramente percebendo que não devia citar o nome de seu Deus em uma reunião de negócios — Que Deus o cure. Quanto àquela casa, ela precisa ser comprada para que possamos dar continuidade a preparação do terreno para a construção do condomínio. Vou cuidar disso imediatamente. Os senhores tem algo a perguntar? Observei seu rosto e sua boca durante o tempo em que falava e quase me perdi naqueles traços. Ele daria um perfeito sultão. Assim que terminou anotei suas palavras sobre o assunto. — Sim, temos perguntas, como vai fazer o velho vender a casa? — Oferecendo mais dinheiro. — Ele respondeu. — Ele recusou. Ele pareceu contrariado e bateu forte com a caneta sobre a mesa de madeira maçiça. Dei um pulinho. — Por Allah, que velho teimoso, vou ter que tomar outras providências! — Não há meios. — Um deles respondeu. Era bonito também. — Eu vou dar um jeito. Nossa reunião foi um fiasco pois achei que um de vocês tinha conseguido o que queremos. — Infelizmente, o senhor Silva é irredutível. — Certo, reunião terminada. Aos poucos, bufando, com passadas largas e apressadas todos foram deixando a sala. Um deles continuou me olhando até alcançar a porta e sorriu. Sorri de volta para ele. Serkan passou a mão em frente ao meu rosto no ar como que me fazendo voltar a atenção a ele. Eu o olhei atentamente. — Sim? — Aqui não é lugar de flerte, senhorita Juliana. Franzi o cenho apertando minhas sobrancelhas sem compreender do que ele falava. Um sorriso em retribuição a quem me sorriu não poderia ser considerado um flerte. Mesmo que o cara fosse um gato e era, eu separava muito bem as coisas e os locais onde me encontrava. — Flerte? Me desculpe, mas é absurdo. Ele se aproximou do meu corpo, arrastando as rodinhas da cadeira. Aquele terno e o perfume vieram ainda para mais perto. Ele me olhou nos olhos parecendo irritado. E que olhos castanhos e expressivos ele tinha! — Escute, senhorita, vamos esquecer o que aconteceu entre nós ontem a noite, está bem? Para o bem do nosso trabalho, vamos fingir que não nos conhecemos e que nunca tivemos qualquer tipo de i********e. Estreitei o olhar e esbocei um sorriso irônico, ainda que fosse muito difícil resistir aos seus lábios tão próximos. Como era possível esquecer totalmente tantos beijos tórridos trocados na noite anterior? Enfim, me vi no dever de responder. — Okay. Está completamente esquecido, Serkan bay. Eu podia jurar que ele ia sorrir quando eu o chamei de senhor em turco. Entretanto o carrancudo chefe esboçou um quase sorriso e logo voltou ao seu personagem, o de chefe. — Perfeito, senhorita Juliana. A sua sala será ao lado da minha e eu vou lhe enviar pelo email corporativo um contrato para a tradução em espanhol. Preciso explicar uma coisa, entretanto... Permaneci o encarando como se não tivesse ouvido julgamentos e críticas em uma única manhã. Por dentro, eu fervia de raiva. — Eu não falo espanhol, quando assumi essa empresa, vim para cobrir o diretor-chefe que está hospitalizado por tempo indeterminado, o senhor Henrique. Aprendi português porque vim para seu país para assumir o cargo dele, portanto qualquer contato com o espanhol, por favor providencie a tradução. Em inglês sou fluente. — Sim, senhor... Serkan. Posso fazer uma pergunta? Até aquele ponto já o estava considerando uma pessoa de péssimo humor, muito diferente do homem bem humorado e solícito da boate. — Sim. Ele recolhia alguns papéis e respondeu sem me olhar, com pressa. — O diretor-chefe, o que ele tem? Vai ficar muito tempo no hospital? Ele esboçou um sorriso irônico e ergueu o olhar. — Não está gostando de seu chefe atual? Baixei o olhar evitando o contato visual, uma vez que preferia mesmo outra pessoa naquele lugar. —Ele tem câncer estágio terminal, me prepararam para este cargo por um tempo considerável. Não fique animada, terá que lidar comigo por um bom tempo. Ele se levantou enquanto eu fechei os olhos com ódio. Eu tinha beijado tanto aquele homem, que nojo! Levantei-me logo em seguida e fui para a tal sala ao lado. Ele passou por mim como uma flecha batendo com a caneta na perna. Se ia embora ou falar com outra pessoa, eu não fazia ideia. A sala que seria minha era totalmente preta. A mesa era preta, o carpete, os armário e inclusive o notebook que havia sobre a mesa. Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela. Respirei fundo. Trabalhar com aquele homem que agora era odioso seria muito difícil, eu tinha o péssimo hábito de responder a provocações e era bem plausível que eu fosse demitida tão logo respondesse m*l a ele. Mas era tão irritante! Sentei-me a minha mesa e comecei a fuçar no notebook. Achei fotos do antigo chefe e também informações de como Serkan aceitou aquele cargo. Li que a empresa Albaf & Co a princípio tinha sido fundada por um turco, naturalizado brasileiro e estava buscando profissionais no país de origem para altos cargos de direção e chefia no Brasil. O requisito era falar o idioma local e o inglês fluente, além do estudo das regras advocatícias brasileiras. Percebi que ele foi o único a ter uma entrevista com o dono da empresa e tal foi o valor oferecido em salário que era estranho que mais advogados não houvessem tentado uma vaga. A mim pareceu um jogo de cartas marcadas, ele podia ter sido indicado para o cargo em virtude de algum conhecido influente. Bem, isso não me dizia respeito, eu precisava começar a trabalhar. Ao abrir os emails, fiquei estarrecida com a quantidade de ações movidas pela Albaf&Co a um certo homem chamado Alberto da Silva Correa. Lembrei do tal Silva mencionado por alguém na reunião. Os documentos tratavam da venda de sua casa e de uma vultuosa quantia em dinheiro oferecida para esta venda. Negada várias vezes. — Bom, eu acho que nem sempre as pessoas querem vender suas casas. — Falei alto para mim mesma. O telefone interno da empresa tocou em minha mesa, a tela piscava sala do diretor. Ah não, ele queria me destratar mais um pouco? Respirei fundo e fui. Senti meus pés praticamente se arrastando pelo chão da minha sala. Ao entrar em sua sala, o vi sozinho sentado à sua mesa. Ele sequer ergueu o olhar. Cruzei minhas mãos a frente do corpo e fiquei esperando à distância por qualquer comando. — Não te chamei para ficar parada igual uma planta ai. — A voz era de deboche. Engoli em seco, porque estava me tratando daquela maneira? Eu não fiz nada de errado. Aproximei-me devagar, de cabeça baixa. — Juliana, preciso que vá comigo em um lugar, na verdade é um canteiro de obras. — Obras? Ele ergueu a cabeça e me olhou depois de tanto analisar papéis. — Sim, obras, eu acredito que o senhor Silva pode te ouvir já que você é brasileira como ele. — Sim, senhor. Mas o que é para ser dito a ele? — Que ele precisa me vender a casa dele, está atrapalhando a construção do condomìnio, a construtora está me perturbando. — Só isso? Ele me encarou com um olhar de dúvida, franzindo a testa. — Não fui claro? Se precisar, explico de novo. — Foi claro! Só queria saber se era só isso para ser dito. — Estava irritada já — Senhor Serkan, se não gosta de trabalhar comigo pelo que aconteceu ontem, eu vou embora, pois eu não sei porque está me tratando m*l. Ele se recostou na poltrona e examinou minha expressão. Era difícil esconder a decepção e tudo que estava preso no nó na garganta que eu sentia naquele momento. — Bem, senhorita, foi realmente surpreendente que seja minha funcionária no dia seguinte ao que nos aconteceu, mas eu sou profissional e o fato de você ter me negado nada tem a ver com o tratamento de hoje. Eu sou desse jeito, mas vou entender se não estiver precisando do emprego e pedir demissão. — Não estiver precisando? Então esse tipo de tratamento tem a ver com não ter saido com o senhor ontem? Ele baixou a cabeça e começou a mexer em suas pastas, as organizando para sair. Era inacreditável que um homem daquele, com tanto dinheiro e beleza estivesse ressentido porque eu não fui para a cama com ele. Eu continuei. — Desculpe decepcioná-lo, mas o senhor não foi rejeitado, eu só nunca...nunca... Ele parou o que fazia para prestar atenção em mim. Era como se sua respiração estivesse suspensa esperando o que eu tinha para dizer. A expressão em seu rosto modificou, ele se tornou curioso como se dependesse da minha resposta para voltar a respirar. — Nunca faço essas coisas. A expressão em seus olhos relaxou assim como todo o seu belo e másculo rosto. — Isso eu entendi ontem. Achei outra coisa, enfim... vamos. Ele se levantou rapidamente com algumas pastas em mãos e começou a caminhar apressadamente para a porta. Se ele pensou, nem que fosse por alguns instantes, que eu diria que era virgem, ele estava completamente certo. Porém eu jamais diria aquilo a ele. Jamais revelaria algo tão íntimo a um homem que m*l conhecia e para piorar, meu chefe. Contudo, baixar minha cabeça era algo que eu jamais faria. Se ele continuasse me tratando com aspereza e julgamentos, eu pediria demissão sem pensar duas vezes e ele nunca mais precisaria me ver novamente.
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