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1447 Palavras
Marcos Narrando Eu dirigi minha moto até o meu apartamento, com o coração apertado e com um misto de raiva e tristeza. Eu tinha acabado de sair da casa de Ana Luiza, a mulher que havia despertado algo no meu coração, pela primeira vez durante minha vida inteira. E ela era justamente a mulher que eu não podia ter. Por que a vida é desse jeito? Eu tinha ido até lá para me desculpar por ter derrubado os seus papéis sem querer e sido extremamente grosso. Eu sou grosso, sei disso, mas não é certo. Havia levado um vinho para ela, como um gesto de gentileza. Eu tinha elogiado o seu trabalho como policial, falado algumas coisas... Mas eu não tinha feito o que eu realmente queria fazer, quando a vi vestida naquela camisola de seda branca. Por Deus, como ela pode ter ficado tão linda? Como ela pode? Eu não tinha beijado a sua boca, tal qual desejei. Eu não tinha abraçado o seu corpo... Eu não tinha a levado pra cama, a feito ser minha... Eu não tinha feito nada disso porque eu não podia. E por que eu não podia? Era simples: Porque eu tinha um segredo. Um segredo terrível. Um segredo que me impedia de ser feliz e de fazer o que eu queria. Eu era Imperador. Sim, eu era Imperador. O traficante que Ana Luiza odiava e que matou o seu pai. O traficante que ela estava investigando. Ela se lembra da minha máscara com maestria. Eu devia tê-la matado, mas ela era só uma criança de dez anos, como eu poderia saber que ela voltaria para me assombrar? O pai dela era uma pedra no meu sapato, estava sempre metendo o nariz onde não era chamado e eu era obrigado a conter os danos colaterais causados por ele. E, agora morto, mesmo com todas as coisas que fiz para encobrir a morte dele, ele ainda me causa problemas, porque ele deixou sua filha e agora ela cresceu, está na minha delegacia e me investigando. Que inferno! Eu era Imperador, e ninguém sabia. Ninguém desconfiava. Ninguém suspeitava, porque eu sempre fui muito bom em disfarçar as coisas. Eu era Imperador, e eu era Marcos Elliot, o chefe da delegacia de polícia. O líder da equipe especializada em combater o tráfico é um traficante de primeira... O homem que jurou proteger a lei e a ordem, pisa em cima da lei e desordena o país de forma sem igual debaixo do nariz de todos. Eu sou Imperador e Marcos Elliot, o pai ausente de uma filha rebelde, amigo falso de muitos colegas, amante secreto de muitas mulheres... Sedutor implacável de muitas vítimas, inimigo mortal de muitos rivais... Eu era Marcos Elliot e Imperador, mas acima de tudo... Eu era um monstro. Cheguei ao meu apartamento e subi até o meu andar. Era um apartamento aconchegante, de um bom tamanho e bem decorado, e eu contratei uma arquiteta especializada para fazer parecer que aquilo era um lar, apesar de ser apenas uma fachada. Abri a porta do meu apartamento e entrei, jogando a chave no aparador, um pouco estressado. Eu fui até a sala e liguei a televisão, procurando algo para assistir. Eu vi as notícias sobre o roubo de joias que eu havia planejado, sobre o assassinato de um juiz que eu havia ordenado, sobre a prisão de um informante que havia tentado me trair... É, eu sou um monstro no noticiário, e ninguém imagina que seja eu. Peguei meu telefone e pensei em ligar para minha filha de catorze anos, . Era tarde, mas conheço minha filha... Ela provavelmente não está dormindo. O telefone tocou duas vezes, e ela atendeu. - Alô? - Disse, e respirou fundo. - O que você quer, velho? - Como você está, filha? - Perguntei, e ela demorou um pouco para responder. - Bem. - Está encrencada? - Questionei, e então ela soltou o que havia feito. - A mãe está brava comigo porque levei uma suspensão. Eu não quero mais morar com ela, pai... Pai, por favor, dá um jeito de me tirar daqui. Ela me detesta e meu padrasto me detesta mais ainda! - Ela resmungou. - E pra falar a verdade, eu também detesto eles. - Filha, eu vou tentar dar um jeito. Mas não posso te prometer nada agora... - Suspirei. Depois de conversar algumas trivialidades, desligamos. Eu joguei o celular no sofá e me levantei, indo até o bar. Eu abri uma garrafa de uísque e servi um pouco em um copo. Senti o gosto forte e amargo do uísque na minha garganta. Bebi outro gole e senti o gosto forte e amargo da culpa na minha alma... Eu me sentei no sofá e apoiei a cabeça nas mãos. Como eu cheguei a esse ponto? Como eu me tornei esse monstro? Aonde foi que eu me perdi? Eu me lembrei da minha infância, na favela onde eu nasci e cresci... Do meu pai alcoólatra e violento, que batia em mim e na minha mãe sem motivo algum. A pior lembrança era a da minha mãe, minha pobre mãe, doente e resignada, que sofria em silêncio e morreu cedo demais. Ela não merecia a vida que teve. Eu me lembrei da minha juventude difícil e rebelde, na escola onde eu estudava e brigava frequentemente, como minha filha hoje faz. Será que ela irá trilhar os mesmos caminhos que eu? Tenho medo de arrastá-la para o mesmo lamaçal em que vivo. Eu me lembrei de tudo o que eu fiz e de tudo o que eu deixei de fazer. Dizem que ter boa memória é ótimo, até você perceber que a vida é basicamente sobre esquecer e seguir em frente. E então, eu me lembrei de Ana Luiza naquela maldita camisola de seda branca... A única mulher que consegue despertar algo em mim além de luxúria. Ana Luiza, a filha do maldito homem que eu matei por ser uma pedra no sapato. Eu matei o pai dela por causa das coisas que ele estava descobrindo, então, criei uma dívida de jogo no nome dele para eu mesmo cobrar. Uma dívida que ele não podia pagar, obviamente. E nos negócios, infelizmente eu não posso ter compaixão de ninguém, muito menos de alguém que está prestes a descobrir meus esquemas. Eu matei o pai dela na frente dela. Na frente de uma menina de dez anos, inocente, doce, com os olhos esverdeados assustados dos quais nunca me esqueci. Eu matei o pai dela e ri. Ri como um louco. Ri como um demônio. E ela ouviu e viu tudo. Eu matei o pai dela e nunca fui pego, como em todos os outros crimes... Nunca fui pego porque eu era Imperador, e além disso, porque eu era Marcos Elliot. É, eu sou a p***a de um monstro. Eu matei o pai dela e nunca me arrependi. Nunca me arrependi até conhecê-la, e depois descobrir quem era aquela garota. Nunca me arrependi até... Até que ela me fez sentir vivo. Eu conheci Ana Luiza há cinco anos atrás, quando eu a recebi para trabalhar na delegacia. Ela era uma recém-formada em direito, com notas excelentes e recomendações brilhantes, e eu não a reconheci no momento. Ela era uma jovem bonita, inteligente, corajosa, gentil, passou fácil no concurso e provavelmente faria uma excelente carreira. Reconheço um bom policial quando vejo um. Ela era uma policial incrível. Uma das melhores que eu já conheci. E eu admirei muito a sua coragem e a sua determinação, ela chegou cheia de sonhos e com um brilho que só ela tem. Mas ela não era só uma policial para mim, era muito mais do que isso. Ela era a mulher que... A mulher que eu amava em segredo. E eu odeio admitir, mas ela me fez sentir amor. Eu amei Ana Luiza desde o primeiro dia em que eu a vi, crescida, sem saber quem ela era. Eu amei o seu sorriso, os seus olhos, os seus cabelos. Eu amei o seu corpo, a sua voz, o seu perfume. Eu amei Ana Luiza com uma intensidade que eu nunca senti por ninguém. Com uma paixão que eu nunca expressei para ninguém, e por causa da minha parte sombria, eu jamais poderia tocá-la. Eu amei Ana Luiza em segredo, em silêncio, em solidão. Eu amei Ana Luiza sem esperança, sem futuro, sem saída. Porque eu sabia que ela nunca me amaria de volta. Porque eu sabia que ela nunca me perdoaria pelo que eu fiz, se um dia soubesse. Porque eu sabia que ela nunca aceitaria quem eu era. Porque eu era Imperador. E ela era Ana Luiza. E nós éramos inimigos mortais.
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