Ele é o primeiro a quebrar nosso contato visual, que para mim pareceu durar horas, eu estava morrendo de vergonha, caminhei para a minha casa o mais rápido que pude, não queria me distrair com ele novamente.
Meus pais estavam mais uma vez em alguma discussão sobre alimentação saudável, estava perto da hora do almoço, meu pai queria uma lasanha, e minha mãe não faz nunca algo realmente saboroso para comermos.
“Eu não vou entupir as veias da minha família com essa bomba de gordura! Eu amo vocês, não quero que infartem antes de chegarem aos 50!” – A pessoa mais exageradamente correta que eu via em relação a alimentação era ela.
“E onde já se viu alguém infartar por comer apenas um pedacinho de lasanha Sarah? Eu vou acabar infartando de tanto nervoso por não poder comer!” – Meu pai respondeu completamente revoltado.
“É melhor que você continue na sua área, não se envolva com o que não sabe, okay? Deixe que com o cardápio da casa eu mesma me viro!” – Retrucou.
Eu me vi parada a porta, sorrindo como boba, me perguntando se um dia eu conheceria alguém que me deixasse tão apaixonada a ponto de viver para sempre assim.
Meus pais eram os completos opostos um do outro, minha casa era sempre um festival de discussões diferentes, mas eles se amavam demais, era nítido, até mesmo no meio de suas pequenas discussões sobre tudo.
“Que bom ver a família tão feliz. Onde estão os meninos?” – Falei apenas para fazer minha presença conhecida.
“Ah, maravilha, você chegou, me ajuda por favor a convencer a sua mãe a fazer algo gostoso, eu não sou uma vaca para comer só pastagens, ela vai me matar!”
“Já disse que não, nem adianta você pedir socorro a ela, nada vai me convencer, não dessa vez.” Meu pai sempre me dizia que eu daria uma excelente advogada, justamente porque eu sabia trabalhar a mente das pessoas, mesmo quando eu nem mesmo estava tentando fazer isso. ele me chama de pequena manipuladora, eu nem sei se isso é realmente bom.
“Ah, qual é mãe, onde está o erro em comer algo que agrade o paladar se for ingerido em pequenas quantidades? Nós sabemos que tudo que faz é pensando apenas no nosso bem estar, e te agradecemos por isso, mas não é bem mais interessante vocês fazerem uma lasanha juntos, brincando aqui, do que o papai ir a algum restaurante, onde nem mesmo sabemos da procedência dos alimentos, para comer um pedaço de lasanha, e acabar tendo uma intoxicação alimentar?” – Joguei a isca para ver se ela chegaria ao ponto onde eu queria, isso já tinha virado quase um jogo entre mim e meu pai.
“É claro que seu pai não teria intoxicação alimentar por um pedaço de lasanha dos restaurantes que ele costuma frequentar, são todos bons.”
“Assim como ele também não irá ter a veia do coração entupida por comer um pedaço em casa, feita com o amor e carinho, e claro, acima de tudo, com alimentos de qualidade, porque eu mesma não confio nada nesses restaurantes.”
Minha mãe ficou pensativa, olhando do meu pai para mim, com os olhos estreitos. “Okay, eu vou fazer, mas se estiverem passando m*l a noite, nem mesmo pensem que eu vou levar vocês ao hospital, preciso do meu sono da beleza!”
Ponto para mim! Passei ao lado do meu pai, e ele sutilmente deu um tapinha na minha mão, nem sempre dava certo, mas na grande maioria das vezes, quem conseguia algo era eu.
“Onde pensa que vai mocinha? Preciso te perguntar algo.” – Minha mãe me chamou de volta. – “Suas amigas me falaram sobre a tal da festa no final de semana, você vai?
“Vou sim mãe, pode deixar, não irei faltar a minha própria festa!” – Respondi sem nenhum animo.
“Como se isso fosse uma coisa impossível de acontecer, esqueceu que você já fez isso? Porque eu não esqueci!” – Sim, eu tinha mesmo faltado a uma das festas exageradas da minha mãe, mas ela mesma só notou que eu não estava presente na hora de cantar parabéns.
Dei risada e sai da cozinha procurando meu irmão do meio. Ele sim era o festeiro, que queria sempre que eu o levasse a algum lugar, já que meus pais, para me obrigarem a ter convívio social, diziam que ele só iria a algum lugar, se eu também fosse, ele é dois anos mais novo do que eu.
“Quer ir na minha festa de aniversário?” – Perguntei entrando em seu quarto sem nem pedir licença.
“A educação mandou lembranças... Quero sim, eu já estava sabendo, mesmo que você não chamasse, eu iria.” – Me respondeu sorrindo.
“E ainda tem coragem de dizer que eu é que sou m*l educada.” Retruquei. “Já que está sabendo de tudo, não vejo motivos para ficar aqui.” Disse saindo do quarto. “Ah! hoje vai ter lasanha.”
“Você conseguiu de novo? Não acredito, se começarem a fazer isso com muita frequência ela vai surtar a qualquer momento”
“Vai nada, vou tomar meu banho, acho que vou no centro, quer dar um pulinho lá comigo? Quero ir na livraria, a continuação de uma trilogia minha chegou.”
“Vou não, odeio ir com você, são horas e mais horas perdidas, parece louca.”
“Tá bom Fernando, obrigada.”
Saí antes de almoçar, já que com a peça da lasanha na cozinha, seria difícil alguém almoçar hoje em casa, seria mais para um café da tarde.
Eles até tentaram protestar, mas eu mais uma vez consegui, dizendo que quando eu voltasse ainda daria tempo de almoçar.
Quando saí pelo portão, Samuel e o primo estavam conversando na calçada, ele veio na minha direção, atravessando a rua, enquanto o belíssimo homem de olhos azuis se manteve do outro lado apenas me olhando.
“Oi, tudo bem? Desculpa ter saído daquele jeito, eu me empolguei.” - Ele disse envergonhado. - “Eu vou ir sim na sua festa, comentei com meu primo, ele disse que quer ir também, mas você esqueceu de me mandar o endereço.”
Meu corpo inteiro ficou tenso, eu sentia o olhar dele em mim, esquentando minha pele, fazendo todo o meu corpo ficar em alerta. Quase não conseguia prestar atenção necessária ao que Samuel me dizia, de tanto esforço que eu estava fazendo para não olhar para o primo, que eu sentia estar olhando para mim.
“Oh, é verdade, me desculpe, é que minha família entrou em uma discussão acalorada sobre o risco de infarto por lasanha...” – Ele estava me olhando de um jeito engraçado, sorrindo sobre minha informação desnecessária, possivelmente. “Piadas internas.”
Peguei meu celular no bolso, e olhei para a tela para enviar o endereço por mensagem.
Minha pele inteira se arrepiou, senti meu coração dar um salto, quando olhei para cima e vi que o primo dele estava atravessando a rua.