capítulo 19. conhecendo o peter

1064 Palavras
Na manhã seguinte, acordo com a mesma melodia melancólica que ouvi na noite anterior. Peter. A música dele atravessa as paredes como uma névoa fria, mas… não é desagradável. Parece uma mão gelada tocando meu ombro enquanto eu ainda estou metade sonhando. Abro os olhos devagar, pego o celular. Tenho uma hora antes de ir para a faculdade. — Ok, Ravena… acorda, vive, respira murmuro para mim mesma, me espreguiçando. Vou me levantar quando o celular vibra e toca alto. Luna. Atendo. — Alô? — Oi, Ravena… a voz dela vem tristonha, dramática, claramente fingida. — Se esqueceu de mim, né? Eu rio baixinho, ainda com sono. — Não me esqueci, só dormi demais. E você, como está? — Solitária… abandonada… jogada ao relento… ela faz uma pausa dramática. — Enfim! Me conta dos moradores da mansão! Você já viu eles? São bonitos? Estranhos? Perigosos? Quero detalhes. Reviro os olhos, mas sorrio. — A menina que vou cuidar parece uma princesa, mas tem um jeito estranho. Ela vive agarrada num ursinho que parece amaldiçoado. E… também conheci outro irmão. Não só o Nicolas. Luna dá um gritinho. — MEU DEUS, CONTA! Ele é bonito como o Nicolas? Fala!! Agora!! RAVE, FALA LOGO! — Nossa. Você está muito curiosa. Só me chama de Rave quando a fofoca te consome por dentro. — E adivinha? Está me consumindo! Então desembucha! Respiro fundo, dramatizando de propósito. — Sim. Ele é bonito. Silêncio do outro lado. O tipo de silêncio que significa que Luna está abrindo um sorriso enorme. — Continua. ela ordena. — Ele é completamente diferente do Nicolas. É loiro, olhos azuis, mas igualmente… intenso. Do tipo que te olha como se já soubesse todos os seus pecados. E é provocador. Muito provocador. — QUE SORTE, MINHA FILHA! Luna quase grita. — Você está morando numa casa com TRÊS GATOS GOSTOSOS e ainda é paga pra isso! Eu aqui, sozinha, largada, triste De repente, um som aparece do lado dela. Um barulho de porta, talvez. Eu sorrio maliciosa. — Sozinha, né? Então quem fez esse barulho aí atrás? Luna se engasga. — Ah. É… o vento. — Aham. — Você é o assunto aqui, não eu. ela rebate, rindo. Eu rio também, mas olho para a porta do meu quarto, meio inquieta. A música do Peter ainda continua, do mesmo jeito, melancólica. Como se fosse um convite. — Bom, Luna… eu preciso tomar banho e descer pra tomar café antes da faculdade. À tarde, depois de cuidar da Laila… se eu sobreviver àquele ursinho dela… eu te ligo. — Sobreviver? Credo, Ravena. Olho aberto nessa casa. Luna avisa, meio brincando, meio séria. — Tchau, Luna. — Tchau, Rave. Se cuida. E se ver outro irmão bonito… foto! ela ainda consegue gritar antes da ligação cair. Desligo o celular, suspiro e encaro meu reflexo no espelho. A música continua. E, pela janela, a floresta parece me observar de volta. Depois de fazer minha higiene e respirar fundo umas três vezes porque, sinceramente, essa casa parece drenar minha coragem aos poucos eu me visto, prendo parte do cabelo e desço as escadas. Os degraus rangem levemente sob meus pés, e o ar da mansão carrega aquele cheiro antigo que mistura madeira, poesia e um toque de… algo que não entendo. Quando chego ao térreo, vejo os três. Nicolas, Draco… E Laila sentada no tapete abraçada ao ursinho demoníaco. Mas é o quarto rapaz que faz meu coração parar. Parar, derreter e depois disparar tão rápido que acho que todos ali conseguem ouvir. Ele está encostado na grande estante, com um livro de poesia aberto o próprio livro cobrindo metade do rosto. Só consigo ver a boca e o queixo, perfeitos demais para serem reais. A roupa dele é escura, marcada no peito por um crânio prateado estilizado. A camiseta ajustada destaca cada linha do corpo tão forte quanto o de Draco, mas mais… silencioso, mais contido, como alguém que guarda mundos inteiros dentro de si. O cabelo é preto com tons azulados que brilham na luz da manhã, caindo um pouco sobre a testa. Ele não me olha. Não ainda. E talvez seja por isso que fico ainda mais tensa. Cada parte de mim sente que, quando ele olhar… eu vou desmoronar. Nicolas abre um sorriso quando me vê. — Bom dia, Ravena. Draco sorri também, daquele jeito presunçoso de sempre. — Bom dia, coisinha bonita. Reviro os olhos, mas não respondo. Minha atenção… está presa nele. No rapaz com o livro. Peter. Eu sei que é ele. Meu corpo sabe antes da minha mente. Aquele som melancólico da noite passada parecia vir exatamente desse tipo de alma: quebrada, profunda, antiga demais para alguém que parece ter pouco mais de vinte e poucos anos. Laila me olha rapidamente, abraçando mais forte o ursinho de olhos costurados. Como se tivesse percebido que algo mudou no ar. E realmente mudou. Porque então… O livro se abaixa. Devagar. E quando ele finalmente ergue os olhos para mim, sinto um choque. Olhos verdes. Verdes intensos, profundos, dolorosos. Como se carregassem todas as tristezas do mundo. É como se ele me atravessasse sem pedir permissão. Eu prendo a respiração. Meu peito dói. Sinto que ele vê tudo: minha solidão, minha ansiedade, minhas cicatrizes escondidas… como se estivesse lendo uma poesia escrita dentro de mim. Ele não diz nada. Apenas me olha. E eu sinto minhas pernas quase falharem. Nicolas se aproxima de mim e fala num tom suave: — Ravena… este é o Peter. Meu coração praticamente responde eu sei. Peter desvia o olhar por um segundo… mas volta a me encarar como se tentasse decifrar algo que só ele sente. Finalmente, ele fala a voz baixa, grave, tão triste que parece uma música: — Você acordou com a minha melodia. Eu engulo seco. — S-sim… respondo, tentando parecer calma. — É muito bonita. Ele fecha o livro devagar, sem quebrar o contato visual. — Bonita… mas triste ele murmura. — É assim que a maioria descreve. E então ele dá um sorriso pequeno, quase imperceptível. Um sorriso que não alcança os olhos… mas que faz algo dentro de mim estremecer. Draco resmunga: — Lá vai o poeta dramático de novo… Mas Peter não tira os olhos de mim. E eu não consigo respirar direito. Porque pela primeira vez desde que cheguei ao Vale das Sombras… Sinto que alguém me enxerga. De verdade.
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