capítulo 24

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CAPÍTULO 24 — O CANSAÇO E O ASFALTO Larissa O som seco da porta do escritório batendo atrás de mim foi o único alívio que eu senti em horas. Era quase dez da noite e o morro já tinha mudado de som. Não era mais o barulho de comércio fechando, era moto subindo e descendo, funk abafado, cachorro latindo longe. Rafael nem levantou a cabeça quando eu peguei minha bolsa. Rafael: — Leão. Leva. Duas palavras. Seco. Ordem. Eu abri a boca pra dizer que descia sozinha, que sempre desci, mas minhas pernas pesavam o dobro do que pesavam quando subi mais cedo às sete. A coluna travada pela rotina pesada na confecção agora somava as horas encolhida em cima de recibos de biqueira, contas rasuradas e anotações do tráfico. Leão já tava na porta com a moto ligada e um capacete na mão. Leão: — Bora, contadora. Ordem do patrão é não deixar o caixa dele descer sozinha no escuro. Eu quis bater boca. Caixa dele. Sempre "o que é meu". Mas eu tava cansada demais até pra brigar. Subi na garupa. A cada curva na terra batida, a raiva vinha misturada com um gosto amargo de impotência. Eu estava presa em uma engrenagem que não escolhi montar, refém das burrices da minha irmã Bia e da marra de um bandido que parecia se divertir me testando no limite. O vento frio da madrugada de São Paulo batia em cheio no meu rosto suado, mas o ar fresco parecia longe de oxigenar a minha cabeça. O farol da moto iluminou meu portão de zinco. Desci rápido. Quando empurrei o portão e entrei em casa, a cena me apertou o peito de novo. A sala estava escura, iluminada apenas pela luz azulada da televisão ligada no mudo. Minha mãe dormia encolhida no sofá, com um xadrez velho cobrindo as pernas e o rosto marcado pelo cansaço e pelas lágrimas guardadas. A medicação dela estava em cima da mesinha de centro, junto com um copo d'água pela metade. Aproximei-me devagar, ajeitei o cobertor sobre os ombros dela com todo o cuidado para não acordá-la e deixei um beijo leve em sua testa fria. Ela suspirou baixinho no sono, com a respiração ainda meio curta. — Desculpa, mãe... — sussurrei para mim mesma, engolindo o bolo que se formou na minha garganta. — Eu vou dar um jeito nisso. Nem que eu tenha que vender a minha alma para aquele desgraçado. Fui para o meu quartinho dos fundos, tirei o tênis enlameado e me joguei na cama sem nem ter forças para trocar de roupa. Só quando fui tirar o moletom - o moletom dele que eu ainda tava usando desde a madrugada do primeiro dia - que algo caiu do bolso. Uma notinha amassada, letra dele, garrancho rápido: Comeu metade hoje. Amanhã come tudo. Se não comer, eu subo lá no Bom Retiro buscar você na hora do almoço. R. Meu coração disparou. Ele sabia até quanto eu tinha deixado no marmitex. Fechei os olhos, mas a imagem do escritório escuro e o rosto do Rafael colado no meu, com aquele sorriso de deboche, não saíam da minha cabeça. Eu sabia que o dia seguinte seria exatamente igual. Mais costura no Bom Retiro, mais cobrança de biqueira à noite, e mais um round com o dono do morro. Mas, pela primeira vez, enquanto a exaustão me puxava para o fundo do sono, eu percebi uma coisa que me assustava mais do que a dívida: eu estava começando a me acostumar com o perigo. E com quem mandava nele. --- NOTA DA AUTORA: Meu amores, segura o coração porque a Larissa tá achando que se acostumou, mas o Rafael ainda nem começou a mostrar o lado possessivo dele de verdade! 😏 Vocês acham que ele vai mesmo subir no Bom Retiro se ela não comer a quentinha toda? E esse bilhete... cuidado ou controle? Me contem aqui nos comentários o que vocês fariam no lugar dela e não esquece de deixar o LIKE e a MOEDINHA pra liberar o próximo capítulo mais cedo! O 25 tá BABADO, a confecção inteira vai descobrir quem manda a quentinha! 💋
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