4. Axl

1115 Palavras
Já enfrentei guerras. Já lutei contra lobos enlouquecidos. Já atravessei territórios inimigos sozinho. Nada disso me preparou para a sensação de ficar perto da minha companheira destinada... sem poder tocá-la. Desde que a encontrei naquela cafeteria, meu lobo não parava um segundo. Ela. Era tudo o que ele repetia. Nossa companheira. Ignorei. Ou tentei. Anos de treinamento me ensinaram a controlar impulsos. Fome. Dor. Medo. Mas ninguém ensina um guerreiro a ignorar o vínculo da parceira destinada. O perfume dela chegava até mim com facilidade. Baunilha, chuva de verão e o aroma lupino que nenhum humano seria capaz de perceber. Era enlouquecedor. Meu lobo queria diminuir a distância. Queria segurá-la. Queria marcar seu pescoço para que toda alcateia soubesse que ela era nossa. Eu queria mandá-lo calar a boca. Ela continuava caminhando pela calçada, completamente alheia à batalha que acontecia dentro de mim. Ou talvez não. Em alguns momentos, ela olhava para mim com a testa franzida, como se também estivesse tentando entender por que meu cheiro parecia tão... familiar. Não. Ainda não. Ela não podia descobrir. Muito menos eu poderia demonstrar qualquer coisa. Ela era filha do Alfa. Minha protegida. Minha missão. E esse vínculo era um problema que eu não tinha autorização para sentir. — Está vindo ou vai criar raízes aí? — perguntou, olhando para mim por cima do ombro. Acompanhei seus passos. — Estou calculando quanto tempo vai levar até você tentar fugir de novo. Ela sorriu. — Nossa... você me conhece tão bem. — Li seu histórico. — Meu pai realmente escreveu um histórico sobre mim? — Não. Ela soltou um suspiro aliviado. — Ainda bem. — Foram três volumes. Ela parou de andar. — Três? Continuei caminhando. — Com anexos. Ela resmungou alguma coisa enquanto voltava a me acompanhar. Meu lobo, no entanto, parecia satisfeito apenas por ela estar novamente ao meu lado. Mais perto. "Cale a boca." Ela está sorrindo para nós. "Ela está sorrindo porque acha que sou irritante." Mesmo assim está sorrindo. Respirei fundo. Ignorar o lobo seria uma missão tão difícil quanto proteger Cali dela mesma. Seguimos pela avenida. Ela cumprimentava desconhecidos, brincava com uma criança que passava segurando um balão, fazia carinho em um cachorro de rua e ajudava uma senhora a recolher frutas que haviam caído da sacola. Fiquei observando em silêncio. As pessoas descreviam Cali como rebelde. Nenhuma mencionava que ela tinha um coração incapaz de ignorar quem precisava de ajuda. Meu lobo soltou um rosnado baixo, satisfeito. Ela seria uma ótima Luna. Fechei a mandíbula. "Não." Ela jamais seria minha Luna. Não enquanto eu pudesse impedir. — Você vai continuar me encarando? — perguntou. — Estou trabalhando. — Então trabalha menos. — Não. — Você sabe dizer outra palavra além de "não"? — Sim. Ela abriu um sorriso. — Finalmente. Qual? — Depende. Ela revirou os olhos. Meu corpo permaneceu imóvel. Por dentro... Meu lobo estava praticamente abanando o r**o. Ridículo. Ela parou em uma barraca de churros. — Quero um. — Não. Ela me encarou como se eu tivesse cometido um crime. — Você acabou de dizer não para um churro? — Eu disse não para você. — Qual a diferença? — O churro não tenta fugir. Ela fez uma expressão indignada. — Acho que isso foi um insulto. — Foi um fato. Comprou o doce mesmo assim. Depois pediu outro. — Um para ele. — Não. O vendedor sorriu. — Tem certeza? — Absoluta. Cali cruzou os braços. — Você sorri? — Às vezes. — Quando? — Quando fico sozinho. Ela riu. Aquela risada... Meu lobo ficou completamente em silêncio. Como se estivesse apenas ouvindo. Como se aquele som fosse suficiente. Foi a primeira vez em muitos anos que senti vontade de sorrir também. Não sorri. — Você é a pessoa mais rabugenta que já conheci. — Obrigado. — Isso continua não sendo um elogio. — Continua não fazendo diferença. Meu celular vibrou. Mensagem do Alfa. Relatório. Respondi sem hesitar. Encontrei Cali. Está segura. Tentou fugir quatro vezes. Nenhum sucesso. A resposta veio quase imediatamente. Quatro? Até agora. Guardei o aparelho. Ela me observava. — Meu pai? — Sim. Ela suspirou. — Ele deve achar que sou feita de vidro. Olhei para ela por um instante. Não. Vidro quebrava fácil. Ela era feita de tempestade. E tempestades tinham o péssimo hábito de se colocar diante do perigo sem pensar. Continuamos andando. Ela atravessou a rua sem olhar. Meu corpo reagiu antes da razão. Segurei seu braço. Um carro passou em alta velocidade exatamente onde ela pisaria. Ela olhou para minha mão. Depois para mim. No instante em que nossos olhos se encontraram... O vínculo vibrou. Forte. Quente. Meu lobo praticamente rugiu dentro de mim. Companheira. Por uma fração de segundo, senti vontade de puxá-la para perto. De verificar se estava bem. De passar a mão em seu rosto. Em vez disso, soltei seu braço imediatamente. — Olhe antes de atravessar. Ela continuou me encarando. Como se também tivesse sentido alguma coisa. — Você... Ela franziu a testa. — Seu cheiro mudou. Meu coração acelerou. Droga. — Impressão sua. Ela aproximou um passo. — Não. Meu lobo ficou inquieto. Mais perto. Ela inspirou discretamente. — É estranho... Recuei um passo. — Vamos. Ela não insistiu. Mas continuou me observando pelo resto do caminho. Poucos minutos depois, um grupo de adolescentes a reconheceu da corrida clandestina. Antes que ela pudesse responder às perguntas, fiquei entre ela e os rapazes. — Ela não participa mais. Um deles riu. — E você é quem? — Guarda-costas. — Então você manda nela? Antes que eu respondesse, Cali abriu aquele sorriso que claramente anunciava problemas. — Acho que consigo correr mais rápido que ele. Os adolescentes começaram a incentivar. Ela disparou avenida abaixo. Fechei os olhos por um segundo. Meu lobo soltou um rosnado impaciente. Vai atrás dela. "Eu já ia." Ela olhava para trás enquanto corria. Erro. Quando voltou a olhar para frente, quase atingiu um carrinho de pipoca. Alcancei-a antes. Segurei sua cintura. Seu corpo bateu contra o meu por um breve instante. O mundo pareceu silenciar. O vínculo queimou entre nós como uma corrente invisível. Ela prendeu a respiração. Eu também. Por um segundo longo demais, nenhum de nós falou. Os olhos dela encontraram os meus. Havia surpresa. Confusão. E a mesma sensação de reconhecimento que eu lutava para esconder desde a cafeteria. Afastei-me imediatamente. — Vamos. Ela permaneceu parada por alguns segundos. — Você é irritantemente rápido... Assenti. — Eu avisei. Enquanto voltávamos a caminhar, mantive a expressão fria. Mas por dentro... Meu lobo já não aceitava mais negar a verdade. Ela era minha companheira. E cada minuto ao lado dela tornava infinitamente mais difícil fingir que eu não sabia disso.
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