Roman Ostrov
A reunião terminou, mas o peso dos olhares dos outros capitães permaneceu cravado em mim enquanto eu saía do prédio. Aqueles homens, que haviam dado suas vidas à Bratva, me encaravam como se eu fosse uma incógnita, um mistério que não conseguiam decifrar. Achavam que eu não pertencia a esse mundo? Eles não podiam estar mais enganados.
Dmitry foi o único que teve coragem de me cumprimentar. Seus olhos, embora tranquilos, carregavam uma mensagem sutil. Ele sabia algo. Provavelmente, informações sobre o Sistema Prisional Russo, o suficiente para entender que eu, Roman Ostrov, jamais cometeria o erro de m***r o chefe supremo da Bratva por engano. O seu gesto discreto confirmava o que eu já suspeitava — ele sabia que havia mais nessa história do que os outros imaginavam.
No carro, a volta para casa se desenrolava em um silêncio pesado. Ivan Ostrov, ao meu lado, parecia perdido nos labirintos de seus próprios pensamentos. Eu, por outro lado, mantinha meus olhos fixos na escuridão que passava pelas janelas, atento a cada lampejo das luzes da cidade, a cada sombra que dançava nas ruas desertas. Minha postura era impenetrável, as mãos repousavam tranquilas no colo, mas a minha mente estava afiada, processando cada detalhe da noite. Nada me escapava.
Finalmente, Ivan quebrou o silêncio.
— Você fez o que precisava ser feito, Roman — disse ele, sua voz firme, mas com uma satisfação sutil que não passou despercebida.
Virei-me lentamente para ele, avaliando seu rosto com cuidado. Ivan nunca me pareceu tão cínico quanto naquele momento.
— Assim como Nikolai — comecei, sem desviar o olhar — você deve saber que eu não matei Mikhail Romanov.
Surpresa brilhou em seu semblante por um breve momento, antes de ele recuperar o controle.
— Mesmo assim, a notícia que corre é que você eliminou o Chefe da Bratva — continuou ele, sua voz agora um pouco mais calculada. — Ninguém pode saber que não foi você. Se o conselho descobrir que você não passa de um conspirador, estaremos perdidos. O medo que eles têm de você é a nossa maior vantagem.
Eu mantive o olhar firme.
— Eu não preciso fazer nada além de esperar. Nikolai é previsível. Ele tentará manipular o conselho a seu favor, mas quando perceber que a narrativa não o favorece mais, ele será o próximo a cair. O que aconteceu com Mikhail Romanov, não ficará impune. A Bratva vai se fragmentar se eles não tiverem alguém forte o suficiente para controlar o caos.
Ivan bufou, sua expressão se fechando em algo próximo ao desdém.
— Você fala como se conhecesse bem o velho Mikhail — disse ele, seu tom um tanto amargo. — O homem estava morrendo de qualquer forma. Nunca ouvi falar de um Chefe da Bratva preso. Ele já não tinha mais poder para continuar no comando.
Eu me inclinei um pouco para frente, as palavras saindo com uma precisão cortante.
— Não existe poder quando se governa sozinho, Ivan. Não quando, à sua direita e à sua esquerda, estão os seus maiores inimigos, prontos para cravar uma faca nas suas costas.
Ivan ficou em silêncio por um longo momento, as engrenagens de sua mente girando. Ele sabia que eu estava certo. O verdadeiro poder na Bratva nunca esteve em quem comanda diretamente, mas em quem controla as correntes invisíveis que movem a organização.
— Você não sabe o que diz Roman. Quando a sua casa desmorona, qual a chance do clã sobreviver?
Ivan queria saber onde estava a minha lealdade. Além de confirmar, o que eu já suspeitava.
— Pela bratva e pelo sangue — respondi, com um sorriso nos lábios.
— Pela Bratva — continuou ele, a voz baixa e intensa — significa que você entrega sua vida pela irmandade. Mas pelo sangue... significa que você dá tudo pela família. Não esqueça disso, Roman. A Bratva pode ser a força que move tudo, mas a família... o sangue... é o pilar que sustenta o seu poder. E sem esses pilares, você desmorona. Lembre-se, Roman, a segunda organização mais poderosa depois da Bratva... é a família.
Ivan abriu o compartimento ao lado do assento e retirou uma pasta de couro, fina e bem organizada. Ele a estendeu para mim com um olhar firme, o tipo de olhar que eu conhecia bem.
— Vou para a Mansão Romanov. Cuidarei dos parentes mais próximos pessoalmente. Quanto aos mais distantes... — Ele fez uma pausa, deixando a tensão pairar no ar, como se estivesse saboreando o impacto de suas próximas palavras. — Isso é com você. Primos, tios, sobrinhos... cada um deles. Eles precisam desaparecer, Roman. Todos. Nikolai cavou a própria cova, cabe a nós enterrá-lo.
Eu olhei para a pasta por um momento antes de pegá-la. Dentro estavam os nomes, fotos e locais de cada um dos Romanov que ainda restavam. Uma lista precisa e meticulosa. Ivan havia planejado isso há muito tempo. E eu sabia que, por trás daquele olhar supostamente frustrado, ele já tinha se preparado para a derrota na votação. Ele sabia que não sairia como chefe da Bratva, mas isso não significava que ele deixaria de exercer seu poder à sua maneira.
Eu não disse nada, apenas saí do carro com a pasta em mãos. Do lado de fora, a outra equipe de meu pai já estava me esperando — homens duros e experientes, tão letais quanto eu. Eles sabiam o que estava por vir e não precisavam de explicações. Meus passos ecoaram no asfalto enquanto eu me aproximava deles, sentindo o peso das armas escondidas sob seus casacos. Eu troquei olhares com cada um, e em silêncio, todos sabíamos que o que vinha a seguir seria uma chacina.
Sem pensar em mais nada, guardei a pasta no casaco e fiz o que sempre soube fazer: m***r.
O sol já começava a iluminar o céu quando meus olhos se abriram. A luz atravessava as cortinas do quarto, mas não era o calor do sol que eu sentia. Era o peso do que havia feito. A camisa ainda estava colada ao meu corpo, manchada de sangue seco, vestígio da noite sangrenta que se desenrolara nas sombras. Cada mancha, cada respingo, uma lembrança do que eu havia me tornado.
Me sentei na beira da cama, o silêncio pesado me cercando. Meus músculos ainda doíam do esforço. O cheiro de sangue ainda parecia estar presente em mim, em todos os cantos do quarto. Precisava me livrar disso, precisava me limpar.
Levantei-me, arrancando a camisa com um movimento rápido, jogando-a no chão como se fosse o peso de tudo o que havia feito. O banheiro estava frio, o vapor da água quente subiu assim que abri o chuveiro, e sem hesitar, entrei debaixo da água, deixando o calor escorrer sobre minha pele. Fechei os olhos, deixando a água levar o que pudesse, mas, no fundo, sabia que as manchas reais não estavam no corpo. Estavam dentro de mim.
Saí do chuveiro, me enxugando com uma toalha áspera. Olhei para meu reflexo no espelho por um momento. O mesmo rosto que sempre vi, agora carregava um olhar ainda mais vazio, mais endurecido. Vestindo um terno escuro, ajustei a gravata com precisão e respirei fundo. Estava pronto para o que viria a seguir.
Eu fiz o que precisava ser feito para que as minhas palavras e decisões não fossem questionadas no futuro. Não havia beleza na morte, mas haviam formas de torná-las monstruosas. Eu precisava ser temido, e não pelos atos atribuídos a mim, mas pelo que eu realmente fiz, por quem realmente sou.
Era hora de encontrar meu pai.
Ele seria o primeiro a testemunhar a verdadeira face da sua criação.