CAPÍTULO 23 — LINHAS CRUZADAS Larissa A luz amarela da luminária piscava fraca, jogando sombras compridas sobre a pilha de cadernos. Já passava das oito e meia da noite. Costas ardendo, vista pesada de tanto número miúdo e a mente pedindo arrego, mas eu mantinha a cabeça abaixada, mordendo o lábio enquanto passava tudo pra folha limpa. Cheiro de fumo misturado com perfume amadeirado dele preenchia a sala pequena. Rafael não tinha saído desde que cheguei às sete, descendo direto da confecção. De vez em quando ouvia o metal da pistola que ele limpava, de vez em quando só o tec tec da minha calculadora. — Tem erro aqui — soltei de repente, apontando com a caneta pra linha borrada do segundo caderno. Rafael parou na hora. Cotovelos na mesa, mãos cruzadas, sobrancelha arqueada. Rafael: —

