8º andar

2573 Palavras
Nunca fui muito bom em planejar os acontecimentos da minha vida. Sempre quando programo algo, e tudo parece aparentemente perfeito, posso ter certeza que tudo dará errado. Naquele dia, Annie foi o meu desvio de rota (como Paul costumava dizer). Ele também era um mestre nesse tipo de função, e parece que, mesmo sem querer, Paul estragava tudo. Ele foi o nosso próprio desvio de rota no dia do acidente da boate, e desde então eu nunca mais o vi. Todos nós temos algum tipo de desvio enquanto vivemos. Talvez eu nem o encontre mais, e isso é muito pior que a morte. Eu preferia que tivessem achado o seu corpo, então assim eu poderia me despedir de Paul de uma forma decente, pela última vez. Queria poder dizer adeus. -Annie. Annie, acorda. Preciso ir pra casa! -olhei para o relógio, onde marcava quatro horas e dois minutos. -Dorme aí, Hector. Daqui a pouco amanhece. -Annie respondeu com a voz embargada, seus olhos permaneciam fechados. -p***a, Annie! Será que Summer e Emily estão dormindo? -Sim. E nós deveríamos fazer o mesmo! -ela resmungou, cobrindo-se com o cobertor rosa até a cabeça. -Annie. Annie! -eu a cutuquei em seu braço. -Onde ficam as chaves? c*****o, Annie! Eu estou sem celular! -Em cima da mesa, na cozinha. -Valeu. -disse, saltando da cama, procurando por minhas roupas em meio a escuridão. Vesti meu jeans rapidamente e saí do quarto o mais rápido possível. O apartamento parecia estar vazio. Passei pelo banheiro e em seguida achei a mesa que Annie falara. Escolhi por não acender as luzes, então procurei entre todas as tralhas que estavam sobre a mesa, no escuro. Quando toquei as chaves, o leve sorriso que havia se formado em meu rosto desapareceu segundos depois. -Quem é você? -uma mulher alta de cabelos castanhos disse, atrás de mim. Mãe de Annie. -Oi. É, ah, desculpe. Já estou indo embora. -Eu perguntei quem é você, menino. Não tem educação? -Desculpe, desculpe. Eu sou amigo da Annie. Eu já estou indo, prometo que não vai se repetir. -Fique calmo. Só quero saber seu nome. E quando vai vir jantar aqui conosco. -Como assim? -Se você e Annie acham que vão continuar namorando escondidos... Estão muito enganados! -Mas nós... Hã? -Eu já o conheço, Hector. Ela foi na sua festa de aniversário. Annie me contou de você. -Desculpe, senhora, eu... -Senhorita. -a mãe de Annie riu. -Estou solteira no momento. Me chame de Taylor, só. Sou muito nova para formalidades. -Senhorita Tay... Quer dizer, é... Taylor, eu realmente preciso ir. Podemos conversar outro dia. -disse, sem entender absolutamente nada. -Espero que tenham se protegido. -Taylor comentou. -Oi? -Nada. -ela riu, acenando um breve tchau com as mãos. -Taylor. Sabe se as meninas estão dormindo? -Meninas? Bem, você estava no quarto da Annie, então você quem sabe. E Emily está dormindo, sim. -Minha irmã, Summer. Ela está no quarto de Emily. -Sua irmã? Ah, não sei. Provavelmente foi embora, não? Sei lá, ficar esperando você e Annie... Bem, seria meio chato. Eu não esperaria. -Ela é uma criança, senhorita Tay... -disse, dando um pequeno sorriso. -Taylor. Desculpe. -Não vi nenhuma garota além da minha filha no quarto dela. -a mãe de Annie balançou a cabeça em negativo. -Preciso ir. -disse, correndo em direção a porta. Entrei no elevador com os olhos fechados, imaginando como meus pais estariam sentados na sala, com as luzes apagadas, esperando por minha chegada. Iriam me dar um susto daqueles, quem sabe. Pensei em Summer chamando por mim no quarto, e eu com os olhos fechados em um sono profundo. Eu só conseguia pensar, verdadeiramente, em todos os palavrões do mundo. d***a. Quando abri a porta do 31, para minha surpresa, não havia uma emboscada assustadora como um Poltergeist, e muito menos luzes apagadas e trilha sonora assustadora. Só havia o meu pai, com uma blusa social com os botões abertos, sentado no sofá, bebendo um Whisky r**m. Ele não se virou até eu chegar ao seu lado, o que achei bem estranho. Ele deveria estar muito bravo. Pelo menos um pai normal estaria. -Pensei que só viria de manhã. -ele murmurou quando sentei-me ao seu lado. -Pai, desculpe. Eu não deveria. Eu sei que fui irresponsável. Muito. -Sua irmã estava chorando, sabia? Ela voltou para cá, de madrugada, sozinha. -ele disse, começando a rir. Percebi que estava bêbado. -Ela disse que você descumpriu uma promessa. -Promessa? -repeti. -É. Algo como... Espere, eu consigo me lembrar. Ah! Lembrei. Você disse que nunca mais a abandonaria. Depois que ela fugiu no dia em que seu irmão foi levado à reclusão. Eu havia errado mais uma vez. Mesmo que sem querer, não deveria ter acontecido. Papai deu mais uma golada em seu copo, e, em seguida, pegou a garrafa novamente.. -Eu transei com a Annie. E depois ficamos conversando por um tempo, deitados. Summ ficou brincando com a irmã da Annie, Emily, no quarto dela. E depois acabei pegando no sono. -Quem é Annie? -papai perguntou, sorrindo. Tornou a beber. -Uma garota. Eu a conheci na boate. Amnesia NYC. -Você transa com esse tipo de garota? -Não fale assim dela. -disse, levantando-me do sofá. -Senta, Hector. -meu pai falou, sério. Sentei-me novamente, furioso. Eu o odiava quando bebia demais. Ele simplesmente não tinha limites para coisa alguma, e isso me incomodava. -Não vai mais acontecer. -falei. -Você t*****r com uma garota ou ser um i****a? -ele perguntou, rindo. -Conversamos amanhã. Você está bêbado. -Quem decide quando conversamos ou não, sou eu. -ele disse, ainda rindo da situação. -Você está diante de alguém muito importante. Não faz ideia! -papai levantou a garrafa. -Pai, por favor. Preciso dormir. -Agora sou diretor da IOF. -ele disse, seus olhos estavam vidrados. -Como? -perguntei, sem acreditar, enquanto me levantava novamente. -Ah, você ouviu muito bem. Vai dormir, filho. Amanhã você procura outra p********a. -ele começou a rir descontroladamente, deixando o copo de vidro cair ao chão. -Me dê essa garrafa. -eu o pedi, estendendo a mão. -Sai daqui. -ele disse. Olhou para o chão, começou a empurrar os cacos de vidro com chutes sem direção. -Pai, pare! -eu tentei pegar a garrafa de sua mão com força. -p***a, garoto! Me deixe em paz! -Me dê essa garrafa. -disse, mantendo minhas mãos firmes sobre as dele. -Se não você vai fazer o quê? Me m***r? -ele disse, entre gargalhadas. -Pai, por favor... -O que está acontecendo? -mamãe apareceu na cozinha, com roupa de dormir. -Ele está descontrolado. -disse. -Onde ele arrumou bebida? -mamãe inquiriu, intrigada. Caminhou até nós e segurou a garrafa. -Eu preciso beber mais. -papai resmungou. -O que você quebrou? Meu Deus, me dê isso aqui! -mamãe pegou-a de suas mãos, brava. -Hector, vá dormir. Eu limpo essa sujeira depois. E amanhã teremos uma conversa. -Foi um copo. -respondi, saindo em seguida para o meu quarto. [] Summer comia pizza de calabresa quando cheguei à cozinha. Mamãe falava ao celular, estranhamente séria e formal. O clima estava tenso, de certa forma. Resolvi sentar à mesa, como se tudo estivesse bem. Era o que eu fazia. -Gostosa? -perguntei a minha irmã. Summ semicerrou os olhos, parecendo não entender. -A pizza. Como ela está? -reformulei minha pergunta. -Hm. -ela respondeu, dando mais uma mordida. -Já comi melhores. Estou sentindo um gosto de... Como você disse mesmo? -Subsolo. -respondi, sorrindo. -Isso. -ela riu. -Desculpe por ontem. Eu e Annie acabamos pegando no sono. -disse, tocando em suas pequenas mãos. -Vocês estão namorando? -Summ tombou a cabeça. -Não, claro que não. Só deitamos um pouco. Estávamos cansados. -Só namorados dormem na mesma cama. Ou casados. -ela sussurrou, olhando para mamãe ao dizer casados. -Eu não sabia disso. -falei, sorrindo. -Perdoo você. Mas vou precisar de umas batatas fritas. -ela piscou para mim. -Batatas fritas, bem gostosas. -disse, piscando para ela. Mamãe desligou o celular, vindo até a mesa sentar conosco. Ela parecia um pouco triste. Provavelmente por minha culpa. -Desculpe, filha. Eu realmente não estou com cabeça para nada. Por isso pedi pizza para o almoço. -Você precisa ficar sem cabeça para nada mais vezes. -Summer disse, mordendo mais uma vez sua pizza. -Garota! -mamãe disse, e então começamos a rir. -Onde está o resto da pizza? -perguntei. -Nada de pizza para o senhor. Vamos conversar. -mamãe levantou-se, e então eu a acompanhei até a sala. Mamãe começou a falar sobre como estava chateada comigo. E que eu não deveria sair transando com qualquer uma. E eu disse a ela que Annie não era qualquer uma (mesmo eu não a conhecendo bem). Mamãe rebateu, dizendo que Summer estava por minha responsabilidade, e disse também todas as outras coisas que eu merecia ouvir. Por fim, ela disse sobre sua misteriosa ligação. -Teríamos um jantar de comemoração hoje. Com pessoas importantes. O presidente estaria presente, até. Seu pai. Ele se tornou diretor principal dos Isolamentos da América, ontem. Naquela reunião. -Espera. Então é verdade? Papai disse ontem, mas estava bêbado. Achei que... -É sim. -mamãe disse, cruzando os braços. -Ele está muito feliz. E nós devemos ficar também. -Achei que ele bebesse só quando estivesse triste. -disse, e mamãe desviou o olhar. -Está tudo bem. É isso que importa. Algum i****a deu essa bebida a ele de presente ontem. -Quem? -Não sei. Seu pai estava muito m*l ontem. Só me disse que ganhou de presente. -Ele pode estar mentindo. -sugeri. -Enfim. Seu pai não está bem hoje para encontrar o presidente. -mamãe passou a mão em seus cabelos, demonstrando nervosismo. -Não é muito gentil desmarcar algo com o Fillmore, mas, o seu pai é o motivo do tal jantar. Então, remarquei para amanhã. Seis horas. Você precisa comprar um smoking. O dinheiro está no meu quarto, vou pegar. -ela virou-se em direção ao quarto. -Vende isso aqui? -perguntei. -Ah! -mamãe voltou, pegou um pequeno envelope que estava no sofá. -Chegou isso para você. Antes que eu esqueça. -Okay. -E.. Filho. Me desculpe por ontem. -mamãe sorriu sem mostrar os dentes. -Tudo bem. -assenti. Peguei o envelope branco em mãos. Estava escrito, com uma caligrafia singular, bem grande: Para Hector Mitchell. Preciso muito falar com você. Estou correndo um certo risco, eu acho. Meu avô não está nada bem. Estou no Oitavo andar, número 200. Por favor, hoje, às sete.                                                                          -Justin. + Segundo o mapa do Isolamento, havia uma loja de roupas no sétimo andar. Resolvi arriscar, mesmo não tendo certeza absoluta de que lá teria um smoking. O andar era assustadoramente elegante. Não estava cheio, parecia um shopping em uma segunda de manhã. Entrei na primeira loja, uma garota de cabelos loiros me recepcionou com simpatia. Ela parecia ter dezesseis anos e não vestia uniforme de vendedora. Isso era bom. -Preciso de um smoking. -disse, e ela me ofereceu um sorriso encantador. -Veio ao lugar certo. -a vendedora respondeu, e eu a segui até um lugar onde ficavam os smokings. -É um jantar presidencial. Qual você acha que devo usar? -Hm, que menino importante! -ela sorriu. -Acho que... Ah, esse! -ela puxou o cabide e o estendeu em minha direção. -Vou experimentar. Você me diz se está bom. Okay? -disse, e ela fez um sim com a cabeça. Entrei no provador e o vesti rapidamente. Quando saí, a vendedora estava me esperando, de braços cruzados, sentada em um dos bancos ao lado do provador masculino. -E então? -disse, ao sair do provador. -Ficou perfeito. -ela respondeu. -Vou levar. -Fez a escolha certa. -disse, com seu sorriso animador. -Posso saber seu nome? -perguntei, enquanto eu a entregava o paletó. -Sou Chloe. -Prazer, Hector. 07h09 P.M. Oitavo andar. Número 200. Sete da noite. A curiosidade não me deixou ir para casa. Segurando meu novo smoking, toquei o interfone do apartamento de Justin. Segundos depois, ele apareceu, vestindo um suéter vermelho. -Você veio. -disse, parecendo satisfeito. -Preciso de um café. E não posso demorar muito, meus pais estão no meu pé. Absolutamente nada de surpreendente naquele apartamento. A arquitetura era parecida, assim como os móveis e as posições dos cômodos. Isso era bem estranho. O seu apartamento nunca era único, qualquer uma poderia ter um igual. Algumas pessoas vaidosas demais poderiam surtar nesse tipo de lugar. Peguei meu smoking embalado e o deixei o sofá, esticado. -Meu avô foi despedido. Eu vou começar a trabalhar aqui mesmo, amanhã. -Justin comentou enquanto me servia uma xícara de café, na cozinha. -Despedido? O que ele fez? -O provável é que ele não estava agradando Fillmore. -Qual era o cargo do seu avô mesmo? Desculpe, eu esqueci. -Ele era diretor da IOA. -Justin respondeu. -Diretor. -repeti, enquanto lembrava do que mamãe falara. -Sim. Praticamente um braço direito de Fillmore. -Ah. -disse, sem saber o que dizer. Resolvi omitir o fato de que meu pai havia tomado o cargo de seu avô. -Ele corre risco de vida, Hector. O presidente é capaz de qualquer coisa. -Como assim? Já lhe tiraram o emprego... O que mais poderia acontecer? -Você não sabe de nada, Hector. -ele lamentou. -Hm. Se você trabalhar na loja em que comprei meu smoking, irá se dar bem. Tem uma tal de Chloe por lá. É bonita. -disse, bebericando mais um pouco da xícara. Justin deu algumas voltas pela cozinha, pensativo. Comecei a pensar em como papai havia conseguido aquele cargo. Ele amava o que fazia, na verdade. Eu realmente não entendia o porquê da grande mudança. Precisava entender. Desejei falar com meu pai naquele exato momento. -Lembra de nossa entrada, não é? Aqui, no Isolamento. -Sim. -respondi rapidamente. -Todos tivemos que fazer um último teste, lá em cima. Para ter certeza que nenhum doente entraria aqui nos andares inferiores. -Fiquei sabendo que um homem estava com o vírus. Foi expulso. -É. Mas você se lembra do que aconteceu depois? -Como assim? -Hector. Depois de retirarem o seu sangue. Pense. Não lembra o que aconteceu? -Eu saí da sala e encontrei com meu pai. -Não. Você não se lembra de um sonho? Você não dormiu? Depois de retirarem o seu sangue, no caso. -Justin, a enfermeira só retirou o meu sangue. Foi só isso. Sério mesmo. -d***a. -ele disse, colocando um pouco mais de café para si. -Como foi com você? -perguntei, ainda o observando com um certo medo. Justin era misterioso. -Ela retirou o meu sangue, e eu estava pronto para ir embora. E então ela virou e disse: "Espere um momento. Temos mais um exame a fazer." -Prossiga. -disse, reconhecendo tal situação. -Ela disse que seria rápido, e logo depois saiu. Meus olhos começaram a ficar pesados. Nem me lembro como, mas acabei dormindo. Tive um sonho estranho também. Depois acordei e ela disse que o exame estava completo. -Isso também aconteceu comigo. -admiti, lembrando-me do que acontecera comigo. -Então você se lembra? -Justin perguntou, curioso. -Não foi aqui, no dia da entrada do Isolamento. Foi em NY. Aconteceu a mesma coisa. -Você também dormiu? Também teve um sonho estranho? -Justin semicerrou os olhos. -É.. Eu sonhei que corria de alguns infectados... -E um helicóptero sobrevoava com uma corda estendida para você? -ele perguntou -Sim. E, havia um homem no helicóptero. -completei. -O meu pai. E NY estava destruída. -Justin disse. -Quando eu estava subindo pela corda, um prédio se aproximava. -disse, lembrando os pequenos detalhes daquele sonho assustador. Trocamos olhares frios, um esperava pelo outro. Pus a xícara sobre o pires, quando nós dois pensamos na mesma coisa. -Fechei os meus olhos antes de me encontrar com a morte. -nós dissemos, em uníssono.
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