CAPÍTULO 36 — O FIO DA NAVALHA - Rafael A garota voltou a abaixar cabeça sobre cadernos, mas ritmo da calculadora tava descompassado. Mãos dela, por mais que tentassem firmeza, tremiam de leve segurando caneta. Conhecia o tipo: orgulho lutando contra pavor, marra servindo de escudo pra não desabar na frente do inimigo. E eu adorava ver escudo dela rachando. Acendi outro cigarro, costas no couro da cadeira. Fumaça subiu grossa no ar abafado, e silêncio que se instalou não tinha nada de calmo. Era pausa antes do baque, quietude que antecede tempestade no morro. E ela sentia. Dava pra ver na nuca dela arrepiada, no moletom meu escorregando. O rádio no meu colete estalou de repente, quebrando barulho do ventilador. Leão: — Patrão, visão na pista. Tem giro de viatura estranha subindo pela

