Alice Narrando
Quando a noite chegou, minha transformação começou. Fechei a porta do meu apartamento e deixei para trás Alice Martins, a arquiteta renomada, a mulher impecável e respeitada no meio da elite carioca. Agora, eu era outra.
Fui até o closet e abri a gaveta secreta, onde guardava tudo que fazia parte da minha segunda vida. Peguei a peruca de fios longos e escuros e coloquei com precisão. Meus dedos deslizaram pela escova, ajustando cada detalhe. O espelho refletiu uma mulher que ninguém reconheceria no meio da alta sociedade.
A maquiagem veio logo depois. Olhos marcados, lábios vermelhos, pele impecável. Sedução em cada traço. O tipo de mulher que os homens desejam e as mulheres temem.
E então, o vestido. Preto, justo, curto o suficiente para atrair olhares, mas elegante o bastante para não parecer óbvio. Um vestido que fazia sucesso, que me dava o poder de comandar qualquer situação. Calcei os saltos, ajeitei os últimos detalhes e sorri para o espelho. Agora, eu estava pronta. Pronta para a noite. Pronta para ser alguém que ninguém suspeitava.
A boate estava lotada. O som vibrava no peito, as luzes piscavam num ritmo frenético, e a mistura de álcool, perfume e luxúria pairava no ar. Era o tipo de ambiente onde tudo podia acontecer, e era exatamente isso que me atraía.
Passei pela entrada com confiança, meus saltos ecoando pelo chão iluminado. Assim que cheguei ao bar, fiz um rápido escaneamento do lugar. Foi instintivo, quase automático.
E então, vi.
Alguns clientes meus estavam por ali. Homens engravatados, magnatas, caras que assinavam contratos milionários comigo de dia e, agora, estavam ali, rodeados de mulheres e whisky.
Sorri de canto. Nenhum deles me reconheceria. Meu disfarce era impecável.
Pedi um drink e me sentei no balcão, cruzando as pernas com calma, aproveitando o jogo. Uma hora passou, talvez um pouco mais. Eu já estava acostumada a receber olhares, mas não me impressionava fácil.
Até que ele apareceu.
Alto, forte, com aquele olhar de quem sabe exatamente o que quer. Ele se aproximou sem hesitar, carregando uma presença que não passava despercebida.
— Boa noite, gata. — A voz dele era grave, carregada de malícia. — Te vi aqui sozinha e achei um pecado deixar uma mulher assim sem companhia.
Revirei os olhos internamente. Homens sempre começavam com esse papo.
— E você achou que eu precisava de companhia? — perguntei, levando o copo aos lábios.
Ele sorriu de lado, convencido.
— Acho que toda mulher bonita gosta de uma boa conversa.
O clássico jogo de palavras. Mas havia algo nele diferente. Uma confiança perigosa.
— E seu nome, qual é? — perguntei, fingindo desinteresse.
Ele se inclinou um pouco mais, como se estivesse me contando um segredo.
— Me chamam de Marreta.
Fingi que não reconheci o nome. Meu coração acelerou um pouco, mas minha expressão permaneceu impecável. Eu sabia quem ele era. E, pelo jeito, ele não fazia ideia de quem eu era.
Marreta. O nome não me era estranho.
Mantive minha expressão neutra, mas minha mente já trabalhava rápido. Eu conhecia aquele nome de outro lugar. De outra vida.
Então, lembrei.
Ele era filho de um antigo cliente meu. Um homem poderoso que, há alguns anos, assinou comigo um dos maiores contratos da minha carreira. Um empresário respeitado, com dinheiro sujo correndo nas veias dos negócios. Eu nunca me envolvi diretamente nos esquemas dele, mas sabia que ele não era santo.
Agora, aquele homem estava morto.
E, pelo jeito, o filho estava seguindo um caminho parecido.
Fingi que não sabia.
— Marreta? Nome interessante. — Sorri, brincando com o canudo do meu drink. — E o que você faz da vida, Marreta?
Ele riu, como se minha pergunta fosse ingênua.
— Eu faço o jogo girar, gata. E você? O que uma mulher linda como você faz além de encantar todo mundo nesse lugar?
Joguei a cabeça levemente para o lado, como se estivesse avaliando a resposta dele. Ele era cafajeste, mas havia um tom de perigo na forma como falava. E eu adorava o perigo.
Marreta não perdeu tempo.
Ele me olhou de cima a baixo, analisando cada detalhe, como se já tivesse tomado uma decisão antes mesmo de me abordar.
— Vou ser direto, gata. Quero uma noite com você. Quanto custa?
A maioria dos homens tentava rodeios, joguinhos, mas ele foi no ponto. Sem hesitação, sem vergonha.
Cruzei as pernas devagar, encostando o cotovelo no balcão, e sorri de lado.
— Você não faz o tipo que pede, faz o tipo que manda, né?
Ele riu, um riso rouco e cheio de malícia.
— Eu mando quando preciso. Mas hoje, quero pagar pelo melhor. E olhando pra você, sei que vale cada centavo.
Peguei o canudo do meu drink entre os dedos e brinquei com ele por um segundo. Eu estava ali para isso, afinal.
— Meu valor não é baixo, Marreta. Gosto de homens que sabem jogar, mas que também sabem que minha presença tem um preço.
Ele se aproximou mais, os olhos escuros cravados nos meus, e respondeu sem pestanejar:
— Pra um mulherão desses, qualquer valor é baixo.
Segurei o sorriso. Ele sabia falar. Sabia mexer com o ego de uma mulher.
Mas eu não era qualquer uma.
— Ótimo — respondi, pegando o celular e digitando um número no visor antes de mostrar pra ele. — É isso.
Ele olhou, deu um sorriso convencido e puxou o celular do bolso.
— Fechado, gata. Agora, me diz… a gente vai perder tempo aqui ou vai direto pro que interessa?
Bebi o resto do meu drink e me levantei do banco.
— Me leva pra um lugar onde a gente possa jogar do jeito certo, Marreta.
E naquela noite, eu joguei.
Saímos da boate como se o mundo ao redor não existisse. Marreta andava com aquela confiança de quem sabe que tem o controle da situação, mas ele não sabia que, naquela noite, o jogo também era meu.
O carro dele estava estacionado na rua lateral, um modelo caro, todo preto, com os vidros escuros. Ele abriu a porta para mim, e eu entrei sem hesitar. Assim que ele entrou do outro lado, o cheiro amadeirado do perfume dele tomou conta do espaço. Forte, intenso, como ele.
— Você é diferente, sabia? — ele disse, ligando o carro e me lançando um olhar de canto.
Cruzei as pernas devagar, sentindo o tecido do vestido subir levemente.
— Diferente como?
Ele soltou um riso baixo.
— Não é só beleza. Tem algo em você… um ar de quem não se impressiona fácil.
Sorri de lado. Ele estava certo. Eu não era uma mulher fácil de impressionar.
— Talvez porque eu já tenha visto muita coisa.
Ele dirigiu pelas ruas movimentadas do Rio como se já tivesse tudo planejado. Não me perguntou se eu queria ir para algum lugar específico. Ele apenas guiava, decidido, confiante.
O destino? Um hotel luxuoso na beira da praia. O tipo de lugar onde se entra sem precisar dar explicações, onde o dinheiro fala mais alto do que qualquer questionamento.
Assim que chegamos ao quarto, ele fechou a porta atrás de nós e encostou as costas nela, me olhando com um sorriso carregado de malícia.
— Agora me diz, gata… você gosta de dominar ou ser dominada?
Tirei os saltos devagar, andando até ele, parando a poucos centímetros do seu corpo. Deslizei os dedos pelo colarinho da camisa dele e sorri, olhando direto nos olhos dele.
— Eu gosto de jogar, Marreta. E, pelo visto, você também.
A noite estava só começando.