13 - A Maldição de um Coração Fraco

1251 Palavras
Dias atuais... Donatella Romanova - 18 anos O silêncio na mansão Romanov era ensurdecedor, interrompido apenas pelo som distante dos passos suaves de Anastacia, minha mãe, atravessando o corredor como uma sombra. Ela apareceu à minha frente, seu rosto sem emoção, mas seus olhos brilhando com algo que eu não conseguia definir. Talvez fosse satisfação disfarçada, talvez fosse o alívio que ela vinha esperando por tanto tempo. — Donatella — ela disse, sua voz controlada, com uma tranquilidade quase perturbadora. — Seu pai... foi morto, na prisão. Eu senti meu estômago revirar, o chão parecia se desintegrar sob meus pés. As palavras dela caíram sobre mim como uma onda gélida. Uma dor forte me atingiu o peito, me fazendo curvar o corpo pra frente, em um movimento nada gracioso. — Mas não se preocupe — ela continuou, sem esperar uma resposta, enquanto atravessava a sala com a mesma elegância fria de sempre. — Nós estamos protegidas. Nikolai vai cuidar de tudo. — Ela tentou dar um sorriso reconfortante, mas parecia mais uma máscara vazia de falsidade. Claro que Nikolai cuidaria dela, isso era óbvio. Com o meu pai morto, o caminho ficava livre para o romance nojento dos dois. Eu sabia que ela não se importava com a morte do meu pai. Anastacia era uma mulher há muito tempo distante das emoções humanas normais. Talvez fosse isso que a fazia parecer tão impenetrável, ou talvez fosse a frieza calculada de quem há muito tempo deixou de se importar. Olhei para ela, tentando encontrar algo de humano em sua expressão, mas tudo o que vi foi uma mulher que usava a notícia da morte de seu marido como um ator aproveitando o último ato de uma peça. — Tudo vai ficar bem — ela repetiu, mais para si mesma do que para mim. Eu não disse nada. Fui treinada a vida toda para não demonstrar emoções, para ser fria como o gelo que corria nas veias dos Romanov. Não importava o quanto meu coração estivesse despedaçado por dentro, eu não podia deixar que ninguém visse isso. Muito menos minha mãe, que sempre dizia que fraqueza era o maior pecado que uma esposa da Bratva poderia cometer. O teatro começou assim que ela terminou de falar. Minha mãe, sempre tão controlada, explodiu em uma encenação que beirava o ridículo. O rosto dela, antes sereno, agora se contorcia em uma máscara exagerada de dor. Ela caiu sobre uma poltrona, levando uma mão ao peito como se o coração estivesse perto de parar. — Oh, Mickail! — ela exclamou com um grito que reverberou pelas paredes da mansão. — Como pôde me deixar assim?! Como pude perder o grande amor da minha vida?! Eu permaneci em silêncio, observando a cena como se estivesse em uma peça teatral que já vi muitas vezes. Ela sempre soube atuar com perfeição, mas para mim, tudo parecia vazio. Eu sabia que, por dentro, Anastacia não estava sofrendo. Talvez houvesse um toque de alívio em seus olhos, a liberdade que ela vinha esperando por tanto tempo. Seu luto escandaloso era uma farsa, uma cortina de fumaça para os olhos curiosos e atentos que sempre cercavam nossa família. Sem dizer uma palavra, me afastei, deixando minha mãe mergulhada em seu show particular. Caminhei em direção ao antigo escritório de meu pai, o lugar onde ele passava a maior parte do seu tempo controlando os negócios, dando ordens e mantendo o poder que um dia fez de nossa família, a mais temida da Bratva. Ao entrar, a familiaridade do ambiente me envolveu. O cheiro do couro das cadeiras, da madeira antiga do escritório, e o leve aroma do conhaque que ele costumava beber. Tudo ainda estava ali. Cada detalhe daquele lugar exalava a presença de Mickail Romanov, como se ele pudesse voltar a qualquer momento, sentar-se em sua poltrona e continuar suas operações implacáveis. Mas ele não voltaria. Fui até o bar, o mesmo bar que meu pai usava para se servir de seu conhaque favorito. Peguei a garrafa, observei o líquido âmbar brilhar à luz suave do escritório. Despejei um pouco no copo e me sentei na cadeira que um dia foi dele. O conhaque queimou quando desceu pela minha garganta, uma sensação estranha de conforto e perda ao mesmo tempo. O álcool fazia o vazio que meu pai deixava parecer mais suportável, mas não o preenchia. Ele não era um homem bom, nunca foi. Muitas vezes, ele me tratava com a mesma frieza com que tratava seus inimigos. Sempre exigente, sempre rígido, raramente mostrava qualquer traço de carinho ou compreensão. O poder o havia consumido por completo, e isso o transformou em uma figura c***l e distante. Eu sabia disso. Mas ainda assim... ele era meu pai. Eu olhei ao redor do escritório, observando os mapas, contratos e fotografias que ainda adornavam as paredes. Esses papéis, essas marcas, eram os restos do império que ele havia construído. Tudo estava ali, mas sem ele, pareciam insignificantes. Quem ele foi? Um chefe da Bratva que governou com um punho de ferro, mas no fim, era apenas um homem com um coração fraco. E eu? O que restava para mim, agora que ele se foi? Sempre fui filha de Mickail Romanov, mas agora eu precisava ser mais. Muito mais. Tomei outro gole do conhaque, a bebida descia queimando, como sempre fazia, uma espécie de companheira silencioso nas minhas noites mais escuras. Nos últimos anos, ela havia se tornado mais do que uma bebida – era um aplacador das dores, das emoções reprimidas, e do desconforto constante que vinha crescendo no meu peito. Um desconforto que agora se fazia cada vez mais presente, apertando meu coração de uma maneira que não conseguia ignorar. Eu me perguntava, pela milésima vez, se teria herdado a mesma maldição que meu pai. Um coração fraco. Tomei outro gole, mas desta vez o conhaque não trouxe alívio. O líquido parecia pesar no estômago, enquanto uma dor lancinante atravessava minhas costelas, atingindo em cheio o coração. A dor veio tão de repente, tão forte, que por um momento achei que cairia no chão ali mesmo. Meu corpo começou a tremer, e eu agarrei a borda da mesa com força, tentando me manter de pé. A respiração ficou rasa, o suor frio escorria pela minha nuca, e minha visão começou a ficar embaçada. Cada batida do coração parecia errática, como se estivesse tentando fugir do peito. Não agora. Engoli em seco, lutando contra a fraqueza que ameaçava me dominar. Eu sabia que precisava sair dali, precisava chegar ao meu quarto antes que algum dos empregados me visse assim. A última coisa que eu precisava era mostrar fraqueza, ainda mais agora, no meio de toda essa tempestade de incerteza e morte. Forçando meu corpo a se mover, subi as escadas, cada passo me custando mais do que o anterior. As paredes da mansão pareciam se fechar ao meu redor, e por um momento, o mundo ficou pequeno e abafado, quase me sufocando. Apenas mais alguns passos... não desmaie, não agora, pensei repetidamente, como um mantra desesperado. Finalmente, alcancei meu quarto. Empurrei a porta e me joguei na cama, o corpo ainda trêmulo. Fechei os olhos, tentando regular a respiração, esperando que a dor passasse. Meu coração martelava no peito, cada batida fora de compasso me lembrando que, talvez, o legado de Mickail Romanov fosse mais do que apenas o império da Bratva. Talvez, ele tivesse me deixado algo que eu não poderia controlar – a mesma doença que o destruiu aos poucos.
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