Roman Ostrov
Os capitães se entreolharam, e a votação começou. As vozes eram graves, cada uma carregando o peso de decisões que mudariam o futuro da Bratva. Eu observava tudo, na prisão eu aprendi muito, aprendi a ler o jogo por inteiro, e tudo naquele cenário me pareceu deslocado, fora de lugar. Poderia ser um grande movimento dos traidores, mas não era o último e se dependesse de mim o último movimento de Nikolai e Ivan seriam no inferno.
Conforme a votação prosseguia, o resultado se tornava evidente: havia um empate. Sergei Volkov, Boris Petrov, e Alexei Sokolov votaram em Nikolai, enquanto outros capitães mais próximos a meu pai votaram nele. O equilíbrio era frágil, e agora tudo dependia do último voto.
Dmitry Kozlov, o único a mesa que parecia possuir algum entendimento sobre a gravidade do que estava acontecendo ali, se levantou lentamente, seus olhos pesados enquanto observava meu pai. Ele era um homem de poucas palavras. Todos na sala o observavam, aguardando sua decisão final.
Dmitry fez uma pausa, olhando primeiro para Ivan e depois para mim, amarrado e sem poder me defender. Eu sabia que o julgamento dele seria de grande importância para o conselho. Ele não agiria por lealdade aos parceiros ou por emoções. Ele faria o que fosse melhor para a Bratva.
— Eu respeito o que você fez pela Bratva, Ivan — começou Dmitry, sua voz grave. — Mas como posso votar em você, no pai do homem que assassinou o antigo chefe da nossa organização? Por mais que você tente justificar, não posso ignorar o que aconteceu. A morte de Mickail Romanov foi uma traição, e seu filho, Roman, estava envolvido.
Ele olhou ao redor da sala, encontrando os olhares de todos os capitães, antes de finalmente se voltar para Nikolai.
— Meu voto vai para Nikolai — concluiu ele, selando o destino temporário da máfia russa.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O conselho havia falado. Nikolai era agora o novo chefe da Bratva.
O novo chefe da Bratva olhou para mim, seus olhos impassíveis, enquanto os soldados ao meu lado esperavam a próxima ordem.
— Tragam-no aqui — ordenou Nikolai. — Soltem o filho de Ivan Ostrov.
Mais um teatro ensaiado.
A sala estava envolta em uma tensão densa, sufocante. Dmitry me analisava com uma curiosidade crua, enquanto os soldados tiravam as correntes dos meus braços e dos pés.
— Concordo — disse Nikolai, sua voz cortante, mas de certa forma, tranquila. — A Bratva passou por um período sombrio, sim. — Ele caminhava lentamente pela sala, o som de seus sapatos no chão ressoava como um lembrete de seu novo poder. — Mas agora, como novo chefe, estamos prestes a deixar esse período para trás. — Ele parou, seu olhar percorrendo cada rosto presente. — Ivan, como forma de reconhecer sua lealdade e seus anos de serviço à Bratva, nomeio você como meu conselheiro. O cargo de Sub-chefe continuará vago até que eu decida.
Meu pai parecia furioso, o que também parecia apenas um pedaço de um teatro pitoresco que desenrolava a minha frente. Ivan, nunca foi dado a emoções profundas, nada que alcançasse o seu semblante implacável.
— Tirem a mordaça do meu filho — Ele ordena e o soldado olha para Nikolai esperando a aprovação, antes de fazê-lo.
Nikolai me lançou um sorriso cínico que eu retribui gentilmente.
— Quanto a Roman — ele disse, com aquela voz baixa que soava como um m*l agouro —, ele lutou por sua vida. Eu concedo-lhe o perdão.
Pardão.
A palavra ecoou na minha mente, mas não trouxe alívio. Em vez disso, ela trouxe uma inquietação profunda. Perdão? Não, isso não era um gesto de compaixão. Era algo muito mais sombrio, uma jogada que eu ainda não conseguia entender completamente.
Então Nikolai se aproximou ainda mais de mim, e sua próxima frase me arrepiou até os ossos. Ele matou Mickail Romanov.
— Afinal... como se pode m***r um homem que já está morto? — Ele disse, e um sorriso debochado dançou em seus lábios.
Ivan estava em pé e eu podia ver a tempestade por trás de seus olhos. Ele não iria aceitar essa "clemência" como um ato piedoso de Nikolai. Ivan sempre está dez passos a frente. E não será diferente com Nikolai.
— Se Roman foi perdoado — disse ele, a voz tensa e carregada de raiva —, então devemos eliminar qualquer ameaça que possa surgir contra ele. Os Romanova ainda estão vivos, e não podemos correr o risco de retaliação.
Cada palavra de Ivan era pesada e implacável. Ele estava exigindo a eliminação de toda a linhagem Romanova, a linhagem fundadora da Bratva, isso jamais seria bem visto aos olhos do conselho. Mas eu sabia que essa era apenas parte da verdade. Havia vingança em sua voz, esse era o primeiro teste de Nikolai.
Nikolai observou meu pai por um longo tempo, seus olhos avaliando cada expressão, cada palavra. E então, com um leve sorriso, ele assentiu.
— Concordo, Ivan. Todos os Romanova devem ser eliminados... — Ele fez uma pausa, calculada, e a sala ficou agitada. — Exceto uma.
Ivan o encarou com desdém.
— Por que poupar alguém? — perguntou ele, a voz baixa, um tom de desafio no ar.
— Porque Anastacia Romanova ainda tem utilidade para nós. — Nikolai respondeu com a voz suave, quase condescendente. — Ela pode ser uma peça valiosa, Ivan. E, mais do que isso, seu sofrimento pode nos servir. — Ele fez uma pausa, sorrindo de forma sombria. — Quanto aos outros... você e Roman se encarregarão do serviço. Seu filho já se provou um assassino exemplar.
A irritação que dominava a sala era palpável, como uma tempestade prestes a eclodir. O abalo causado pela decisão de eliminar a linhagem fundadora da Bratva era o estopim. m***r os Romanova significava não apenas o fim de uma família poderosa, mas também o rompimento de laços históricos que haviam sustentado a própria organização desde suas origens.
Os Capitães, em seus lugares, se remexiam, os olhares expressavam mais do que apenas desacordo — havia um temor profundo nas suas expressões, uma mistura de respeito à tradição e medo do que isso significaria para o futuro da Bratva.
Um dos Capitães, mais velho e um dos mais antigos da mesa, bateu a mão com força no braço da cadeira, a voz tremendo de raiva contida.
— Não podemos simplesmente apagar nossa história! — exclamou ele, a voz reverberando pela sala. — Os Romanova fundaram a Bratva! Destruí-los seria destruir a essência do que somos! Há quem ainda seja leal a eles, e esse ato trará consequências que nem mesmo você, Nikolai, pode prever!
— Estamos em tempos de guerra — Nikolai se levantou furioso. — E aqueles que forem uma ameaça à Bratva, sejam Romanova ou qualquer outro, serão eliminados.
Nikolai deu por encerrada a reunião.