O chefe

2405 Palavras
— É para mim? — Sim, sim, toma! O homem não olha para nós! Eu dei uma risada simpática ao ouvir o sotaque que ele pronunciou. Não parecia italiano ou espanhol, não parecia francês nem inglês. — Obrigada, é árabe? — Perguntei curiosa e encantada com tanta masculinidade. — Ah! — Ele acariciou o peito e só então reparei que a camisa estava entreaberta e o peito estava a mostra, bem atlético. — Turquia! — Turquia! Ah Turquia, novelas! Disse isso em alto pensamento. Mas por que Juliana? Você costuma acompanhar novelas turcas nas redes sociais, ele não, com certeza, é um homem. — Sim, soap opera! Ele me entregou a lata de refrigerante e estranhamente fiquei observando seu rosto e realmente percebi os traços marcadamente turcos em seu rosto. Eu estive estudando turco e francês nos últimos meses e tentei arriscar algumas frases, afinal era meu trabalho. — Iyi geceler! Subitamente ele abriu um sorriso lindo. Meu Deus, que homem lindo! — Iyi geceler, sabe que significa? — Boa noite? Vejo que ele ergue o braço e toca meu ombro, me puxando levemente para sair da confusão. — Boa note. — Noite. — Fortaleço a pronúcia correta. — Noite. — Isso! Ah, você não pediu sua bebida! Ele entendia o que eu dizia, que maravilha. — Não tem importância, beberei depois. Ele sorriu e tocou meu ombro com gentileza. Senti-me terrivelmente atraída por aquele homem. Tudo que ouvia sobre os homens turcos era fascinante: romantismo, tradição, p******o. Era óbvio que ouvi e li sobre o lado r**m dos turcos também, porém qual cultura não tem seus aspectos ruins e seu lado machista? O brasileiro tem por hábito não se envolver. Em nada. Somos um povo que não tem romantismo arraigado à cultura como outros povos. E eu era uma fanática romântica que não acreditava mais no amor. Que contradição! Ele começou a balançar o corpo para os lados, dançando, então me olhou e abriu um sorriso. — É daqui? — Sim, sou do Rio, está há muito tempo no Brasil? — Não, eu só vim trabalhar seis meses. Ele falava um tipo de "portunhol" carregado. Gisele e Amanda me viram com um homem bonito do lado, pararam de dançar e se aproximaram. — Olá! — Elas estavam suadas de tanto dançar. — Merhaba! Serkan! Ele estendeu a mão para um cumprimento às duas. Gisele e Amanda se derreteram em sorrisos, o que me provocou uma sensação parecida com o ciúme, afinal eu que conheci primeiro e me sentia no direito de ter algum controle sobre a situação. Porém não tinha nenhum. Amanda era extremamente bonita, mais alta e loira. Certamente, se ele estivesse procurando diversão na cidade, Amanda era a mulher ideal. Surpreendentemente, ela me fez um sinal de que ia sair dali com Gisele. Achei estranho, ela não era afeita a essas atitudes empáticas. O turco as cumprimentou ao se afastarem e me lançou um olhar cheio de significado. Ele se aproximou do meu pescoço e senti meu estômago se contorcer de tensão pelo que iria dizer. — As mulheres brasileiras são lindas, como você. Ele se afastou, mas o perfume delicioso permaneceu ao meu redor. Eu lancei-lhe um sorriso carinhoso e calmo porém radiante por dentro. O turco era meu! O que será que aconteceria aquela noite? Reparei que ele gostava de deixar o peito atlético a mostra e que os cordões de prata lhe caíam muito bem. Quanto mais eu reparava, mais ele me provocava reações. — Vamos sentar? — Ele sugeriu. Então ele apontou uma parte não ocupada de um sofá vermelho que havia ali. Assenti com a cabeça e me dirigi para lá. Sentei-me com as pernas cruzadas, o que foi percebido por ele. O turco então passou o braço por trás de meu pescoço, apoiando-o no encosto do sofá e me sorriu. — Você não bebe? — Não, não bebo. Ele sacode a cabeça positivamente, provavelmente surpreso. — Seu nome? — Ah, perdão, Juliana. — Juliana. — Ele repetiu, tentando pronunciar corretamente. — Sim, isso. Ele se aproximou ainda mais do meu rosto. Será que tinha me considerado bonita mesmo? Retribuí o sorriso e percebi que ele olhava muito para meus olhos alternando para meus lábios. Acreditei que pretendia me beijar. m*l podia acreditar que acabara de chegar e consegui um turco para trocar uns beijos. Era um sonho sendo realizado depois de assistir tantas novelas turcas! Serkan se aproximou mais e dessa vez não houve nada que eu pudesse fazer ainda que eu quisesse. O turco colou seus lábios nos meus e me puxou pelo ombro com a mão que descansava no encosto deste para não me permitir o afastar. Eu não queria. Mesmo que ele achasse que eu pudesse me afastar, nunca foi minha intenção desde que me entregou a lata de refrigerante. Retribuí a seu beijo a princípio tímido. Achei que ele não quis me assustar muito, por isso se afastou e me observou. — Algum problema com isso? Você quer? — Sim, quero. — Assenti com timidez. Ele tinha umas expressões audazes, era confiante e charmoso. Acredito que nem mesmo cogitou a ideia de eu não querer beijá-lo. Levei a mão direita a seu rosto para sentir a barba e então o beijo se aprofundou e nos fundimos um no outro. O gosto era bom, o perfume era bom, ele era bonito. Não propriamente bonito como um modelo, mas o charme másculo estava presente em seus movimentos e atitudes. Aquele era um homem dominante e poderoso, eu podia sentir na forma de me tocar e de beijar. Levamos mais algum tempo nos saboreando, aos beijos, naquele sofá apertado. Serkan, então se afastou para olhar em meus olhos por apenas alguns centímetros que me deram folga para poder respirar novamente. Ainda que ofegante de desejo. Beijar e desejar era algo que eu fazia muito bem, porém o sexo...ah o s**o ainda era uma barreira do meu coração. — Quer sair daqui? — Ele perguntou. Eu sabia o que aquele sair dali significava. Motel. s**o. Não. Eu não estava preparada para aquilo, eu não perderia minha virgindade com quem não conhecia, muito menos com um estrangeiro de quem só sabia o nome e a nacionalidade. — Não posso. — Não? — Ele se sentiu um tanto frustrado — O que posso fazer para você querer? — Eu não faço essas coisas sem conhecer. Ele assentiu com a cabeça, olhando o chão. Em seguida me olhou e me acariciou o rosto. — Muito bem, então vamos ficar aqui. Gosto você, é diferente. — Gosto de você. — Corrigi rindo. — Gosto de você. Vai me ensinar a falar perfeito? — Vai ficar quanto tempo? — Seis meses. — Mostrou seis dedos como se precisasse explicar melhor. — Seis meses, entendi. É bastante tempo para aprender bem. — Aprendi sozinho. Mas não sei muito, então preciso de ajuda. Mas preciso mais de ajuda com o espanhol. — Ah eu trabalho com isso! — Mesmo? Que maravilha! Maravilha seria se eu tivesse coragem de ir para a cama com um total desconhecido na primeira noite como Amanda fazia. Ela era corajosa, mas ele sequer a olhou. Por que será? O que havia de diferente em mim? Amanda era mais bonita e mais comunicativa. Aquilo era um mistério a ser solucionado. Serkan se aproximou de novo e me beijou. Os beijos intensos estavam me excitando. Senti minha calcinha se encharcar de desejo por aquele homem. Até temi me levantar dali tal o estado de prazer que aqueles beijos estavam me provocando. — Vou comprar uma cerveja, quer mais alguma coisa? — Não, não, tesekkuler. (obrigada) Mais uma vez ele riu do meu turco e se levantou para ir ao bar. Observei de longe aquele homem, como se movia, como era alto, como era charmoso. Senti meu coração bater em todo o corpo, talvez de desejo ou de ansiedade. Certamente de ambos. Ele não beijava como os brasileiros, era carinhoso. Qualquer brasileiro já teria levado a mão a minha b***a ou pelo menos teria tentado até levar um belo t**a. Serkan não. Ele não mexia as mãos, ele perguntava. Parecia ter um código próprio que o impedia de desrespeitar a mulher. Eu estava encantada. Nem sequer sabia se o que ele havia proposto tinha mesmo a ver com s**o, mas era provável que tivesse. Eu era brasileira, o que significava ter uma fama r**m lá fora, ainda que não importasse quantos "nãos" nós disséssemos. Mas nada ficou explícito naquele convite, o que me permitiu sonhar que ele poderia querer me levar a um restaurante ou a algum lugar onde não houvesse uma cama. Quando ele voltou, trazia sua cerveja. — Então me conte sobre você, Juliana. Tem namorado? Achei a pergunta meio i****a. — Se eu tivesse namorado, não estaria aqui agora te beijando. Ele fez um bico com a resposta atravessada, afinal a pergunta tinha a ver com meu caráter. — É verdade, mas muitas brasileiras... Nem deixei ele terminar de falar. — Muitas brasileiras, muitas americanas e muitas turcas fazem o que não devem. — Turcas? — Ele riu alto — Pode ser, mas seriam muito m*l faladas o resto da vida em família. — Aqui também. — Não tanto quanto lá. As brasileiras sofrem menos preconceito. Engoli o que ele disse como um elogio ao meu país e deixei para lá. De fato, éramos menos policiais do comportamento alheio, embora ainda muito preconceituosos em todos os sentidos. Serkan teria a noite toda para levar alguma mulher para a cama como queria, o que me fez sentir uma certa sensação de perda. Se eu ousasse mais... Não, eu não era como Amanda, não daria certo. — Eu acho a Turquia muito linda. — Tentei puxar assunto. Ele dava um gole em sua cerveja quando me ouviu. — O Brasil é mais. Estou aqui há um mês e vi coisas belíssimas. As pessoas são calorosas! — É verdade. Mais uma vez ele passou o braço por meu ombro e ficou me observando. — Você tem algo diferente, Juliana. Uma ... — Ele escolheu as palavras — Inocência. Inocência. Meu caro Deus, eu exalava virgindade como um perfume? Será que os homens conseguiam perceber isso no meu corpo, nos meus gestos ou na minha negativa? Eu não queria parecer inocente ou ingênua, de forma alguma, por isso fui enfática. — Inocência? Por que eu não quis ir para a cama com você? Ele quase cuspiu a cerveja que acabara de colocar na boca. — Eu fiz um elogio a você. — Ele olhou ao redor — Bem, é tarde, preciso acordar cedo. Foi um prazer. — Ele beijou minha mão — Iyi geceler (Boa noite) O turco se levantou e foi embora. Fiquei parada, como uma verdadeira i****a. Tão saturada dos julgamentos masculinos que já respondia m*l a qualquer homem. Fui reclamando o caminho todo de volta para casa com Gisele, afinal Amanda saiu com outro homem. — Amiga, você não tem culpa de nada, ele pode ter dito que você era inocente do tipo meio bobona, você estava certa. Sabe lá o que inocente significa no país dele. — Exatamente, eu não sei então não devia julgar! — Ou devia, Ju! Se cobre menos amiga! Estamos cansadas de homens. Deixei uma lágrima cair timidamente. Era raiva. Raiva de mim mesma. Mas era hora de parar de pensar bobagens a respeito de alguém que eu nem conhecia. Precisava pensar no dia seguinte no escritório de engenharia. Segunda-feira pela manhã. Vesti um tubinho cinza com um decote tímido, afinal era uma empresa formal. Borrifei perfume no pescoço e braços, me maquiei e saí de casa, desejando um excelente dia a minha mãe, Solange. — Vai com calma, filha, nada de nervosismo, você vai se sair bem. — Eu vou sim, mãe! Saí gritando pela porta, com pressa. Esperei o ônibus, que veio muito cheio e em seguida, peguei o metrô, também lotado. Aquela era a minha vida, a vida de uma assalariada comum do subúrbio do Rio de janeiro. Parecia uma eterna espera pelos transportes públicos. Acho que se perdia mais tempo de vida no trânsito da cidade do que propriamente trabalhando. Já em Ipanema, achei o prédio onde ia trabalhar, um local muito luxuoso. O andar inteiro parecia ter as paredes de mármore preto com detalhes em prata e espelhos para onde quer que se virasse o olhar. Aquele requinte e luxo se refletia nas pessoas que estavam muito bem vestidas apropriadamente para aquele ambiente corporativo. Caminhei até o que parecia ser uma atendente, sentada a uma mesa estrategicamente posicionada para quem entrava naquele imensa sala. — Bom dia, — Falei baixo — Sou Juliana Carvalho, eu começo hoje, pode me ajudar? A moça ergueu o olhar e seriamente me examinou de cima a baixo. — A tradutora? — Sim, sou eu. — Me acompanhe por favor. Ela se levantou e fez um gesto com a mão para que eu a seguisse até uma sala. Enquanto eu caminhava vi muitos olhares atentos em mim. As pessoas são curiosas e adoram saber novidades. Foi o que pensei. Ao abrir uma porta, ela me indicou com a mão onde eu deveria me sentar. Ali dentro, estavam sentados muitos homens de terno, que pareciam poderosos. — Você será secretária do senhor Sadik, sente-se naquela ponta, ele está chegando. — Muito obrigada. Passei por ela e adentrei à sala sentindo um frio no estômago. Era o nervosismo. Havia ali pelo menos milhares de dólares em ternos e os olhares eram curiosos. Ouvia alguns conversarem sobre o novo diretor-geral, porém não com entusiasmo. Passei por todos eles e me sentei no local indicado, que era ao lado da cadeira de cabeceira. Assim que me sentei, todos se levantaram e não entendi por que, mas no impulso me levantei também. — Para presidir a reunião e a conta do shopping Village Jacarepaguá, eu lhes apresento o senhor Serkan Sadik. — Disse uma mulher em voz alta. Serkan...Eu ouvi aquele nome e voltei o meu olhar para a porta com a expectativa de quem iria aparecer por ela. Quantos Serkan existiam no Rio? Tudo ao meu redor pareceu parar quando o turco da noite anterior entrou pela porta tirando os óculos de Sol que estavam em seu rosto. Ele deu uma pequena paradinha na sua passada quando me viu, porém fingiu naturalidade e continuou caminhando até mim. Senti até enjôo. Aquele dia seria intenso.
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