Capítulo 3
A euforia tomava conta de Beatrice, não sabia como esconder a alegria com misto de alívio.
O celular toca na bolsa, sem olhar o visor atende sem tirar o sorriso do rosto.
—Alô?
—Por que o telefone da casa de Ida não chama? — O sorriso some do rosto imediatamente.
—Está quebrado, Kathleen – A verdade era que a linha estava bloqueada por falta de pagamento.
— Pelo menos uma vez pode me chamar de mãe? – Não há resposta — Tá. Tudo bem. Cadê Ida?
—Tia Ida ainda não saiu do hospital.
— Acho que tudo isso é frescura – Ela pressiona os lábios, respirando fundo, sentindo sua alegria parecer sem valor.
—Ligou por quê?
—Quero saber como estão ás coisas por aí.
— Agora não dá pra falar. Estou ocupada — Katheleen fica em silêncio, em seguida suspirando.
—Tudo bem, Beatrice. Depois...— desliga sem hesitar.
Sua atenção voltando para o que realmente importava.
O novo emprego.
Precisava contar para Celly e na manhã seguinte antes do trabalho contaria para Ida.
Não vê Celly quando volta para casa, imaginando que deveria estar brigando com os dois gatos que viviam na rua.
Cantarolava baixo ao abrir a porta, às notas musicais sumindo ao ver Dominic em frente á TV.
—Já não era sem tempo — diz ele com uma cerveja na mão — Trouxe comida?
Fecha a porta, tirando o casaco receosa.
—...Não tenho dinheiro para comprar comida.
— Como não tem? — Ele deixa a cerveja sobre o móvel levantando — E o dinheiro na conta de Ida?
—Acabou há três meses.
—E não fez nada?
—O que podia fazer? — Dominic se aproxima furioso.
—Cadê seu salário? Não tinha um emprego? — insiste.
Beatrice engole em seco.
—Tia Ida deixou você responsável em pagar às contas e por comida em casa. Não eu — Ela dá as costas para Dominic, que não perde a oportunidade de segurá-la pelo cabelo e puxando—a para trás das costas.
—Não vou sustenta-la, não é minha responsabilidade.. Mas já que a inútil da Ida não está, quem fará isso, será você — Dominic aperta com força o pulso dela que geme baixo de dor — Se eu voltar para casa e não encontrar o que comer. Irá pagar caro.
Ele a solta bruscamente, voltando para o sofá.
Beatrice vai para o quarto, pressionando o pulso contra o peito, os olhos marejando.
Não seria a primeira vez que às agressões acontecia e com certeza não era a última.
Dominic não estava em casa, na manhã seguinte, o que dava liberdade para transitar na casa sem ter medo.
Seus passos são rápidos enquanto caminha contra o relógio, seus olhos indo de encontro ao mesmo a cada cinco minutos.
— Cedo por aqui? – Cinzia pergunta.
Não consegue impedir o sorriso que surge.
— Tenho uma boa notícia para tia Ida.
—Não me diga que...— Cinzia ergue as sobrancelhas sorrindo.
— Não vou esquecer de retribuir o favor que está me fazendo até hoje — Pega o crachá, correndo para entrar no elevador antes que as portas fechassem.
Ida tomava café da manhã quando entra no quarto, sorrindo ao vê-la.
— Eu não esperava que viesse tão cedo hoje — murmura.
—É que tenho uma boa notícia.
— O que aconteceu? – Beatrice senta na cama, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
—Consegui um emprego, tia Ida. Pelo jeito pagam bem.
Ida sorri afagando a mão dela.
—Era o que tanto queria, não é? – Assenti — Quando irá começar?
— Hoje — Ela olha o relógio de pulso — Quer dizer, daqui a pouco. Tenho que ir.
— Tenha um buongiorno – Beatrice beija a bochecha de Ida antes de sair do quarto.
Acaba por esbarrar em Luca no corredor, que sorri ao vê-la.
— Oi.. Aconteceu alguma coisa?
—Consegui um emprego! — diz sorridente.
—Sério? — Luca tenta abraça-la, só que se esquiva.
—Tenho que ir. Depois conversamos, hoje é meu primeiro dia e você sabe que...
— Entendo. Vá bene — Se afasta em passos rápidos.
Andou o mais rápido que pôde, acreditando que seria péssimo se atrasar no primeiro dia de trabalho.
O recepcionista digitava algo no computador quando se aproxima, com um leve sorriso.
— Sou a nova assistente do signor Matteo Montana – diz tentando manter a respiração estável.
— Beatrice D'Angelo, não é?
— Isso.
— Seu crachá. Vai precisar dele de agora em diante — Ela pega o crachá sorrindo em agradecimento, passando—o na catraca para ir para o elevador.
Christine arrumava a mesa, no momento em que a porta do elevador abre e caminha até ela.
— Signor Matteo já chegou? — Christine ergue o olhar fitando—a.
— Para sua sorte não. Está atrasada — Entrega uma agenda e alguns papéis — A agenda do signor Matteo e os relatórios de algumas obras.
A porta do elevador abre, Matteo sai do elevador digitando algo no celular, entrando em sua sala sem olhar para ambas.
Beatrice o segue.
— Buongiorno, signor Matteo – diz ao entrar na sala.
— O que tem na agenda hoje? – Deixando a bolsa de lado, abrindo a agenda.
— Ligar para Sr. Warren para discutir o novo projeto e os planos de construção.
— Warren — Matteo repete parecendo ter esquecido — Me coloque na linha com ele – Ela pega o telefone, digitando um número que estava abaixo do lembrete.
Um homem com uma voz jovial atende.
— Warren falando.
— Buongiorno, signor Warren. É da Engenharia Montana, signor Matteo gostaria de falar com o signor, pode ser?
— Chiaro.
Entrega o gancho do telefone para Matteo, que inicia uma conversa em italiano.
— Onde está os relatórios das obras? — Matteo pergunta, perto da hora do almoço.
— Aqui está, signor — Ela coloca os papéis em frente a ele.
Ele os folhea sem paciência.
— Já os leu?
— Não sabia se tinha permissão, signor.
— Você fez Engenharia Civil, não fez?
— Sì, signor.
— Então saberá se houver alguma irregularidade — Estende os papéis para ela, que não hesita em os pegar de volta — Vou almoçar.
— Sì, signor.
Matteo levanta colocando o paletó, que estava nas costas da cadeira , deixando a sala em seguida.
Ela senta num sofá de couro marrom no canto da sala, iniciando sua leitura, após colocar os óculos.
Sentia que para o primeiro dia estava se saindo bem.