Na manhã seguinte, acordo com a mesma melodia melancólica que ouvi na noite anterior.
Peter.
A música dele atravessa as paredes como uma névoa fria, mas… não é desagradável. Parece uma mão gelada tocando meu ombro enquanto eu ainda estou metade sonhando. Abro os olhos devagar, pego o celular. Tenho uma hora antes de ir para a faculdade.
— Ok, Ravena… acorda, vive, respira murmuro para mim mesma, me espreguiçando.
Vou me levantar quando o celular vibra e toca alto.
Luna.
Atendo.
— Alô?
— Oi, Ravena…
a voz dela vem tristonha, dramática, claramente fingida.
— Se esqueceu de mim, né?
Eu rio baixinho, ainda com sono.
— Não me esqueci, só dormi demais. E você, como está?
— Solitária… abandonada… jogada ao relento…
ela faz uma pausa dramática.
— Enfim! Me conta dos moradores da mansão! Você já viu eles? São bonitos? Estranhos? Perigosos? Quero detalhes.
Reviro os olhos, mas sorrio.
— A menina que vou cuidar parece uma princesa, mas tem um jeito estranho. Ela vive agarrada num ursinho que parece amaldiçoado. E… também conheci outro irmão. Não só o Nicolas.
Luna dá um gritinho.
— MEU DEUS, CONTA! Ele é bonito como o Nicolas? Fala!! Agora!! RAVE, FALA LOGO!
— Nossa. Você está muito curiosa. Só me chama de Rave quando a fofoca te consome por dentro.
— E adivinha? Está me consumindo! Então desembucha!
Respiro fundo, dramatizando de propósito.
— Sim. Ele é bonito.
Silêncio do outro lado. O tipo de silêncio que significa que Luna está abrindo um sorriso enorme.
— Continua.
ela ordena.
— Ele é completamente diferente do Nicolas. É loiro, olhos azuis, mas igualmente… intenso. Do tipo que te olha como se já soubesse todos os seus pecados. E é provocador. Muito provocador.
— QUE SORTE, MINHA FILHA!
Luna quase grita.
— Você está morando numa casa com TRÊS GATOS GOSTOSOS e ainda é paga pra isso! Eu aqui, sozinha, largada, triste
De repente, um som aparece do lado dela. Um barulho de porta, talvez.
Eu sorrio maliciosa.
— Sozinha, né? Então quem fez esse barulho aí atrás?
Luna se engasga.
— Ah. É… o vento.
— Aham.
— Você é o assunto aqui, não eu. ela rebate, rindo.
Eu rio também, mas olho para a porta do meu quarto, meio inquieta. A música do Peter ainda continua, do mesmo jeito, melancólica. Como se fosse um convite.
— Bom, Luna… eu preciso tomar banho e descer pra tomar café antes da faculdade. À tarde, depois de cuidar da Laila… se eu sobreviver àquele ursinho dela… eu te ligo.
— Sobreviver? Credo, Ravena. Olho aberto nessa casa.
Luna avisa, meio brincando, meio séria.
— Tchau, Luna.
— Tchau, Rave. Se cuida. E se ver outro irmão bonito… foto!
ela ainda consegue gritar antes da ligação cair.
Desligo o celular, suspiro e encaro meu reflexo no espelho.
A música continua.
E, pela janela, a floresta parece me observar de volta.
Depois de fazer minha higiene e respirar fundo umas três vezes porque, sinceramente, essa casa parece drenar minha coragem aos poucos eu me visto, prendo parte do cabelo e desço as escadas.
Os degraus rangem levemente sob meus pés, e o ar da mansão carrega aquele cheiro antigo que mistura madeira, poesia e um toque de… algo que não entendo.
Quando chego ao térreo, vejo os três.
Nicolas, Draco…
E Laila sentada no tapete abraçada ao ursinho demoníaco.
Mas é o quarto rapaz que faz meu coração parar.
Parar, derreter e depois disparar tão rápido que acho que todos ali conseguem ouvir.
Ele está encostado na grande estante, com um livro de poesia aberto o próprio livro cobrindo metade do rosto. Só consigo ver a boca e o queixo, perfeitos demais para serem reais.
A roupa dele é escura, marcada no peito por um crânio prateado estilizado. A camiseta ajustada destaca cada linha do corpo tão forte quanto o de Draco, mas mais… silencioso, mais contido, como alguém que guarda mundos inteiros dentro de si.
O cabelo é preto com tons azulados que brilham na luz da manhã, caindo um pouco sobre a testa.
Ele não me olha.
Não ainda.
E talvez seja por isso que fico ainda mais tensa. Cada parte de mim sente que, quando ele olhar… eu vou desmoronar.
Nicolas abre um sorriso quando me vê.
— Bom dia, Ravena.
Draco sorri também, daquele jeito presunçoso de sempre.
— Bom dia, coisinha bonita.
Reviro os olhos, mas não respondo. Minha atenção… está presa nele.
No rapaz com o livro.
Peter.
Eu sei que é ele. Meu corpo sabe antes da minha mente. Aquele som melancólico da noite passada parecia vir exatamente desse tipo de alma: quebrada, profunda, antiga demais para alguém que parece ter pouco mais de vinte e poucos anos.
Laila me olha rapidamente, abraçando mais forte o ursinho de olhos costurados. Como se tivesse percebido que algo mudou no ar. E realmente mudou.
Porque então…
O livro se abaixa.
Devagar.
E quando ele finalmente ergue os olhos para mim, sinto um choque.
Olhos verdes.
Verdes intensos, profundos, dolorosos.
Como se carregassem todas as tristezas do mundo.
É como se ele me atravessasse sem pedir permissão.
Eu prendo a respiração.
Meu peito dói.
Sinto que ele vê tudo: minha solidão, minha ansiedade, minhas cicatrizes escondidas… como se estivesse lendo uma poesia escrita dentro de mim.
Ele não diz nada.
Apenas me olha.
E eu sinto minhas pernas quase falharem.
Nicolas se aproxima de mim e fala num tom suave:
— Ravena… este é o Peter.
Meu coração praticamente responde eu sei.
Peter desvia o olhar por um segundo… mas volta a me encarar como se tentasse decifrar algo que só ele sente.
Finalmente, ele fala a voz baixa, grave, tão triste que parece uma música:
— Você acordou com a minha melodia.
Eu engulo seco.
— S-sim…
respondo, tentando parecer calma. — É muito bonita.
Ele fecha o livro devagar, sem quebrar o contato visual.
— Bonita… mas triste
ele murmura.
— É assim que a maioria descreve.
E então ele dá um sorriso pequeno, quase imperceptível. Um sorriso que não alcança os olhos… mas que faz algo dentro de mim estremecer.
Draco resmunga:
— Lá vai o poeta dramático de novo…
Mas Peter não tira os olhos de mim.
E eu não consigo respirar direito.
Porque pela primeira vez desde que cheguei ao Vale das Sombras…
Sinto que alguém me enxerga.
De verdade.