capítulo 17. melodia triste

744 Palavras
Eu sigo o Nicolas pelos corredores silenciosos da mansão, mas sinto nitidamente os olhos de Draco queimando nas minhas costas. É como se ele me analisasse, me medisse, como se estivesse tentando descobrir onde exatamente eu sou… frágil. Não olho para trás, mas a sensação é tão forte que arrepia até a minha nuca. — Tome cuidado com o meu irmão, Draco. Ele… Nicolas começa, mas não termina. Só lança um suspiro pesado e acelera o passo. Ótimo. Sempre muito encorajador quando as pessoas param a frase antes da parte assustadora. Entramos em outra sala e, logo no centro do tapete, vejo uma garotinha de uns seis anos. Mas não é ela que me deixa tensa é o urso. Um urso de pelúcia do inferno. Ele está sentado ao lado dela, com dois botões diferentes no lugar dos olhos, costurados de forma torta, e a boca… costurada com um fio preto tão grosso que me dá um arrepio. Eu definitivamente vou ter pesadelos com isso hoje à noite. Os cabelos rosas longos da garota caem como um véu brilhante sobre os ombros, e seu vestido rodado parece de uma pequena princesa. Mas o contraste com aquela criatura demoníaca de pelúcia torna tudo ainda mais estranho. Nicolas sorri. — Laila, essa é a Ravena. Sua nova babá. Ela levanta a cabeça devagar, me encara com uma calma sobrenatural e… sorri. Um sorriso pequeno, comportado. Depois abaixa de novo e continua apertando o urso monstruoso como se fosse a coisa mais fofa do mundo. — Oi, Laila digo, tentando parecer simpática. Nada. Nenhuma palavra. Nossa, Ravena, ótimo começo. Parabéns. Você assusta até crianças com cabelo cor-de-rosa. Nicolas ri baixinho, percebendo meu desespero silencioso. — Ela é um pouco difícil no começo diz, me olhando com aquela expressão, metade consolo, metade “boa sorte, você vai precisar”. — Mas quando ela se acostumar com você, eu sei que vocês vão se dar muito bem. Dou um sorriso fraco, mas a verdade é que a forma como ela me olhou parecia que estava imaginando como arrancar minha alma com os dentes. E o ursinho… meu Deus. Aquele ursinho vai aparecer no fundo do meu quarto às três da manhã, eu sei. E claro, enquanto penso nisso, sinto outra vez o peso do olhar de Draco entrando na sala. Excelente. Um irmão perigoso, uma criança silenciosa e um urso assassino. Parabéns, Ravena, seja bem-vinda ao emprego dos sonhos.... É quando, lá de cima, uma melodia começa a se derramar pela mansão. Não é apenas música. É… um lamento. Notas longas, doloridas, como se alguém estivesse tocando o próprio coração partido. Melancólica, profunda, quase sufocante… mas ao mesmo tempo tão linda que me puxa para cima sem pedir permissão. Como um canto de sereia que não engana apenas convida, gentil e fatal. Sinto a pele arrepiar. A sala, a criança, o ursinho horrível, Draco… tudo desaparece. Só existe aquele som chamando por mim. — Quem toca essa música tão tristonha? pergunto, sem perceber que minha voz saiu abafada, quase hipnotizada. Nicolas suspira ao meu lado. — É o Peter. O meu irmão que você ainda não conheceu. Ele fala baixo, com uma tristeza que não combina com o tamanho daquele homem. — Ele é o mais triste de nós. O mais triste. A música confirma. É dor transformada em arte. Um eco de alguém que talvez não saiba mais como existir sem sofrer. — Mas logo você vai conhecer ele Nicolas continua. — Por hoje, você deve estar cansada. Pode descansar. Amanhã será muita coisa para você. Eu apenas aceno. Porque, para ser sincera, minha mente ainda está presa naquelas notas. Subo para o corredor do meu quarto, mas quando chego à porta… paro. Draco está encostado ali. Braços cruzados. Sobre de peito. E a luz suave do corredor acentua cada detalhe do corpo dele, cada músculo sob aquele casaco branco agora parcialmente aberto. Ele não está tentando ser discreto Draco sabe exatamente o efeito que causa. Os cabelos loiros bagunçados caem sobre a testa, e o brinco na orelha direita brilha como uma ameaça. Ele me olha de cima a baixo, devagar, como se estivesse avaliando uma presa nova. Ou um brinquedo novo. — Parece perdida, docinho ele diz, num tom arrastado, provocante, perigoso. Seu sorriso inclina só de um lado. E eu não sei se estou cansada, confusa… ou se esse sorriso me dá calor demais. Atrás de nós, bem distante, a música de Peter continua.
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