Caixas

1982 Palavras
 Cheguei a pensar em suicídio quando Johnson Hills cumprimentou-me naquela noite. Seu sorriso amarelo era capcioso. Aparentemente simpático, recepcionava todos os convidados do jantar. O local era exclusivo para a elite, localizado no topo Isolamento. Depois de abraçar meu pai, vi o presidente da Peace For The Future estender sua mão em minha direção. -Belo smoking! Futuro cientista ou futuro diretor? -ele perguntou, seu aperto era frio e preciso. -Ainda não sei. -respondi, seco. -Já está na hora de decidir! -Johnson falou, nossas mãos se separaram. -Qual seu nome mesmo? -Hector. Eu já sei o seu. -Mas é claro! -ele sorriu. -Um garoto inteligente como você deve ser muito bem informado. -Não tanto como eu queria. -disse, recebendo um leve toque no braço. Minha mãe. -Se você for metade do que o seu pai é, já será um grande homem. -Hills falou, desta vez olhando para mamãe. A música clássica tornava o ambiente aconchegante. Muitos dos presentes eu conhecia somente pela rede. Outros eu realmente não sabia quem eram. Sentamos em uma das mesas vidros, redonda, com espaço para seis pessoas cada. Dez delas estavam ali, todas elas bem próximas uma das outras, como em uma festa. A decoração do local era rústica, elegante e moderna. No teto, um grande lustre que aparentava custar o valor do meu antigo apartamento em NY. -Tenho um presente para você. Seu pai me pediu alguns dias atrás. Nós estávamos aguardando pelo último lançamento. -Que tipo de presente? -perguntei, olhando rapidamente para o meu pai. Ele conversava com uma mulher idosa. -Você vai gostar. -Johnson respondeu, abraçando um homem que havia acabado de chegar. -Nos falamos depois. -disse. Summer não nos acompanhou no jantar. Foi bem estranho voltar a casa de Annie depois do que aconteceu, mas pedi a ela que ficasse com minha irmã durante algumas horas. Ela foi receptiva, e agiu como se nada tivesse acontecido. Pelo que notei, ela não tocaria mais no assunto por um bom tempo. -Você acha que foi uma boa ideia? -mamãe disse, observando todo o local. -Deixar sua irmã com aquela garota. -Annie, mãe. Claro que sim. Ela tem uma irmã mais nova, Emily. Devem estar brincando juntas agora mesmo. -Queria ter ficado com a Annie também? -mamãe perguntou, sorrindo. -Engraçadinha. -Mas, filho. Vocês estão namorando? -Não, mãe. Eu já disse. -Você faz isso com todas as garotas? -ela perguntou, um homem chegou até nossa mesa oferecendo champanhe. -Do que está falando? -disse, levantando o taça para o garçom. -Ele não bebe. É menor de idade. -mamãe disse ao garçom; -Estamos em uma festa, não estamos? Só um pouco, por favor. -disse, ainda segurando a taça no ar. -Eu estava falando sobre você ficar com as garotas e nem ligar no dia seguinte. E você não vai beber nada. -mamãe disse, dispensando o garçom. -Poxa, mãe. Essa champanhe deve ser uma daquelas mais caras do mundo. E ainda estou sem celular. -comentei, rindo. -Engraçadinho. -ela piscou, sorrindo. Uma hora depois, todas as mesas estavam preenchidas. O presidente, James Fillmore, chegou por último. Ele sentou-se ao lado de Johnson, o presidente da PFF. Era minha chance de m***r dois em uma única tacada. Uma surpresa bem agradável aconteceu logo em seguida. Uma das garçonetes apareceu, saindo da cozinha com um uniforme preto, um pouco desajeitado e cabelos bem presos. Chloe, a garota da loja de ternos. Levantei-me rapidamente, passando inclusive pela mesa presidencial. Notei que James Fillmore olhou-me de soslaio. Chloe estava próxima a cozinha. Cansada, apoiava-se no balcão, sentada em um banco de bar, esperando que algum cozinheiro levasse o que deveria ser servido em sua bandeja vazia. -Lembra de mim? -perguntei, de supetão, ela abriu os olhos. -Oi. -ela disse, levantando-se. -Claro. Você comprou esse smoking lá na loja. Ontem, se não me engano. Ficou ótimo em você. -Obrigado. -agradeci, sorrindo. -Você é a Chloe. Certo? -É. -ela disse, ajeitando a gola de sua camisa. -Desculpe, eu não lembro seu nome. São muitos nomes que ouço o dia inteiro, e... -Não se preocupe. -eu a interrompi. -Sou Hector. -Isso. Hector. Desculpe. Estou com a cabeça cheia. -O que faz aqui? Desculpe ser indelicado. É que você já tem um trabalho, certo? -É uma longa história. Mas para continuar aqui, eu preciso trabalhar. Nós podemos conversar outro dia, em outro lugar. -ela olhava para todos os lados, parecendo procurar por algo. -Ah. -disse, dando um passo para trás. -Tudo bem. Eu posso te encontrar amanhã, depois do seu trabalho. Que horas você sai? -Pode ser. Eu saio às seis horas. -ela disse, um homem veio da cozinha e deixou uma bandeja de frios no balcão. Chloe a pegou. -Amanhã, então. -falei. -Amanhã. -ela repetiu, passando por mim com a bandeja cheia. Todos os corruptos presentes pareciam felizes. Andei por todo o local, observando tudo o que havia de bom no lugar. Era muito bem requisitado e com alto custo. Quando voltei ao salão principal, o presidente do país estava sentado na mesa de minha família. Junto com ele, meu pai, minha mãe e Johnson Hills. Pensei em dar meia volta no momento em que os vi, mas já era tarde demais. Sentei-me a mesa com os monstros. -Já conhecem o meu filho, Hector? -papai disse aos presidentes. -Você sempre fala dele, Mitchell. -Fillmore brincou, rindo. -Quando ele não fala de você, até sentimos falta. -Hills comentou, entrando na conversa. -Meu filho tem tudo para ser um grande cientista. -papai disse, orgulhoso. -Eu o perguntei se ele seria um cientista ou um diretor. Não é, Hector? -Johnson sorriu. -É. Ainda não me decidi. -respondi, tentando não olhar diretamente para eles. -Você trouxe o que eu lhe pedi? -papai perguntou a Hills. -Claro que sim! -Johnson demonstrou empolgação. -Hector, pode me acompanhar um instante? Minutos depois, eu acompanhei o presidente da PFF caminhar pelo salão, parando vez ou outra para saudar alguém importante. Quando finalmente chegamos a uma porta próxima a entrada, Hills retirou um pequeno cartão azul de um dos bolsos de seu paletó, abrindo a porta logo em seguida. -Na verdade, são presentes. -ele disse, quando as luzes se acenderam. -Quanto mistério. -falei, observando o local. O local era uma espécie de quarto de hóspedes. Uma cama, um pequeno guarda-roupa ao lado, dois quadros em duas paredes, uma estante com livros antigos e uma mesa, com três caixas nesta. Os presentes, imaginei. -Sente-se. Vamos abrir as caixas. Estou curioso, mesmo sabendo o que são. -Johnson falou, enquanto me sentei a mesa de frente para ele, com certo receio. -A primeira caixa. -ele disse, abrindo-a vagarosamente. -O que é? -perguntei. Nesse ponto, eu já estava curioso demais para continuar sendo antipático. -Esse presente não é de seu pai. Acho melhor você mesmo ver. -ele empurrou a caixa em minha direção. Abri a pequena caixa. Havia um carro de brinquedo, uma Ferrari. Ela tinha cerca de 30cm, e deveria ter uns dez anos de idade. Eu a dei para Paul em um de seus aniversários, quando ainda éramos crianças. No teto do carro, com uma caneta preta, estava escrito: De Paul, Para Hector. Ele permanece vivo em nossas lembranças. -Foi a mãe dele. -Hills disse, com a voz serena. -Sinto muito. -Obrigado. -eu o agradeci, sem saber o que dizer. Ainda com as mãos trêmulas ao lembrar de Paul, deixei a Ferrari sobre a mesa. Olhei para Hills, que imediatamente me deu a segunda caixa. A primeira coisa que peguei foi um porta-retrato. Na foto, City estava no centro, com os olhos fechados, sorrindo. Paul e eu estávamos ao seu redor. Sorrindo. Em volta da foto, nas boda superior estava escrito Nós somos. Na borda inferior, infinitos. -Deveria ter me avisado que eu precisaria de um preparo psicológico para receber tudo isso. -disse ao presidente, que até então me observava em silêncio. -Você é forte o bastante, garoto. -John falou. Na mesma caixa, havia um cordão e um envelope. Também de City, provavelmente. O pingente era um W. Não entendi o significado da letra, então, resolvi buscar a resposta dentro do envelope. Dentro dele, uma carta e outra foto. Um foto que doeu, profundamente, quando a vi. Era o meu irmão, Thomas. City o visitou, na reclusão. Ele estava vestindo uma roupa cinza, um uniforme. Estava dormindo, e sua mão direita estava em seu peito. Por cima de sua mão, outra, um pouco mais branca que a dele, impossível não reconhecer. Era de City. Abri a carta rapidamente, digitada pela garota que sempre fui perdidamente apaixonado. Hector. Acho que você merecia tudo isso. Na verdade, muito mais que somente isso. Queria dizer que seu irmão está bem. Ele teve uma crise (foi o que me disseram) de falta de ar. Mas ele está bem, como pode ver na foto. Dormia como um anjo, como uma criança adorável que ele sempre foi. Me desculpe por tudo, principalmente pelo meu comportamento infantil na sua festa de aniversário/despedida. Queria voltar no tempo e consertar toda essa burrada que eu fiz, mas não é possível. É por isso que estou escrevendo isso, e espero que chegue em suas mãos. Sinto falta de nossas conversas na escola, dos nossos trabalhos em grupo, e quando saíamos com Paul para o CP naquelas tardes deliciosas de verão (principalmente quando você levava algumas comidas preparadas pela tia Nick). Não sei muito como dizer as coisas, nunca fui boa escrevendo, você sabe. Não sei se reparou no cordão que está dentro da caixa, com um W. Você representa o NÓS, Hector. Você é a razão da nossa união, o motivo de estarmos juntos todos esses anos. Eu comprei outros dois, com A e I. Queria que o Paul ainda estivesse aqui, para usar o nosso I. Ele sempre será infinito, em nossos corações. Para sempre. Hoje eu vou para o Isolamento 7. Minha família parece feliz e satisfeita, mas eu não sei fingir que estou bem como eles (você sabe muito bem disso). Sinto um aperto no peito, Hec. Não consigo parar de pensar em como tudo isso vai acabar e... A única coisa que sei fazer é chorar. E eu me odeio, Hec. Me odeio por ter sentido ciúmes de você no seu aniversário, na escola, e em todos os lugares. No dia da festa, contei a sua mãe que estou apaixonada por você. Ela ficou desesperada, eu tive que segurá-la para não ir correndo contar a você. Mas eu a pedi para que nunca lhe contasse, para que evitássemos o pior. Agora é tarde demais para eu viver ao seu lado, e a culpa é minha. Ela me disse que você também gosta de mim. Eu não sei se é verdade, já que mães sempre inventam essas coisas em suas imaginações férteis, mas... Se for, eu sinto muito. Eu não deveria estar contando isso, mas eu não consigo para de escrever. Eu te amo, Hec. Sinto sua falta. -Hector, você está bem? -o presidente perguntou no momento em que a carta caiu de minhas mãos, que tremiam sem parar. -Sim. -respondi, com a voz trêmula. -Eu preciso ir. Obrigado por tudo. -Hector, você ainda tem mais um presente. O de seu pai. -Eu preciso ir. -disse, recusando a terceira caixa, levantando-me da mesa. -Mas, Hector... É importante. -Hills pegou a caixa. Sua expressão era de pena. -Preciso ir. -disse mais uma vez, correndo em direção a porta. Quando abri a porta, meus olhos estavam infestado por lágrimas. Quando limpei meu rosto, pude ouvir uma pessoa chorando, bem alto. Mais a frente, os convidados pareciam perplexos, sussurravam  e movimentavam-se de um lado para o outro. Sem saber o que estava acontecendo, sem tempo para pensar sobre a carta, voltei ao salão principal, me desviando das pessoas que formavam uma roda em uma das mesas do recinto. Passei por todos, podendo ver o que chamava atenção da grande roda de pessoas. Meu pai estava com a cabeça sobre a mesa, desacordado. Mamãe era quem chorava.
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