capítulo 18.o quarto proibido

739 Palavras
— Vai pra onde? Draco pergunta, agora soltando os braços, o peito largo à mostra, como se fizesse aquilo só pra me distrair. — Pro meu quarto respondo, tentando passar por ele sem tropeçar na própria língua. Ele abre espaço… mas não sem deixar a última provocação. — Tudo bem. Mas, se quiser companhia, o meu quarto é aquele ali. Ele aponta com o queixo para a porta. — A gente pode se divertir esta noite. Ele vira de costas e entra no quarto dele, desaparecendo como se a sombra o engolisse. A porta se fecha devagar, quase debochada. Eu olho para a porta um segundo a mais do que deveria. Aquele quarto é território proibido. Melhor decorar isso. Sigo para o meu quarto. Mas a melodia do piano continua serpenteando pela mansão como fumaça triste, melancólica, hipnótica. Entro no quarto, fecho a porta e caminho até a janela. Abro um pouco. O vento gelado traz cheiro de terra molhada e pinheiros. A noite cai como um véu n***o sobre a floresta escura, silenciosa, profunda. Parece que tudo ali observa. E espera. Fecho a janela. Fecho as cortinas. Deito na cama e fico ouvindo a música… imaginando Peter. Será que ele é como Nicolas? Calmo, gentil? Ou mais como Draco? Intenso, provocador, perigoso? A melodia muda suavemente como se respondesse aos meus pensamentos. E então… fica mais leve. Mais suave. Como se quisesse me embalar. E eu acabo adormecendo. No quarto de Peter A porta se abre sem bater. — Irmão, você devia ver a nova babá Draco diz, entrando sem pedir permissão, como sempre. Peter não levanta o olhar do piano. Apenas mantém os dedos nas teclas, fazendo um acorde suave vibrar pelo quarto. — Sério? Peter murmura, a voz baixa, arranhada, quase distante. — Por que ela seria diferente? É como todas as outras. Mas ele sabe que está mentindo. Ele sentiu. Ele percebeu. O cheiro dela ainda flutua no ar da mansão. Ela cheira a vida. E nós… nós somos a morte. Draco se joga numa poltrona, cruzando as pernas com aquela arrogância natural. — Ela é bonita admite, sorrindo de lado. — E eu estou querendo testar. Ver se ela aguenta as minhas provocações… ou se vai sair correndo como as outras. Peter toca uma nota curta, seca. Quase irritada. Então ele ergue o olhar. E seus olhos verdes, profundos e sombrios como o interior da floresta, brilham com uma mistura de desgosto e… curiosidade. — Quando se trata de ser insuportável ele diz, encarando Draco — você e a Laila são especialistas. Draco ri. — Ah, irmão… você devia vê-la. Ela tem algo… diferente. Peter volta a olhar para as teclas, mas seus dedos hesitam. Só por um segundo. A música que ele toca muda de novo sem que Draco perceba ficando mais intensa, mais íntima. Como se o piano estivesse contando um segredo que nem ele entende. Porque, pela primeira vez em muito tempo, algo ou alguém mexeu com ele. Draco finalmente se levanta da poltrona, estalando os dedos como se nada nunca pesasse sobre ele. — Amanhã eu vejo como é essa garota digo, sem olhar diretamente para ele. Minha voz sai baixa, quase um ronronar tenso. — Tudo bem, irmão. Mas eu te aviso… Draco sorri de lado, aquela expressão de quem sabe mais do que diz. — Ela não é como as outras. Ele sai do quarto sem fechar a porta. Sempre assim. Como um furacão que passa e deixa rastros de caos. Quando o silêncio volta, minha respiração muda. Meus dedos ainda estão sobre as teclas, mas não tocam nada. A melodia morreu antes que eu pudesse perceber. "A nova babá…" Fecho os olhos. Mesmo sem tê-la visto de perto, o cheiro dela ainda dança nas paredes desta casa antiga. Calor… vida… medo também. E um toque de algo que não consigo nomear. Isso me irrita. Isso me intriga. Isso me puxa. Eu abro os olhos devagar, e meu reflexo me encara no verniz escuro do piano olhos verdes demais, vivos demais para alguém como eu. — Amanhã… murmuro para mim mesmo. — Vou descobrir o que ela tem. Mas a música que retorna aos meus dedos não é mais sombria como antes. Ela é inquieta. Curiosa. Perigosa. Como se minha alma que eu já nem sabia se possuía tivesse despertado por um único perfume que não deveria me afetar. E isso, mais do que tudo, me deixa… intrigado.
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