Capítulo 5

1437 Palavras
Ana No dia seguinte, logo cedo, meu pai havia saído, pelo que a mamãe me informou, ele tomou a decisão de ajudar o rapaz do dia anterior e foi até o dono do morro tentar um acordo. Eu não sabia bem como as coisas funcionavam em um lugar como esse, comandando pelo tráfico, mas tinha fé em Deus de que tudo daria certo. Enquanto ele estava fora, perdi a conta de quantas vezes tinha me ajoelhado para pedir a Deus por um milagre. Que protegesse meu pai, para que não ocorresse outra tragédia, e sei lá, que o Senhor amolecesse o coração do dono do morro para o rapaz sair ileso dessa situação. — Filha, estou precisando de sua ajuda na cozinha. — ouvi a mamãe dizer, interrompendo minha oração. — Tudo bem, mãe, eu já vou. — Do tanto que você tem orado desde a hora que seu pai saiu, acha que Deus não já sabe o que está pedindo? Eu sabia ao que ela estava se referindo e que ela tinha razão, mas o que fazer com a aflição do meu coração, sem ter ideia do que aconteceria? Suspirei. — Sei que ele está me ouvindo, mãe. Não é mais por isso que estou orando. É mais para acalmar o meu coração do que qualquer outra coisa. — ainda ajoelhada e com as mãos entrelaçadas, respondi. — Fica em paz, filha. Se tem uma coisa da qual eu tenho certeza, é que Deus é pelos seus. — ela se aproximou, depositou um beijo em minha testa e eu meneei a cabeça em concordância, mesmo sentindo-me muito apreensiva ainda. Mamãe saiu do quarto e, sem mais saber o que dizer em oração, levantei, apoiando as mãos na cama para me impulsionar. Passei a mão no vestido para tirar o amassado devido a posição em que estava e fui até a cozinha, ao encontro da mamãe. — A água do macarrão está no fogo e o lombo está na panela de pressão. Preciso que faça a salada e o suco. Seu pai deve chegar a qualquer momento, e ele tem que se alimentar antes de sair para resolver questões da igreja. — meneei a cabeça a sua instrução e fui até a geladeira pegar tudo de que eu precisaria para fazer o que me designou. Peguei tomates, pimentões, cebolas, alface, limão, também uma faca sem serra e a tábua de cortar carne para cortar tudo em rodelas. Fui colocando dentro de uma vasilha com água, e à medida que o fazia, meu pensamento a todo instante ia até aquele rapaz. Nosso encontro, a maneira como o vi, machucado, o jeito com o qual me olhou… Eu sabia que não deveria ter esse tipo de pensamento a respeito dele, afinal, nunca poderíamos ter nada. A não ser uma amizade, e seria somente isso. Não professávamos a mesma fé e eu tinha meus princípios. Mas porque meu coração estava acelerando ao pensar nele? (...) A hora do almoço chegou e mamãe e eu já estávamos ficando preocupadas com a demora do papai. Até a fome nós perdemos. — Acho melhor sentarmos para comer, minha filha, seu pai está demorando muito. Será que aconteceu alguma coisa? — em aflição, dona Amélia disse. — Eu posso ir atrás dele… — minha voz soou um pouco acima de um sussurro, porque, para ser sincera, nem eu mesma sabia se essa era uma boa ideia. — É arriscado demais, Ana. Por mais preocupada que eu esteja com seu pai, e mesmo sendo que sua intenção é boa, não posso permitir que faça isso, filha. Acabamos de chegar aqui, não conhecemos essas pessoas. Vamos tentar nos acalmar, Deus há de cuidar dele. Respirei fundo e assenti com a cabeça em concordância ao que ela disse. Terminamos de organizar os pratos e os talheres na mesa e estávamos prestes a nos sentar para comer, quando a porta finalmente foi aberta, revelando a figura do meu pai. Ambas suspiramos aliviadas. — Então, papai, como foi lá? — foi a primeira coisa que perguntei, sem nem mesmo esperar ele respirar. — Devo admitir que foi melhor do que pensei. Eles ao menos respeitam um homem de Deus, mas não foi fácil convencê-lo a deixar o rapaz livre e vivo. — Mas o senhor conseguiu, né? Ele dividiu o olhar entre a mamãe e eu, fazendo um pequeno suspense. — Consegui, sim — soltei a respiração que nem percebi haver prendido — Mas, é claro, tive que oferecer algo em troca. — Do que exatamente estamos falando, Heraldo? — mamãe perguntou. — Dinheiro, Amélia. Esses caras estão acostumados a subornar pessoas, eles não aceitariam pouca coisa para libertar aquele rapaz. E nós não temos muito o que oferecer, a não ser dinheiro. — Não sei se essa foi uma boa ideia. E se eles quiserem mais futuramente? Sabendo que você tem dinheiro, pode até mesmo usar nossa menina para arrancar mais de nós. — nesse ponto, ela tinha razão, o que me fazia ficar dividida entre estar grata por papai ter conseguido libertar aquele rapaz e temer pelo futuro. — Fica em paz, Amélia. Deus é conosco. Nada vai acontecer. — papai disse com firmeza, mas apesar da minha fé, eu não tinha tanta certeza, levando em consideração tudo o que vi naquele lugar, quando o homem foi morto. Papai foi tomar banho, porque estava bastante calor, e nesse tempo esquentamos a comida. Ele não demorou a voltar, sentamo-nos à mesa, oramos de mãos dadas, agradecendo a Deus pela comida, e comemos. (...) No fim da tarde, eu tinha que ir para a igreja, organizar algumas coisas, antes do culto que aconteceria à noite. Enquanto eu o fazia, cantando um louvor, me assustei ao ouvir alguém batendo na porta. Ao erguer a cabeça, deparei-me com ele. Meu coração acelerou e, sem jeito, engoli em seco. Larguei tudo e caminhei até lá, abrindo a porta. — Oi, pensei que não te veria tão cedo. — falei baixinho, estava muito sem graça e nem mesmo entendia porque. — Posso entrar? — Claro. Me desculpe — senti minhas bochechas corarem e abri mais a porta para ele, lhe dando espaço para passar — O que eles fizeram com você? — questionei, notando seu estado. Ele não estava bem, além de estar sujo. — Foi você, não foi? — Assim que fechei a porta, ele perguntou. — Eu o quê? — Que conseguiu me livrar da punição… — Eu não fiz nada, só pedi ao meu pai para… — Não precisa se explicar — ele me interrompeu, sorrindo — Eu só vim te agradecer. Conheço aqueles caras, eles jamais me liberariam sem um motivo plausível. — Não precisa me agradecer, não gosto de injustiça. Não seria justo você pagar por algo que não fez. Tudo o que fez, foi me ajudar e salvar. Nada além disso. — Não, você fez muito mais. Obrigado. — ele se aproximou, segurou uma de minhas mãos e beijou o dorso, sem tirar os olhos dos meus. Meu coração acelerou como nunca antes. Senti, inclusive, minhas pernas amolecerem. — Não há de quê. — falei quase sussurrando. — Tenho que ir agora. Nos vemos por aí. — ele foi em direção a porta, e antes de sair, me deu uma última olhada. Eu nem mesmo percebi ter ficado sem respirar. O que estava acontecendo comigo? (...) As horas passaram, a noite caiu e o culto iniciou. Mas eu tinha que admitir que, pela primeira vez na vida, não prestei atenção em quase nada do que foi dito durante a pregação. Não conseguia esquecer o olhar daquele rapaz, o modo como falou comigo, seu jeito. Ele podia ser diferente do meio em que eu vivia, mesmo assim, nunca vi ou sequer imaginei que um cara como ele, envolvidos no movimento, pudesse agir assim. Sempre pensei que eles gostassem de garotas fáceis, que iam logo parar na cama deles. Mas o jeito dele era diferente, ou será que eu estava vendo coisa onde não tinha? De qualquer forma, não podia ficar pensando nisso, afinal, ainda que aquele rapaz tivesse boas intenções, meus pais nunca permitiriam que eu me envolvesse com alguém assim. Eles não era exatamente preconceituosos, pelo contrário, sempre me ensinaram a amar o próximo, especialmente através de suas atitudes, não era à toa que passamos tanto tempo fora do Brasil, mas eu era filha deles, portanto, eles queriam o melhor, e eu sabia o que ambos pensavam a respeito disso. Tudo o que eu precisava fazer era manter o foco e lembrar do motivo pelo qual voltamos para o Brasil. Assim, certamente, conseguiria esquecê-lo. Assim eu esperava…
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