4- Lobo

1102 Palavras
Lobo Narrando Acordei cedo, antes mesmo do sol dar as caras direito. Nem tomei meu café preto sem açúcar, do jeito que eu gosto. Hoje não dava tempo pra essas fita. Já desci direto pra boca, sentindo o cheiro da rua, do corre, da responsa que eu carrego. No meu mundo, tempo é luxo e distração é erro. E eu não podia errar. — Binho, cola aqui! — chamei assim que bati o olho nele. Binho veio rápido, já ligado que o papo era sério. — Qual foi, chefe? Cruzei os braços, encarei ele firme. — Quero saber mais do Marreta. O desgraçado tá mexendo onde não deve, e eu não gosto de curioso na minha área. Binho assentiu, puxando o celular e abrindo umas mensagens. — Então, escuta essa. Tão dizendo que ele andou sondando os menor da gente, tentando cooptar os mais novos, tá ligado? Jogando ideia, prometendo grana, dizendo que a boca vai mudar de dono. Ri de canto, mas foi um riso seco. — É mesmo? Ele acha que pode bater de frente comigo? Binho coçou a nuca, meio sem jeito. — Chefe, o cara tá confiante. Ou é muito burro ou tem alguém grande por trás bancando. Minha expressão fechou de vez. Se tinha alguém maior por trás do Marreta, a coisa podia ser mais embaçada do que eu pensava. — Quero ele na minha frente. Vivo. Antes do final do dia. Binho assentiu, já sacando o que precisava fazer. — Deixa comigo. Vi ele se afastar, e eu fiquei ali, sentindo a cidade acordando ao meu redor. A guerra tava se desenhando, e eu nunca fui de fugir de um campo de batalha. Fiquei ali, vendo Binho sair no corre, já sabendo que ele ia cumprir minha ordem sem errar. Eu não escolhia qualquer um pra tá do meu lado. Lealdade aqui era lei. Acendi um cigarro e soltei a fumaça devagar, enquanto observava o movimento da boca. Os menor já tavam no pique, cada um no seu setor, a engrenagem girando do jeito que eu planejei. Mas minha cabeça não tava só ali. Marreta tava se achando muito. E isso me incomodava. Porque no meu mundo, ou cê joga certo ou vira peça descartável. E eu não tinha paciência pra recado torto. Dei uns passos até a esquina, onde um dos meus olheiros tava postado. — E aí, menor, viu alguma coisa estranha? — perguntei, sem olhar direto pra ele. O moleque, que devia ter uns 16, deu um passo pra frente e falou baixo. — Vi sim, Lobo. Uns cara diferente passaram por aqui ontem à noite. Ficaram de resenha com uns bico. Não são do morro. Meu maxilar travou. Marreta tava ousando mais do que eu imaginava. — Cês trocaram ideia? — Nem deu tempo. Assim que notaram que a gente tava de olho, vazaram. Assenti, jogando o cigarro no chão e pisando em cima. — Boa. Fica na atividade. Qualquer novidade, me chama. O moleque fez que sim e voltou pro posto. Respirei fundo. O dia m*l tinha começado e já tava desenhando treta. Mas eu nunca fui de recuar. E se Marreta queria brincar, ele ia descobrir rapidinho que comigo o jogo era diferente. O bagulho com o Marreta não era só por causa da grana ou do poder, não. O cara tinha raiva de mim. E essa raiva vinha de um lugar bem fundo, de algo que ele nunca engoliu. Marreta sempre quis ser o cara, sempre quis o comando do morro, mas sempre foi um cabeça fraca, cheio de falha. E ele sabia que eu era o tipo de líder que o morro respeitava, o tipo que não tinha medo de sujar as mãos e que jogava o jogo com inteligência. Isso mexia com ele. Ele tinha umas ambições, mas faltava coragem e visão. E, no fundo, ele sabia que pra ser o cidadão no topo, teria que passar por cima de mim. E é aí que mora o erro dele. A coisa é que o Marreta nunca engoliu o fato de eu ter assumido o comando depois do meu pai, de ter sido mais respeitado e mais inteligente do que ele. Ele sabia que nunca ia alcançar o meu nível, então a única opção era me tirar de cena. Eu não era só o "chefe" por acaso. Não era só por ser filho do velho. Eu tinha garra, estratégia, e o respeito dos meus. E, pra ele, isso era uma afronta. Ele via no meu sucesso uma sombra que não podia suportar. O que ele não sabia, ou talvez soubesse e fizesse de conta que não, é que nunca foi sobre ser "o mais forte". Sempre foi sobre saber quando agir, quando recuar, e como fazer com que as peças no tabuleiro trabalhassem a meu favor. Marreta achava que poderia me derrubar com a força bruta e uma boa lábia. Mas, irmão, isso aqui não é sobre gritar mais alto ou bater mais forte. Eu jogo o jogo até o fim. E quem tenta tirar meu lugar sempre acaba se queimando. O Marreta, cê já sabe, né? O cara sempre foi movido pela inveja. E como todo invejoso, ele achava que o caminho pra chegar no topo era passando por cima de todo mundo. Mas eu não sou igual a ele, não. Eu jogo com estratégia, jogo com calma. E se ele acha que vai me tirar do comando, ele tá muito enganado. Eu não sou aquele tipo de cara que se desespera. Eu sou calculista. O jogo é grande, mas eu sou mais grande ainda. Quando vejo alguém ameaçando minha posição, eu já começo a mexer as peças do jeito que eu quero, até deixar a situação na palma da minha mão. Marreta achava que tinha alguma vantagem, mas ele não viu o que tava por trás de tudo isso. Ele pensava que a força e a pressão iam me abalar, mas só tava me dando motivo pra reforçar minha posição. Essa é a parada dele: falta visão. Se ele tivesse mais cabeça, poderia até chegar em um lugar mais alto. Mas a raiva que ele tem de mim o impede de ver as coisas de forma clara. Ele não sabe que, no fim das contas, quem tem o comando não é quem grita mais alto ou quem bate mais forte. O verdadeiro chefe é quem sabe o momento certo de agir. Eu tô no controle há muito tempo, e não vai ser um Marreta qualquer que vai me tirar daqui. Ele só não entendeu que a guerra dele não é comigo. Ela é com ele mesmo.
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