Hora do jantar...
Nada me preparou para o aconteceu.
Nem em mil anos imaginei que o meu pai teria a reação que teve. Gostaria de dizer que ele estranhou inicialmente e até ficou puto, que gritou e disse que teria que trabalhar para sustentar os meus filhos, que quis a todo o custo saber quem era o pai, mas no fim cedeu a ideia de ser avô, que ficou com o coração aquecido com a ideia de dois anjinhos correndo para lá e para cá pela casa enorme que há muito não é ocupada por ninguém além de nós três. Mas não foi o que aconteceu, eufemismo não seria a palavra correta para minha linha de pensamento.
Nada me preparou.
Nietzsche uma vez disse "Uma crença forte demonstra apenas a sua força, não a verdade daquilo que se acredita”, isso não poderia ser mais verdade.
O meu pai acredita cegamente na ideia de que temos que viver unicamente para Cristo, se sentir dor, ora, se tiver triste, não está lendo a palavra, se tiver angustiado, não está dando crédito a palavra de Deus, se estiver feliz demais, está se desviando do caminho, e se em meio aos problemas você humanamente se abater puff!!
Você está a fazer de Deus pequeno. Sabe o pior? Ele realmente acredita em tudo isso.
Eu estou ansiosa para contar de uma vez, sei que ele vai surtar, mas ele ainda é meu pai, vamos encontrar uma saída disso juntos, como uma família faria, não é assim que tem que ser?
Já são 18:30, estou no meu quarto esperando ver a minha mãe chamá-lo para o jantar, quando ela o fizer, é que irei aproveitar. Aqui em casa, nós temos o costume de fazer pelo menos uma refeição juntos, ao menos, tentamos, normalmente isso acontece mais aos domingos, já que durante a semana os meus pais trabalham e fico mais do tempo só em casa.
Escutei a minha mãe perguntar:
— Mag, quer jantar agora? – Perguntou ela, e meu coração iniciou uma maratona a caminho da minha boca.
— Oh, Maria, pensei que você já tinha colocado rsrrs! – Ele disse fazendo graça.
A minha mãe riu, sempre achei fofo o jeito que eles se chamavam...
“Minha mãe, quase sempre o chamava “Mag” ou de ”Ninho”, enquanto ele a chamava “Maria”, já que mais ninguém a chamava pelo primeiro nome, como disse, fofos.
É lá vamos nós.
Descendo as escadas, não pude deixar de me senti o ser humano, mas só do mundo inteirinho, sempre me senti, mas nunca foi tão doloroso como agora, não quando estava prestes a contar a meus pais, algo que nem mesmo eu, que fiz o curso de auxiliar de necropsia, biologia ambiental (mas sempre apaixonada pelo corpo humano e estudando também a sua biologia), não conseguia entender com, isso estava a acontecer, quem dirá, fazê-los acreditar em mim.
Teria como?
Me aproximo da mesa, com as mãos soadas, e uma sensação de frio, sei que emocional, mas não diminui o efeito, muito pelo contrário, estou lutando para controlar os tremores involuntários que o meu corpo insiste em dar. Já até sei como lidar com esses tremores, eles são constantes nas minhas crises de ansiedade.
Meu pai, me vendo meio-pálida, me pergunta:
— Está sentindo o que filha? – Perguntou com o cenho franzido.
— Está sentindo o que, Aly? – Foi há vez da minha mãe perguntar.
— Senta aí, você tá pálida. Você comeu hoje? Está achando que vai virar santa se não comer é? – Falou, como sempre quando eu não me alimentava nos horários.
Deus, dá-me força, guia-me senhor, porque eu não sei como começar, eu m*l consigo olhar no rosto de preocupação do meu pai agora, senhor, eu vou envergonhá-lo.