CAPÍTULO 6 — ENTRE LINHAS E DÍVIDAS
Eu sempre encontrei refúgio no peso do trabalho honesto. Pode parecer contrassenso para quem vê de fora, especialmente quando o alarme estridente do celular começa a tocar antes mesmo de o sol conseguir rasgar a névoa fria da cidade, com o corpo ainda moído do cansaço do dia anterior. Mas a verdade é que eu gosto de trabalhar. Gosto da sensação limpa de receber um pagamento pelo qual deixei o suor do meu rosto, de não precisar baixar a cabeça para ninguém e de não dever favor a homem algum neste mundo.
A confecção no Bom Retiro já estava naquele ritmo alucinante de toda quarta-feira. O vaivém apressado de carretas descarregando fardos pesados, as buzinas histéricas no asfalto molhado, o vapor quente subindo das caldeiras e aquele cheiro inconfundível de tecido sintético novo misturado com café requentado de garrafa térmica.
Bati meu cartão no relógio de ponto da entrada com um clique mecânico que me deu um respiro breve. Por um instante, eu era só uma cidadã comum, invisível no meio da multidão de operárias.
Meu celular vibrou no bolso traseiro da calça jeans. Puxei o aparelho para checar a tela trincada. Duas mensagens da Manu:
> Cheguei viva no barraco depois da bronca da velha do cachorro. Sobrevivi.
> A vizinha perguntou se você vai subir a laje hoje. Parece que já inventaram mais duas versões da minha humilhação na padaria. Não se atrase pro asfalto.
>
Dei uma risada fraca, guardando o aparelho enquanto amarrava o avental de brim escuro na cintura.
— Até que enfim a operária padrão deu as caras! — a voz zombeteira da Carla ecoou perto do bebedouro industrial. Ela segurava uma caneca de louça lascada cheia de café puro e me media com os olhos semicerrados. — Achei que ia me deixar na mão com os lotes de viscose.
— Eu bati o cartão exatamente dois minutos antes do apito, Carla — retruquei, ajeitando a cadeira de madeira gasta em frente à minha mesa de overloque. — Isso se chama pontualidade britânica.
— Isso se chama atraso para os meus padrões de desespero — ela deu um gole longo no café amargo, rindo. — Você é exigente demais com horário, Larissa. Devia relaxar, gastar um pouco com você mesma.
— Se eu gastar o que não tenho, a conta de luz não espera — respondi, puxando os primeiros metros de tecido sob a agulha de aço. — Quem gasta por impulso aqui é você.
— Eu não gasto por impulso, querida — ela empinou o queixo, fingindo uma superioridade cômica. — Eu chamo isso de investimento emocional em sapatos e maquiagem. A alma agradece, mesmo que o bolso chore.
A Júlia, que costurava na bancada vizinha, esticou o pescoço por cima de uma pilha de moldes de papel pardo e murmurou num tom de alerta velado:
— Parem de fofocar, meninas. O homem do bafo de leão tá vindo no corredor.
Passos pesados e arrastados no piso de cimento queimado anunciaram a chegada da gerência. Seu Alberto caminhava entre as fileiras de máquinas com a prancheta de metal debaixo do braço e a mesma cara amarrada de sempre. Ele parecia ter nascido de mau humor e com ódio mortal da humanidade.
— Menos conversa e mais produção nessas agulhas! — ele bateu a caneta contra a madeira de uma das mesas. — O lote da loja de departamentos tem que descer para a expedição antes das cinco da tarde. Não quero ninguém enrolando no pedal!
Nós três engolimos seco e baixamos as cabeças de imediato.
O motor elétrico da minha máquina zumbiu quando apertei o pedal com a ponta do tênis. A agulha começou a descer em alta velocidade, perfurando a malha escura num ritmo compassado, perfeito, hipnótico. Por alguns minutos preciosos, o mundo pareceu voltar aos trilhos da normalidade. Ali, entre as bobinas de linha, a tesoura de arremate e a pressão do tecido sob os meus dedos calejados, eu conseguia fingir que a minha realidade era simples. Eu tinha um emprego com carteira assinada, um salário no fim do mês, uma rotina honesta para defender. Problemas de gente normal, que se resolvem com trabalho duro e paciência.
Até a imagem da Bia desabar na minha mente feito uma marreta.
Minha irmã jogada contra o muro chapiscado da viela. O cano da pistola preta do vapor despontando sob a camisa. E aquele número maldito, grotesco, ecoando na minha cabeça com o peso de uma lápide: oitenta mil reais.
Meu pé vacilou no pedal de metal. A velocidade caiu abruptamente até o motor engasgar e parar de vez. O silêncio repentino na minha bancada destoou da sinfonia mecânica ao redor.
A Carla virou o rosto para mim na mesma hora, os olhos atentos:
— Lari? Você tá pálida... Aconteceu alguma coisa? Tá sentindo dor?
— Não... — engoli a saliva amarga que travava a minha garganta, tentando forçar um meio sorriso. — Eu tô bem, Carla. Só uma tontura boba. Não tomei café direito antes de descer o morro.
— Você faz uma cara horrível quando tenta mentir, amiga — ela me fitou com desconfiança, mas o barulho da fábrica a forçou a voltar os olhos para a própria costura.
Respirei fundo, sentindo o ar quente do galpão queimar no peito. Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar. Não podia trazer o submundo imundo do tráfico para o único lugar limpo que ainda me restava no asfalto. Um pequeno desvio na mão e a navalha da máquina cortaria o tecido no lugar errado, estragando a peça inteira. Minha mãe sempre me dizia que a costura exige paciência divina; para mim, aquilo era sobrevivência pura.
Cerca de uma hora depois, uma sombra parou do lado da minha mesa.
Ergui os olhos devagar, esperando uma bronca, mas dei de cara com o Seu Alberto segurando a primeira camisa que eu tinha acabado de montar. Ele virou a gola de um lado para o outro, puxou o acabamento das mangas, testou a elasticidade dos pontos e franziu o cenho com uma expressão quase de espanto.
— Essa peça aqui... — o velho pigarreou grosso, parecendo relutar em admitir. — O corte tá impecável. A costura reta, sem um único fio solto. Tá perfeita, Larissa. Se o restante do lote sair com esse padrão, a gente bate a meta com folga. Continue assim.
A Carla e a Júlia arregalaram os olhos da bancada ao lado com os queixos caídos. Seu Alberto tecer um elogio para qualquer funcionária era um evento tão raro quanto ver neve caindo na favela.
— Alguém anota essa data no calendário da parede, pelo amor de Deus — a Carla sussurrou de canto de boca, me fazendo morder os lábios para não gargalhar alto.
Pela primeira vez naquela manhã cinzenta, a sombra da dívida afrouxou o aperto no meu estômago. Eu me senti útil. Me senti viva como mulher trabalhadora.
Mas o alívio civil durou pouco.
Ao meio-dia, quando descemos para comer a marmita de arroz com ovo na copa abafada, a conversa voltou a cair na rotina da juventude do morro.
— Você vai descer pro bailinho hoje à noite, Lari? — a Carla perguntou, ajeitando o garfo de plástico. — Disseram que o paredão da DZ7 vai tocar funk antigo. Vai estar o fervo.
Apertei o meu garfo contra o fundo da vasilha de plástico. Um riso sem humor rasgou a minha boca.
— Eu não tenho tempo para baile, Carla. Eu tenho que sobreviver... e juntar oitenta mil reais em menos de um mês.
As palavras escaparam baixas demais, num murmúrio quase inconsciente, mas o número era pesado demais para passar batido no silêncio da mesa.
A Carla parou com o garfo no ar, a testa franzida em choque genuíno:
— O quê?! Oitenta mil do quê, Larissa? Ficou louca?!
— Nada... Esquece — desconversei rápido, me levantando da mesa antes que as perguntas me encurralassem contra a parede. — Foi só uma conta absurda que a Bia arrumou lá em casa. Coisa nossa.
O restante do turno passou arrastado, sob o peso esmagador daquela realidade. Quando o apito das cinco horas finalmente soou, liberando o salão, bati o cartão e peguei o caminho de volta para a quebrada. A cada passo que eu dava no asfalto, com as sapatilhas gastas martelando a calçada e as pernas tremendo de exaustão, a matemática c***l da minha vida se montava na minha frente sem nenhuma piedade:
* Meu salário líquido na confecção: mil e oitocentos reais.
* Se eu não comprasse um pão, se deixasse a conta de água cortar, se a minha família vivesse de luz... em trinta dias de trabalho escravo eu juntaria exatamente mil e oitocentos reais.
* Restavam setenta e oito mil e duzentos reais de dívida viva.
Era uma piada de mau gosto. Impossível. Não existia hora extra no mundo capaz de pagar a mercadoria que uma irmã viciada perdeu na divisa da facção rival.
Quando finalmente dobrei a esquina que dava acesso à viela do meu barraco, esperando poder pelo menos tirar o avental e lavar o rosto com água fria, o sangue sumiu das minhas bochechas de uma vez.
Dois soldados da boca de fumo estavam plantados na porta de ferro da minha casa. Bermudas largas, bonés pretos e fuzis pesados cruzados no peito sem nenhum pudor de esconder a presença armada no meio da viela estreita.
Os vizinhos passavam com as cabeças baixas, fingindo que não viam nada.
Assim que me aproximei, um deles deu um passo à frente, bloqueando a minha passagem para a porta. O sorriso dele era de pura zombaria:
— O patrão mandou buscar a costureira do asfalto — ele falou grosso, os olhos me medindo de cima a baixo. — Você tem que fechar a contabilidade da laje hoje. A ordem dele foi bem clara: todo santo dia depois que descer da fábrica. De dia bate ponto na confecção... de noite é a contadora particular da boca dele. Minha e de mais ninguém. Foi o papo que ele mandou te passar.
O meu estômago despencou até o fundo dos meus sapatos. Pela manhã, no conforto da máquina de costura, eu tinha jurado para mim mesma que manteria distância daquele homem, que aquilo seria apenas uma transação fria. Mas a ilusão evaporou no ar frio da tarde.
Eu tinha assinado uma sentença sem papel. Trinta dias de posse absoluta. E hoje era apenas o maldito segundo dia.
— Eu só preciso trocar de roupa... — tentei argumentar, a voz falhando no pavor.
— Vai do jeito que tá, gatinha — o outro soldado retrucou, destravando o rádio da cintura. — O homem não gosta de esperar.
Subi a favela escoltada pelos dois homens armados, com o coração socando as minhas costelas como se quisesse fugir do meu peito. Cada morador que me via subir no meio da escolta desviava os olhos com medo e julgamento velado.
Ao cruzar a cortina de plástico grosso da sede da biqueira, o calor abafado do cômodo me atingiu em cheio. O rangido metálico do ventilador velho girando no teto, o cheiro sufocante de tabaco misturado com fumo e pólvora recente.
E sentado no centro de tudo, atrás da mesa de madeira bruta, estava o Rafael.
Ele usava uma camiseta preta colada aos ombros largos e o cabelo escuro cortado na navalha milimétrica. Um maço grosso de notas de cem reais repousava sob a mão dele, aberto ao lado do caderno de capa dura e de uma pistola automática engatilhada.
Assim que a cortina fechou atrás de mim, ele ergueu os olhos negros como breu.
Aquele olhar gélido desceu devagar pelo meu avental de costureira, lambeu a linha fina da minha cintura e cravou na minha boca carnuda de um jeito tão denso e possessivo que o ar da sala simplesmente desapareceu dos meus pulmões.
— Demorou demais, costureira — a voz dele saiu áspera, num tom rouco que fez cada pelo do meu corpo se arrepiar. — Achei que tu tinha pegado a primeira condução do asfalto para sumir no mundo com o dinheiro da tua irmã viciada.
Ergui o queixo, reunindo as últimas forças que me restavam no meio do pânico que me consumia:
— Eu não fujo de dívida nenhuma, Rafael.
O dono do morro me fitou por longos segundos. Então, lentamente, o canto da boca dele curvou-se naquele meio sorriso sádico e cortante que me dava calafrios até a raiz da alma. Ele empurrou a cadeira para trás e bateu a mão espalmada na lateral da mesa de madeira, bem ao lado do caderno aberto.
— Eu sei muito bem que não foge — ele murmurou, a voz caindo para um sussurro letal. — Por isso mesmo tu vai ser a minha contadora. Senta aqui. Perto de mim. E começa a contar o meu dinheiro.
Dei dois passos vacilantes para a frente e me sentei na cadeira de madeira dura, exatamente onde ele apontou. Nossos braços quase se tocavam. Puxei a primeira pilha de dinheiro com as mãos trêmulas, tentando desesperadamente ignorar o calor sufocante do corpo dele ao meu lado.
Eu estava ali porque precisava salvar a vida da Bia daqueles oitenta mil. Mas, no fundo do meu peito acelerado, uma verdade aterrorizante começava a tomar forma: mesmo tremendo de pavor, uma parte escura de mim não queria estar em nenhum outro lugar daquele morro.