3. Cali

2148 Palavras
Existe um motivo pelo qual eu sempre fujo pela janela. As pessoas confiam demais no óbvio. Quando alguém desaparece, todos correm para a porta da frente. Verificam os corredores, a garagem, os portões, as câmeras de segurança. Organizam buscas, distribuem ordens e começam a imaginar rotas de fuga elaboradas. Enquanto isso... Eu já estou do lado de fora. Naquela manhã, o vento frio da primavera bagunçava meu cabelo enquanto eu descia lentamente pela corda improvisada com lençóis brancos amarrados um ao outro. O tecido rangia a cada movimento, fazendo um barulho que parecia alto demais para o meu gosto. Olhei para cima. A janela do meu quarto continuava aberta. Perfeito. Olhei para baixo. Ainda faltavam quase três metros até o jardim. — Não olhe para baixo — murmurei para mim mesma. Olhei. Péssima decisão. — Você já fez isso dezenas de vezes — sussurrei, tentando convencer mais a mim do que ao meu lobo. Minha loba soltou uma espécie de bocejo mental. Você sempre fala isso. — Porque funciona. Até o dia em que não funcionar. — Hoje não é esse dia. Soltei a corda no momento certo e aterrissei sobre a grama úmida. A umidade atravessou a sola do tênis, e o perfume de terra molhada invadiu meu nariz. Sorri. Livre. Nem olhei para trás. Atravessei os jardins correndo entre as árvores antigas da propriedade, desviando das estátuas de pedra e dos canteiros impecavelmente cuidados pelos jardineiros da alcateia. Conhecia aquele lugar melhor do que qualquer pessoa. Afinal, passei boa parte da infância descobrindo novas maneiras de escapar dele. Cinco minutos depois, eu já pilotava minha moto rumo ao centro da cidade. --- Troquei o capacete por um boné preto. Coloquei um moletom largo. Óculos escuros. Prendi o cabelo em um coque desajeitado. Observei meu reflexo na vitrine de uma loja. Na minha cabeça, parecia irreconhecível. Na realidade... Parecia alguém prestes a assaltar um banco. — Discrição nunca foi meu ponto forte. Minha loba riu. Nem planejamento. Ignorei. Empurrei a porta da cafeteria. Um pequeno sino anunciou minha entrada. O aroma de café recém-passado envolveu meu corpo antes mesmo de eu dar o segundo passo. Canela. Chocolate. Manteiga derretida. Pão quente. Respirei fundo. Era maravilhoso. Muito melhor do que qualquer café servido na mansão. Ali ninguém fazia reverências. Ninguém abaixava a cabeça quando eu passava. Ninguém me chamava de "senhorita Ashcroft". Eu era apenas mais uma cliente. Era exatamente disso que eu sentia falta. Esperei minha vez na fila observando o movimento ao redor. Uma senhora discutia com o marido porque ele insistia em colocar três pacotes de açúcar no café. Uma criança desenhava sobre um guardanapo usando giz de cera. Dois universitários dividiam um notebook enquanto discutiam alguma apresentação. Vida comum. Caótica. Imperfeita. Normal. Às vezes eu invejava os humanos. Eles acordavam sem precisar representar um sobrenome. Sem carregar expectativas. Sem viver cercados de protocolos. — Bom dia! O que vai querer? Sorri para a atendente. — Um cappuccino grande... e um croissant de queijo, por favor. — Nome? — Cali. Ela anotou no copo. Só Cali. Nenhum sobrenome. Nenhum título. Era estranho como algo tão pequeno podia me deixar tão feliz. Escolhi uma mesa perto da janela. O sol atravessava o vidro, aquecendo minhas mãos enquanto segurava a xícara. Fechei os olhos por um instante. Aquilo era paz. Pelo menos... Até uma voz grave quebrar completamente o momento. — Está sorrindo porque acredita que escapou? Meu corpo inteiro congelou. Meu coração simplesmente... esqueceu como batia. Abri os olhos lentamente. Um homem puxava a cadeira à minha frente com a tranquilidade de quem tinha todo o direito de estar ali. Era alto. Muito alto. Os ombros largos preenchiam completamente a jaqueta preta que usava. Os cabelos escuros caíam de maneira despretensiosa sobre a testa, como se ele sequer se importasse em arrumá-los. A barba curta desenhava uma mandíbula forte. Mas foram os olhos... Cinzentos. Profundos. Atentos. Olhos que pareciam enxergar muito além daquilo que as pessoas tentavam esconder. Quando nossos olhares se encontraram... O mundo desapareceu. Não houve cafeteria. Não houve pessoas. Não houve barulho. Foi como se alguém tivesse arrancado todo o ar dos meus pulmões. Uma corrente invisível atravessou meu peito. Meu coração disparou de forma tão violenta que chegou a doer. Meu lobo despertou. Não. Despertou não. Explodiu. É ele. A voz dela ecoou dentro da minha mente com uma certeza que me fez estremecer. Nosso companheiro. Meu estômago virou. Não. Não. Não podia ser. Ali. Naquela cafeteria. Na frente de um completo desconhecido. Observei seu rosto. Ele também havia congelado. Foi rápido. Tão rápido que qualquer humano teria deixado passar. Mas eu era uma loba. Vi o instante exato em que suas pupilas se dilataram. Vi seus dedos apertarem o copo de papel até amassá-lo. Vi o músculo de sua mandíbula contrair. O lobo dele também havia despertado. Ele sentiu. Eu tinha absoluta certeza. Por um único segundo... Parecemos duas pessoas incapazes de lembrar como respirar. Então... Ele piscou. A expressão desapareceu. Seu rosto voltou a ser completamente neutro. Frio. Controlado. Como se absolutamente nada tivesse acontecido. Fiquei encarando aquele homem por mais alguns segundos. Meu coração ainda batia tão forte que eu podia ouvi-lo dentro dos ouvidos. Respirei fundo. Se ele iria fingir... Eu também podia fingir. Ergui o queixo. — Quem é você? Minha voz saiu firme. Milagrosamente firme. Por dentro, porém, meu mundo continuava completamente fora do eixo. Ele não respondeu de imediato. Apenas continuou me observando. Não era um olhar invasivo ou arrogante. Era... analítico. Como se cada pequeno movimento meu fosse uma peça de um quebra-cabeça que ele estivesse montando em silêncio. Aquilo era irritante. Principalmente porque eu fazia exatamente a mesma coisa com ele. Seu peito subia e descia em um ritmo controlado, mas eu conseguia ouvir seu coração. Estava mais acelerado do que o rosto impassível deixava transparecer. Então ele falou. — O cappuccino daqui é bom? Pisquei. Por um instante, achei que tivesse ouvido errado. — Desculpe? — O cappuccino daqui é bom? Aquele homem só podia estar brincando comigo. — Eu perguntei quem é você. — E eu perguntei sobre o café. Cruzei os braços lentamente. Então era esse o jogo. Ele queria agir como se o mundo não tivesse acabado de virar de cabeça para baixo. Tudo bem. Eu também sabia representar. Inclinei a cabeça, como se estivesse avaliando a pergunta com toda a seriedade do universo. — É excelente. Um quase imperceptível movimento de aprovação passou por seu rosto. — Ótimo. Fez um sinal para a garçonete. — Um café preto, por favor. A moça anotou o pedido e se afastou. O silêncio voltou a cair entre nós. Ao redor, a cafeteria permanecia exatamente igual. As pessoas conversavam. Talheres tilintavam. A máquina de café soltava vapor. Uma criança ria perto do balcão. Era estranho. Meu mundo havia acabado de mudar completamente. O restante da cidade nem sequer parecia notar. Quando a garçonete se afastou, ele voltou a olhar para mim. — Cali. Meu corpo inteiro ficou rígido. O sorriso desapareceu. — Como sabe meu nome? — Seu pai me contou. Claro. Meu pai. Respirei fundo. Era impressionante como ele sempre encontrava uma maneira de estragar meus momentos de paz. — Então você é o novo guarda-costas. — Sim. — Nome? — Axl. Axl. O nome combinava com ele. Curto. Firme. Difícil de esquecer. Minha loba praticamente suspirou. É ele... Nosso companheiro. Nosso Alfa. "Pare de falar assim." Mas é verdade. Ignorei completamente a voz dela. Ou tentei. Foi um erro inspirar profundamente. O aroma dele invadiu meus sentidos. Cedro. Terra molhada. Chuva chegando. Era um cheiro absurdamente masculino. Quente. Viciante. Meu lobo praticamente ronronou dentro de mim. "Você está me irritando." Estou sendo sincera. Peguei a xícara depressa demais. Quase derramei café na mesa. Que ótimo. Agora eu estava nervosa. E ele provavelmente tinha percebido. — Então... senhor guarda-costas. — Apenas Axl. Balancei a cabeça. — Não somos íntimos. Pela primeira vez, notei uma pequena reação. Um músculo em sua mandíbula se moveu. Só isso. Era como tentar arrancar expressões de uma estátua. — Também não pretendo ser. Mentiroso. Eu tinha visto sua reação. Seu lobo também estava lutando. Ele apenas escondia melhor do que eu. Terminei meu cappuccino em silêncio. Levantei-me. — Bem... Sorri educadamente. — Foi um prazer. Dei dois passos. — Sente-se. Continuei andando. — Cali. Nem olhei para trás. Empurrei a porta da cafeteria. O sino tocou novamente quando saí para a calçada. O ar fresco bateu contra meu rosto. Respirei aliviada. "Pronto." "Basta desaparecer." Atravessei a rua antes que o sinal fechasse. Depois outra. Misturei-me entre os pedestres. Dobrei duas esquinas. Sorri. Boa sorte encontrando alguém que passou a infância fugindo de guerreiros treinados. — Você anda rápido. Quase dei um salto. Virei a cabeça. Axl caminhava exatamente ao meu lado. Com as mãos nos bolsos. A expressão tranquila. Como se sempre tivesse estado ali. Olhei para trás. Depois para a frente. Depois novamente para ele. — Você me seguiu. — Estou trabalhando. — Está me perseguindo. — Tecnicamente... Seu olhar encontrou o meu. — Sim. Bufei. — Que irritante. Ele apenas continuou andando. Nem sequer pareceu ofendido. O silêncio que se instalou era estranho. Pesado. Quanto mais tempo caminhávamos próximos... Mais intensa ficava a presença dele. Meu lobo não ajudava em absolutamente nada. Chegue mais perto. "Não." Só um pouquinho. "Não." Segure a mão dele. "Você perdeu completamente o juízo." Ela ignorou minha reclamação. A conexão parecia um fio invisível nos puxando um para o outro. Era desconfortável. E ao mesmo tempo... Reconfortante. O que fazia ainda menos sentido. Dobrei outra esquina. Uma livraria. Perfeito. Entrei. O cheiro de papel e livros antigos substituiu o aroma da rua. Passei lentamente entre as estantes. Peguei um livro qualquer. Espiei discretamente. Axl entrou logo depois. Não olhava diretamente para mim. Mas sabia exatamente onde eu estava. Saí da livraria. Ele saiu também. Entrei em uma loja de roupas. Experimentei um casaco. Outro. Uma jaqueta. Esperei. Quando olhei pela vitrine... Ele permanecia perto da entrada. Paciente. Imóvel. Como uma montanha. Cruzei os braços. Aquilo estava começando a virar uma competição. Sorri sozinha. Tudo bem. Vamos brincar. Caminhei casualmente até o fundo da loja. Uma funcionária organizava algumas caixas próximas à saída de emergência. Esperei que ela se distraísse. Empurrei a porta. Corri. O vento atingiu meu rosto. Atravessei uma praça movimentada desviando das pessoas. Subi uma escada metálica de incêndio. Os degraus vibravam sob meus pés. Saltei para um telhado baixo. Depois outro. Sorri. Agora sim. A cidade se estendia diante de mim. Prédios. Árvores. Carros. O céu azul começava a ser tomado por nuvens. Ali em cima... Ninguém me encontraria. — Discordo. Fechei os olhos lentamente. Não. Impossível. Virei o rosto. Axl estava sentado sobre a mureta de concreto. Completamente relaxado. Como se tivesse chegado fazia horas. Em uma das mãos... Meu cappuccino. Olhei para o copo. Depois para ele. Depois novamente para o copo. — Como... Ele levantou o café. — Você esqueceu isso. — Como chegou aqui primeiro? Ele deu um pequeno gole antes de responder. — Conheço a cidade. — Isso é trapaça. — Estratégia. Revirei os olhos. — Você é insuportável. — Já ouvi isso antes. Ele se levantou. Seus passos eram lentos. Seguros. Cada metro que diminuía entre nós fazia minha respiração perder o ritmo. Meu lobo praticamente vibrava de felicidade. É ele. "Eu sei." Toque nele. "Nem pensar." Quando restava menos de um metro entre nós, nós dois paramos. O vento brincava com algumas mechas do meu cabelo. Por um instante, ninguém disse nada. A cidade desapareceu outra vez. Os olhos cinzentos dele encontraram os meus. Depois desceram involuntariamente para minha boca. Foi rápido. Rápido o suficiente para qualquer pessoa ignorar. Mas eu percebi. Assim como percebi quando ele inspirou discretamente, tentando recuperar o controle. Seu lobo também estava inquieto. Ele desviou o olhar primeiro. — Não precisa continuar fugindo. Cruzei os braços para esconder o tremor em minhas mãos. — Preciso. — Não vai funcionar. Inclinei a cabeça. — Está me desafiando? Pela primeira vez... Vi um quase sorriso surgir no canto de sua boca. Durou menos de um segundo. Mas transformou completamente seu rosto. — Estou apenas informando um fato. Sorri de volta. — Ótimo. Ele arqueou uma sobrancelha. — Porque eu adoro provar que os fatos estão errados. Nossos olhares voltaram a se prender. Mais uma vez. A ligação entre nós queimou como uma corrente elétrica invisível. Meu peito apertou. Meu coração acelerou. Meu lobo sussurrou apenas uma palavra. Companheiro. Vi os ombros de Axl enrijecerem. Sua respiração ficou mais pesada por um breve instante antes que ele desse um passo para trás. Foi uma reação pequena. Quase imperceptível. Mas suficiente. Eu não precisava ouvir o lobo dele para saber. Pela forma como ele me olhava... Pela luta silenciosa estampada em seus olhos... Eu tinha absoluta certeza de que a mesma palavra acabara de ecoar dentro dele. Companheira.
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