capítulo 7

1624 Palavras
CAPÍTULO 7 — A FRAQUEZA DO DONO Eu não preciso anunciar quando chego. O morro sente o peso do meu passo antes mesmo de a minha sombra dobrar a esquina da principal. É só o solavanco da minha bota de couro estalar no chão batido da viela que a algazarra dos botecos morre na garganta, os moleques da contenção ajeitam o fuzil no peito e até os cachorros vira-latas saem do meio da calçada. Respeito em favela não se mendiga com conversa bonita e não se ganha em sorteio; respeito se levanta no ferro, na palavra que não faz curva e em anos mantendo essa p***a inteira de pé sem tremer a pálpebra diante de facção nenhuma. Eu construí o meu império sepultura por sepultura. Só que hoje, pela primeira vez desde que tomei a liderança da DZ7, a autoridade do morro era a última coisa que conseguia prender a minha atenção. Passei a tarde inteira com o rádio chiando na cintura, ouvindo relatório de carga, e a p***a do relógio de parede parecia travado no mesmo minuto. Eu não queria saber de conferência de asfalto. Queria que o sol despencasse de vez atrás da laje. Queria a costureira de volta no meu território. Larissa. Vinte anos, olhar verde que peita a escuridão sem pestanejar, cabelo loiro-escuro caindo solto pelas costas e uma boca cheia, desenhada com a precisão de quem foi esculpida para tirar a paz de qualquer homem são. Uma operária de confecção do Bom Retiro que achou que podia subir a boca descalça de medo e bater de frente comigo para limpar as merdas da irmã inconsequente. Ela achava que o acordo era apenas uma questão de prazo e conta no papel. Não entendeu que, a partir do momento em que aceitou o meu ultimato para virar minha contadora no turno da noite, o destino dela ficou amarrado ao meu tornozelo. Mandei dois dos meus melhores soldados descerem na viela assim que a luz do dia começou a amarelar. Ninguém encosta um dedo nela, mas ela precisava aprender desde cedo que a palavra dada aqui em cima não tem volta. A cortina de plástico pesado foi afastada com um arrasto áspero. Ela entrou. As pernas ainda sustentavam aquele tremor fino de quem sabe o veneno que escorre entre essas quatro paredes, mas o queixo dela continuava empinado, desafiando a gravidade e o meu bom senso. Veio direto da fábrica, com a mesma roupa simples com que bateu o ponto: calça jeans justa marcando as curvas sem esforço, sapatilhas gastas e a blusa fechada até a clavícula. O coque frouxo e torto deixava a nuca dela totalmente descoberta, expondo uma pele clara que contrastava com a sujeira do meu mundo. E o cheiro. Aquela p***a de cheiro de sabonete barato de mercado que grudava no ar abafado do escritório e fazia o odor de fumo e pólvora simplesmente desaparecer. — Vim contar — a voz dela saiu firme, mas a respiração curta entregava a tempestade que acontecia dentro daquele peito. Girei a cadeira devagar, batendo a palma da mão na lateral da mesa rústica, ao lado dos blocos de notas empilhados e do caderno de balanço aberto. — Senta aqui — ordenei num tom rasgado, sem desviar os olhos da figura dela. — As biqueiras da baixada fecharam o recolhimento faz uma hora. Separa por lote, confere os valores e joga a soma na linha final. Se errar uma vírgula, tu refaz a página inteira. Ela puxou a cadeira de madeira devagar, acomodou a bolsa gasta no chão de cimento e apoiou as duas mãos na mesa. Começou a manusear as cédulas com a agilidade automática de quem passa o dia manipulando tecido, mas os dedos finos tremiam tanto contra o papel que o barulho ecoava na sala. O Leão, que estava encostado na parede descascada tragando um cigarro, soltou uma risada baixa e debochada: — Vai quebrar a contadora antes do fim da semana, Rafa. A menina parece que tá segurando uma granada sem pino. Não dei moral. Nem virei a cara para ele. Minha visão estava grudada nela. Na linha do pescoço que arrepiava de leve. Na boca carnuda que ela mordia com força toda vez que o cálculo engasgava na cabeça. No jeito como ela travava os ombros e prendia o ar nos pulmões só de me ver mover o braço em cima da madeira. Aquele cheiro limpo misturado à fraqueza que ela tentava esconder era tentação demais para um lugar tão fechado. Empurrei a minha cadeira para trás sem fazer barulho. Dei a volta na mesa com passos lentos, calculados, até parar bem na traseira do assento dela. A sombra do meu corpo cobriu a luz fraca da lâmpada amarela que iluminava as notas. — Calma, costureira — soltei, inclinando o tronco para a frente até que a minha boca ficasse a menos de dois dedos da orelha dela. O corpo da Larissa travou na mesma fração de segundo. A coluna estalou de tão reta, e vi nitidamente os pelos finos da nuca dela se eriçarem com o baque quente da minha respiração. Eu nunca beijo mulher nenhuma na boca. Essa é a minha cartilha desde os dezesseis anos, quando vi meu velho apodrecer por fraquejar por r**o de saia e jurei que sentimento nenhum ia me colocar de joelhos. Beijo na boca cria raiz. Beijo na boca dá i********e, enfraquece o comando e transforma homem implacável em alvo fácil. Mulher de morro para mim sempre foi coisa de uma noite, sem cobrança e com a porta aberta antes de o sol nascer. Só que ali, colado naquela garota que cheirava a inocência e me enfrentava no olhar, a p***a da minha cabeça parecia gritar para quebrar a regra e devorar aquela boca ali mesmo, na marra. A mão dela perdeu a firmeza. As cédulas escorregaram pelas pontas dos dedos e bateram desordenadas na madeira. — Eu... eu errei a conta — ela murmurou, sem coragem de virar o rosto para trás, sentindo as bochechas esquentarem num tom vermelho escuro. Apoiei a mão direita na mesa, ao lado do cotovelo dela, e me curvei um pouco mais, quase encostando os lábios na pele macia da têmpora dela. — Pois erra de novo — a minha voz saiu áspera, um rosnado baixo só para ela ouvir. — Eu gosto quando você fica nervosa. Gosto de ver essa marra de operária desmoronar na minha frente. Ela puxou o ar com força, juntou as notas com pressa e forçou a caneta contra a folha, errando o número de novo só para justificar o descompasso da respiração. Eu não sou moleque; eu sabia que ela estava fazendo de propósito para disfarçar o impacto de me ter colado no corpo dela. O Leão se desencostou da parede, batendo a cinza do cigarro no chão: — Ô Rafa. A molecada da contenção avisou que o paredão da DZ7 já começou a bater forte lá embaixo. Vai descer pro camarote hoje? Mantive os olhos cravados no rosto dela, sem me afastar um milímetro: — Hoje não, Leão. Hoje a contadora vai ficar aqui trancada comigo até fechar cada centavo dessa mesa. Mesmo que demore a madrugada inteira. A Larissa virou o rosto para cima de supetão. Os olhos verdes faiscaram. Aquele pavor que ela carregava nas primeiras horas tinha dado lugar a uma raiva quente, viva, misturada a uma eletricidade perigosa que fez a minha mandíbula ranger de tensão. — Você tá fazendo isso de propósito — ela acusou entre os dentes, a respiração batendo no meu queixo. Aproximei meu rosto da boca dela até que o espaço entre nós não passasse de uma ilusão. O cheiro dela me entorpecia. — Tô fazendo de propósito sim — admiti, sem pestanejar, encarando o desenho dos lábios dela com uma vontade visceral que nunca tive por ninguém. — Com o que você ganha na fábrica, não cobre nem a poeira do prejuízo que caiu no meu colo. Então você vai pagar com a sua presença. Todo santo dia. Aqui comigo. Sendo minha. Ela não levantou. Não tentou correr como fez no primeiro dia. Sustentou o meu olhar com uma dignidade ferrenha, engolindo a seco a sentença que eu tinha acabado de ditar. A madrugada correu pesada, silenciosa, até o último lote ser conferido e o caderno fechado. Quando destranquei a porta e mandei a escolta acompanhar ela de volta até a viela, fiquei encostado no parapeito de cimento da laje, vendo a silhueta miúda dela descer a ladeira na penumbra. O Leão parou ao meu lado, com os braços cruzados sobre o peito: — Você tá pensando nela, Rafa. Virei a cara devagar, fechando a expressão: — Em quem, p***a? — Não se faz de desentendido — o Leão soltou um meio sorriso cínico, me olhando de canto. — Desde a hora em que a costureira colocou o pé fora dessa sala, você ficou aéreo. Nem conferiu a rota das motos da divisa. Fiquei mudo. Porque mentir para o meu braço direito seria tentar enganar a mim mesmo. Eu sou o dono desse morro. Domino soldados armados, controlo a circulação de milhares de reais, imponho o limite do sangue e decido quem respira na quebrada. Mas pela primeira vez na vida, eu não estava conseguindo controlar a vontade doentia de jogar todas as minhas regras no lixo por causa de uma garota de fábrica que não tem onde cair morta, mas tem a audácia de me encarar como se eu fosse um homem comum. Trinta dias era o prazo que eu tinha dado. Mas enquanto eu olhava para a curva escura onde ela sumiu, o aviso ecoou na minha cabeça com a força de um decreto: quando esse prazo acabar, essa mulher não sai mais dessa favela.
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