CAPÍTULO 25 — QUANDO O SILÊNCIO VIRA ABRIGO

724 Palavras
A chuva continuou pela cidade durante toda a noite. O café onde tudo aconteceu já estava fechado, mas Hana e Ji-Won permaneceram lá dentro, sentados em silêncio, olhando para o vidro embaçado pelas gotas. O som da chuva preenchia o espaço entre eles — um som tranquilo, hipnótico, quase protetor. Era a primeira vez em muito tempo que nenhum dos dois precisava se explicar. Só existir. Ji-Won quebrou o silêncio primeiro: — Eu tinha esquecido como a chuva pode ser bonita quando você não está tentando se esconder dela. Hana olhou de lado, um sorriso pequeno nos lábios. — É… às vezes a gente passa tanto tempo fugindo da tempestade que esquece de olhar o céu. Ele virou o rosto, e por um instante, o olhar dos dois se encontrou — calmo, profundo, cheio de entendimento. O tipo de olhar que não pede perdão, mas oferece refúgio. — Está com frio? — Ji-Won perguntou, notando os ombros dela tremendo. Hana negou, mas ele já estava tirando o casaco. Colocou sobre ela com cuidado, os dedos roçando a pele do pescoço. O toque era simples, mas carregava um tipo de carinho que dispensava palavras. — Você faz isso toda vez — ela murmurou. — O quê? — Me cobrir, mesmo quando eu digo que estou bem. Ele deu um meio sorriso. — Talvez porque eu aprendi que “estou bem” é o que a gente diz quando quer parecer forte. Ela abaixou o olhar, tocando o tecido do casaco. — E você? Está bem, de verdade? Ji-Won ficou em silêncio por um momento. Depois respondeu, com a voz baixa: — Pela primeira vez, sim. Ele olhou para ela. — E você? Hana respirou fundo. — Pela primeira vez, eu sinto que posso estar. O barulho da chuva ficou mais forte, como se o mundo estivesse aplaudindo a sinceridade dos dois. Ji-Won se inclinou um pouco, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Quando eu te conheci, achei que você era a pessoa que ia me complicar. — E eu fui? — ela provocou. Ele riu baixinho. — Foi. Mas também foi a única que me fez querer ser alguém melhor. Hana sorriu, e o sorriso veio de dentro — calmo, verdadeiro, limpo. — E você… foi a pessoa que me mostrou que o amor pode ser imperfeito e ainda assim valer a pena. Ji-Won ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. Depois, devagar, estendeu a mão e entrelaçou os dedos nos dela. — A gente passou por tanto… — ele murmurou. — E mesmo assim, estamos aqui. Hana olhou para o entrelace das mãos e disse: — Porque, no fim, o que fica não é quem vence a briga. É quem fica depois dela. O sorriso de Ji-Won se tornou triste e bonito ao mesmo tempo. — Então eu fico. — Ele apertou de leve a mão dela. — Mesmo quando for difícil. Mesmo quando eu não souber o que dizer. Eu fico. Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Eu também. O tempo passou devagar ali dentro. A chuva virou uma melodia constante, o frio deixou de incomodar, e os dois ficaram simplesmente juntos — sem planos, sem promessas, só presença. Em algum momento, Hana fechou os olhos. Ji-Won olhou para ela e sorriu, um sorriso pequeno, quase tímido. Pela primeira vez, sentia paz. Não o tipo de paz vazia — mas a que vem depois de lutar, de perder, de se perdoar. Ele passou os dedos pelos cabelos dela, um gesto instintivo, protetor. E sussurrou: — Obrigado por ficar. Ela abriu os olhos, sonolenta. — Eu não fiquei… — disse baixinho. — A gente ficou. Ji-Won riu, encostando a testa na dela. — É. A gente ficou. Do lado de fora, o vento diminuía, e as primeiras luzes da madrugada nasciam sobre a cidade. Hana levantou o rosto, os olhos ainda cansados, mas tranquilos. — Acho que a chuva está parando. — Então é hora de ir pra casa — ele respondeu. — Ou de ficar um pouco mais — ela sussurrou, e ele sorriu, cedendo à vontade de simplesmente ficar. A chuva terminou, mas ali dentro, o amor deles ainda estava nascendo — devagar, suave, como o som das últimas gotas escorrendo pelo vidro. Não havia mais urgência. Não havia mais medo. Só eles, e o silêncio que, enfim, se tornava abrigo.
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