CAPÍTULO 46 — PROMESSAS QUE NÃO PRECISAM SER DITAS

680 Palavras
A cidade estava silenciosa naquela noite, como se também aguardasse algo. Hana desligou a luz da sala e deixou apenas o abajur aceso, criando sombras suaves nas paredes. O apartamento não era grande, mas parecia um abrigo — não do mundo, e sim das expectativas dele. Ji-Won estava na varanda, observando as luzes distantes. Quando Hana se aproximou, ele sentiu antes de ver. — Não conseguiu dormir? — ele perguntou. — Não quis — ela respondeu, encostando-se ao lado dele. — Hoje eu precisava estar acordada. Ji-Won a olhou com cuidado. Não havia medo no rosto dela. Havia decisão. — Tudo está prestes a mudar — ele disse. — E eu não sei exatamente como. Hana sorriu de leve. — Nem eu. Mas, pela primeira vez, isso não me apavora. Ela pegou a mão dele. O gesto era simples, mas carregado de intenção. — Ji-Won… — ela começou — quando tudo isso terminar, eu não quero voltar a quem eu era antes. Ele franziu levemente a testa. — E quem você quer ser? — Alguém que não se esconde quando ama. — Ela respirou fundo. — Alguém que não aceita menos do que verdade. Ji-Won sentiu o coração apertar — não de dor, mas de reconhecimento. — Eu quero ser o homem que fica — ele disse. — Não o que salva, não o que manda… o que permanece. Hana virou-se para ele. — Permanecer dá mais trabalho do que salvar. — Eu sei. — Ele sorriu. — E ainda assim, eu escolho. Ela apoiou a testa no peito dele. O coração dele batia firme, constante — como se estivesse no ritmo certo. — Promete que, se eu fraquejar… — ela sussurrou — você não vai decidir por mim? Ji-Won fechou os olhos por um instante. — Prometo caminhar com você. Mesmo quando eu discordar. Mesmo quando for difícil. Hana respirou fundo. — Então eu prometo não fugir quando doer. Eles ficaram assim por alguns minutos, sem pressa, ouvindo o som distante da cidade. Não era paixão urgente. Era algo mais raro: segurança. Mais tarde, no quarto, Hana estava sentada na cama, folheando o caderno onde havia escrito seus limites e escolhas. Ji-Won observava em silêncio. — Posso ver? — ele perguntou. Ela hesitou por um segundo… e entregou. Ele leu devagar. Cada palavra era um pedaço dela. — Isso é coragem — ele disse, devolvendo o caderno. — Não — Hana respondeu. — Isso é sobrevivência com dignidade. Ji-Won se aproximou e sentou-se ao lado dela. — Seja o que for que aconteça amanhã… — ele disse — eu quero que você saiba que não estou aqui por obrigação, nem por culpa. Estou porque escolhi você. Hana sentiu os olhos marejarem. — Eu passei muito tempo achando que precisava merecer amor — ela confessou. — Hoje eu só quero viver um que não me diminua. Ji-Won segurou o rosto dela entre as mãos. — Então fica comigo. Do jeito inteiro. Hana assentiu. O beijo que veio depois não foi urgente. Foi calmo. Cheio de reconhecimento. Um beijo de quem entende que amar não é se perder — é se encontrar no outro sem desaparecer. Quando se deitaram, o silêncio voltou. Mas era um silêncio bom. Hana se aconchegou no abraço dele, sentindo o corpo relaxar. — Você acha que ela vai tentar algo mais? — ela perguntou. Ji-Won pensou por um instante. — Acho que sim. — respondeu com honestidade. — Mas acho também que ela já perdeu o que mais importava: o controle sobre você. Hana sorriu, com os olhos fechados. — Então eu estou pronta. Ji-Won beijou o topo da cabeça dela. — Eu também. Naquela noite, nenhum dos dois dormiu profundamente. Mas também não houve medo. Havia expectativa. Porque quando duas pessoas escolhem ficar — não por carência, não por impulso, mas por verdade — o amor deixa de ser abrigo… e vira aliança. E, do lado de fora, enquanto a cidade seguia seu curso, uma certeza silenciosa se firmava entre eles: o próximo capítulo não seria de fuga. Seria de enfrentamento. Juntos.
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