Donatella Romanova
Era madrugada quando fui acordada por um som distante, abafado, que no começo achei ser parte de algum sonho. Mas, conforme minha mente saía do torpor, os barulhos se tornaram mais claros, mais reais. Tiros. Muitos tiros.
Meu coração disparou, e me sentei na cama, atordoada, tentando entender o que estava acontecendo. A mansão, normalmente envolta em silêncio, agora parecia um campo de batalha. Meus pensamentos corriam, confusos e desorientados, mas uma coisa era clara: estávamos sob ataque.
Levantei-me da cama de um salto, meus pés descalços tocando o chão frio enquanto tentava chegar à porta, mas antes que eu pudesse sequer fazer algo, a porta do meu quarto foi arrombada com um estrondo que fez todo o meu corpo tremer. Três homens vestidos de preto, armados e com o rosto coberto, invadiram o quarto. Antes que eu pudesse reagir, senti uma mão áspera agarrando meus cabelos com brutalidade, puxando-me de volta.
— Não! — Gritei, lutando contra o aperto feroz. Meu couro cabeludo queimava de dor enquanto eles me puxavam para o chão, mas mesmo assim, eu me debatia, tentando me livrar. O pavor se instalou em meu peito como uma pedra, tornando difícil até respirar.
Minha voz ecoou pelo quarto, mas era inútil. Eu já havia sido dominada. A arma de um dos soldados foi pressionada contra minha cabeça, o metal frio encostando em minha pele trêmula. Meu corpo congelou, e naquele momento eu soube que era o meu fim.
— Acabe com isso — ouvi um dos soldados dizer. Sua voz era impassível, sem emoção.
Fechei os olhos, esperando o pior, mas antes que o tiro fosse disparado, outra voz cortou o ar.
— Não. — A voz era grave, autoritária e conhecida. Ivan Ostrov.
Abri os olhos e o vi parado na porta do quarto, observando a cena à sua frente com uma calma que me deu arrepios. Ele se aproximou lentamente, seus olhos me analisando de cima a baixo. Eu sabia quem ele era. Todos na Bratva conheciam Ivan Ostrov, o Sub-chefe do papai, um dos homens mais temidos da organização, mas vê-lo tão de perto me fez entender por que ele era tão respeitado e temido.
Ele se aproximou, e com um gesto, afastou o soldado que ainda segurava minha cabeça, livrando-me da pressão da arma.
— Essa Romanova vale mais viva do que morta — ele disse, seus olhos frios fixos nos meus. — Levem-na para o porão da mansão Ostrov. Quero que fique fora de vista, mas sob vigilância constante.
O soldado que havia me segurado hesitou por um momento, mas um olhar de Ivan foi suficiente para fazê-lo obedecer sem questionar. Em segundos, eu fui puxada para cima e empurrada em direção à porta. Meu corpo tremia de medo e raiva, e eu não entendia como o meu coração conseguia bater tão depressa.
O porão da mansão Ostrov era um lugar frio e úmido, o ar pesado e impregnado pelo cheiro de mofo e terra. As paredes de pedra eram grossas, quase claustrofóbicas, e havia apenas uma única lâmpada pendurada no teto, que balançava levemente, projetando sombras irregulares sobre o chão de concreto. O silêncio ali era opressor, quebrado apenas pelo som das gotas de água que escorriam por uma das paredes.
Eu estava amarrada a uma cadeira, as cordas apertadas em torno dos meus pulsos e tornozelos, o corpo ainda dolorido das pancadas e da luta. A luz fraca fazia as sombras dançarem pelo ambiente, e eu me sentia pequena e insignificante, como se estivesse presa nas profundezas do inferno. Uma comparação singela, comparada a minha realidade atual.
Dois guardas, ambos com expressões inabaláveis, vigiavam a porta. Eu estava ali há horas, esperando o inevitável. Cada minuto passava como uma eternidade, mas por dentro, eu estava estranhamente calma. Era como se estivesse vendo tudo de fora, como se não fosse eu quem estava ali, amarrada naquela cadeira, mas outra pessoa. A distância emocional que construí ao longo dos anos era agora o que me protegia. Eu não me permitia sentir. Não mais.
O dia começava a nascer quando a porta do porão se abriu. Os primeiros raios de sol da manhã se infiltraram pela escada que levava ao piso superior, mas a luz logo foi bloqueada pela figura de Ivan Ostrov, que desceu os degraus com passos lentos e calculados. O eco de seus passos reverberava pelo porão, anunciando sua presença infâme.
— Está feito — disse ele, com aquela voz baixa e sombria. — Toda a família Romanov está morta. Primos, tios, sobrinhos... cada um deles. Não restou ninguém.
As palavras saíram de sua boca com uma frieza que gelava a alma. Aquele deveria ser o momento mais doloroso, quando tudo ao meu redor desmoronaria. Mas não foi. Eu estava tão profundamente perdida dentro de mim mesma que a dor não conseguia me alcançar. Não havia espaço para sentir mais nada.
Eu não reagi. Não gritei, não chorei. Não senti raiva. Em vez disso, o encarei com a mesma frieza que ele me oferecia. Meu olhar era vazio, quase apático, como se os acontecimentos se desenrolassem diante de mim sem realmente me tocar.
Ivan estreitou os olhos, provavelmente esperando alguma reação, qualquer que fosse. Mas não encontrou nada. Eu estava ali, presa à cadeira, vivendo cada segundo como uma espectadora, alheia ao próprio sofrimento.
— Não vai dizer nada? — Ele perguntou atônito. Como se não pudesse compreender a figura diante de si.
Eu continuei em silêncio, sem mover um músculo, meu olhar preso ao dele. Havia algo estranho naquele momento. Algo que Ivan não poderia entender. Ele esperava que eu implorasse, que chorasse, que me quebrasse diante dele. Mas eu não faria isso. Eu estava além da dor, além do medo. Não havia mais o que quebrar dentro de mim, e eu não entendia como isso podia ser possível.
Pelo menos, era nisso que eu acreditava.
Ivan deu um passo mais perto, inclinando-se levemente sobre mim, seu rosto a centímetros do meu. Eu podia sentir o cheiro de whisky em sua respiração, misturado com a arrogância de quem acabara de destruir uma linhagem inteira.
— Sua família está morta, Donatella. — Ele repetiu, como se quisesse me forçar a sentir alguma coisa, qualquer coisa. — Você é a última Romanova viva.