A noite estava envolta em uma suavidade dourada, típica de um evento de gala. O salão estava repleto de pessoas elegantes, vestindo vestidos deslumbrantes e ternos impecáveis. Luzes cintilantes dançavam nos lustres de cristal, enquanto as conversas fluíam de maneira controlada, como se todos soubessem que estavam ali para mais do que apenas socializar. Era um jogo de poder, de alianças e status, e Isabela sabia muito bem como fazer parte daquele mundo.
Ela estava no centro da sala, cercada por convidados importantes, sorrindo e cumprimentando pessoas com a educação que lhe fora ensinada, mas com a mente distante, perdida em um lugar onde o glamour e a opulência não podiam alcançá-la. Seus olhos estavam perdidos em um horizonte distante, onde, apesar de estar cercada por todos aqueles rostos conhecidos, ela sentia falta de algo – ou melhor, de alguém.
A sensação começou com uma leve pressão no peito, um formigamento na pele, um frio que não tinha explicação. Ela parou por um momento e olhou ao redor, tentando entender o que estava acontecendo, até que, sem aviso, seu olhar encontrou o dele.
Caio.
Ele estava ali, encostado em um canto, seu olhar profundo e impenetrável fixado nela. Ele usava um terno perfeitamente ajustado, o cabelo escuro e ligeiramente desalinhado, como se tivesse acabado de passar os dedos por ele, e, apesar de seu semblante fechado, havia algo inconfundível em seu olhar que não podia ser negado. Ele era o mesmo Caio de sempre, mas agora, mais imponente, mais distanciado, e algo mais. Algo que a fazia sentir a pressão de sua presença como um peso físico. Ele a encarava com intensidade, como se, naquele momento, nada mais importasse.
Isabela respirou fundo, tentando controlar a reação instantânea que sentiu ao vê-lo. O tempo parecia desacelerar ao redor deles, como se o resto do mundo não existisse mais. Ela poderia jurar que ninguém mais na sala estava realmente presente, que tudo o que ela conseguia ouvir era o próprio ritmo de seu coração disparado.
Eles não se moviam, não falavam. Apenas se observavam.
Ela sabia que ele estava esperando algo dela, que queria vê-la se aproximar, fazer o primeiro movimento. Mas ela também sabia que isso não aconteceria. Não dessa vez.
Com um leve sorriso, ela afastou a visão dele, tentando retomar o controle, mas ele não permitiu que ela fosse embora tão facilmente. Seu passo era firme e calculado, e ele se aproximou dela como um predador se aproximando de sua presa, mas de uma forma sutil, quase imperceptível.
Quando ele finalmente parou à sua frente, a energia entre eles era palpável, como uma tensão carregada de eletricidade. Os olhos de Caio estavam fixos nos dela, e Isabela podia sentir seu calor, aquele calor que já a dominara em tantas outras ocasiões.
— Nunca pensei que te veria aqui. — A voz de Caio era baixa, rouca, e parecia carregar a mesma carga emocional que ela sentia. Ele estava controlado, mas Isabela podia perceber o esforço por trás daquele controle.
Ela não sabia como responder, mas a pergunta estava no ar. Como ele se atrevia a dizer aquelas palavras, como se não fosse nada? Como se não tivesse sido ele a afastá-la de sua vida, sem explicação, sem sequer um adeus? Ela forçou um sorriso frio, quase desdenhoso.
— A vida tem suas surpresas, não é mesmo? — Ela não conseguia esconder a ponta de amargor em sua voz. — Mas é bom ver que o senhor não mudou. Ainda tão imperturbável, tão... inatingível.
Caio deu um pequeno sorriso, mas o seu olhar permanecia fixo, feroz, como se ele pudesse ver além de suas palavras. Ele sabia, e ela sabia que ele sabia, que aquelas palavras não eram apenas palavras vazias. Era a luta interna dela tentando se proteger, tentando esconder o que sentia.
— Você sempre teve essa habilidade, Isabela. De esconder o que realmente quer. — Ele disse, a voz carregada de algo que ela não podia definir. — Mas não pode negar o que está aqui agora. — Ele deu um pequeno gesto com a cabeça, indicando a distância que os separava, mas também o quanto ela poderia se aproximar, como se ele estivesse convidando-a para um jogo perigoso.
Isabela respirou fundo, seu corpo reagindo àquela proximidade como se ela estivesse em chamas. Ela sabia que ele também sentia. Havia algo em sua postura, algo no modo como ele a olhava, como se ele desejasse com a mesma intensidade que ela o desejava. Mas não havia espaço para isso. Não agora. Não depois de tanto tempo.
— Não há nada a ser dito, Caio. — Isabela respondeu, a voz mais firme do que sentia. — Nós... não somos mais quem fomos. O tempo mudou tudo.
Caio sorriu, mas não era um sorriso de vitória, e sim uma mistura de dor e compreensão. Ele sabia o que ela queria dizer. Ele sabia, porque ele sentia a mesma coisa. Mas, ao mesmo tempo, ele também sabia que não havia como voltar atrás. O que eles haviam sido era um capítulo que havia sido fechado, e ambos estavam agora vivendo em um livro completamente diferente. Mas o desejo não havia desaparecido. Ele estava ali, silencioso, esperando para explodir.
— Não sou mais o garoto que te protegia, Isabela. — Ele disse, a voz um pouco mais grave, carregada de um tom sombrio. — Mas... há coisas que a gente não consegue esquecer. E você... nunca saiu da minha mente.
As palavras caíram como uma bomba no peito de Isabela. Ela se sentiu vulnerável, como se ele tivesse conseguido enxergar através de sua fachada impecável, como se ele tivesse arrancado a camada de gelo que ela havia construído ao longo dos anos. Ela mordeu o lábio inferior, tentando manter o controle.
— Então, o que você espera, Caio? — Perguntou, quase desafiante. Seus olhos não deixavam os dele, como se ela estivesse disposta a enfrentar o que fosse. — Que eu ceda a esse desejo reprimido? Que eu esqueça tudo o que aconteceu entre nós e me jogue nos seus braços?
Ele deu um passo à frente, e, com isso, a distância entre eles diminuiu, tornando-se quase inexistente. Seu perfume, seu calor, tudo ao redor dela se tornou caótico. Caio estava tão perto que ela podia sentir o bater de seu coração em sintonia com o seu.
— Eu não espero nada. — Ele respondeu, sua voz um sussurro profundo e intenso. — Eu sei que você nunca vai se render ao que quer. Mas... a verdade é que eu também não consigo negar o que sinto por você. Nem mesmo agora.
Isabela sentiu a intensidade das palavras dele em seu corpo, em sua alma. O que mais ela poderia fazer além de se perder naqueles olhos? Ela sabia que era perigoso, que se entregasse àquele momento, a história deles mudaria para sempre. Mas, por um segundo, ela não se importou.
Ela olhou para ele com uma expressão de desafio.
— E se eu quiser saber o que acontece depois?
Os lábios dele se curvaram em um sorriso enigmático.
— Então, você terá que decidir o que está disposta a perder.
Isabela não sabia mais onde estava ou quem ela estava tentando ser. Tudo o que sabia era que, naquele momento, ela desejava Caio de uma forma que não conseguia controlar. O jogo estava apenas começando.