A noite caiu pesada sobre a cidade, mas o apartamento de Hana estava estranhamente silencioso.
Não um silêncio vazio.
Um silêncio atento — como se algo importante estivesse prestes a acontecer.
Ji-Won estava sentado no sofá, a gravata jogada de lado, o paletó esquecido na cadeira.
Hana observava da cozinha, sentindo o peso dos últimos dias finalmente se acomodar no corpo.
— Você não precisa ficar — ela disse, quebrando o silêncio.
Ji-Won levantou o olhar.
— Eu sei. — Ele fez uma pausa. — Mas eu quero.
Ela assentiu, caminhando até ele.
Sentou-se ao lado, deixando um espaço pequeno entre os dois — não por distância emocional, mas por respeito ao que ainda cicatrizava.
— Hoje foi difícil — Hana disse.
— Para nós dois — ele respondeu.
Hana respirou fundo.
— Quando tudo isso começou… — ela olhou para as próprias mãos — eu achei que amar você significaria me perder de mim.
Ji-Won se virou para ela, atento.
— E agora?
— Agora eu entendo que amor não é alguém te salvar. — Ela ergueu os olhos. — É alguém ficar quando você decide se salvar sozinha.
Ji-Won sentiu o peito apertar.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Eu estou aprendendo — disse. — A te amar sem te silenciar. Sem decidir por você.
Hana sorriu de leve.
— Eu vejo.
Ela apoiou a cabeça no ombro dele.
Ji-Won hesitou por um segundo… e então passou o braço ao redor dela.
O contato foi simples.
Seguro.
Necessário.
— Fica comigo hoje? — Hana perguntou, quase num sussurro.
— Eu fico — ele respondeu. — Do jeito certo.
Eles ficaram ali, sem urgência, sentindo o coração desacelerar.
Não havia promessas grandiosas.
Só presença.
Do outro lado da cidade, Yoon-Hee não conseguia ficar parada.
O processo que ela tinha aberto deveria tê-la colocado no controle.
Mas algo estava errado.
— Onde está o relatório completo? — ela perguntou, ríspida, ao telefone.
— Senhora… — a voz do assessor soava tensa — houve um problema.
— Que problema?
— Um dos documentos usados na ação… não passou pela auditoria. Há inconsistências de data e origem.
O sangue de Yoon-Hee gelou.
— Isso é impossível.
— Não é. — O homem hesitou. — Se isso for questionado, pode parecer… manipulação.
Yoon-Hee desligou sem responder.
— d***a… — murmurou, andando pelo escritório.
Ela tinha agido rápido demais.
Com raiva demais.
E esquecera a regra básica do poder: não deixar rastros.
Abriu o laptop e começou a revisar arquivos antigos.
E então viu.
Um e-mail.
Antigo.
Enviado por ela mesma anos atrás.
O assunto fez o estômago revirar:
“Caso Hana Lee — acompanhamento.”
— Não… — sussurrou.
Ela tentou apagar.
Mas já era tarde.
Na mesma noite, Ji-Won recebeu uma mensagem do departamento jurídico.
“Encontramos inconsistências graves na ação de Yoon-Hee. Há indícios de uso de documentos manipulados e rastros de monitoramento ilegal.”
Ji-Won fechou os olhos por um instante.
Depois olhou para Hana, que dormia encostada nele, tranquila pela primeira vez em dias.
— Acabou — murmurou. — Você se expôs sozinha.
Na manhã seguinte, Hana acordou com o celular vibrando.
Era Ji-Won.
— Ela cometeu um erro — ele disse, direto. — Um erro grande.
Hana sentou-se na cama.
— Que tipo de erro?
— Do tipo que muda o jogo. — Ele respirou fundo. — Há provas de que ela te investigava antes mesmo de vocês se conhecerem.
O coração de Hana bateu forte.
— Então… não era paranoia.
— Nunca foi.
Hana fechou os olhos.
Sentiu algo novo surgir por dentro.
Não alívio.
Justiça se aproximando.
— O que acontece agora? — ela perguntou.
— Agora — Ji-Won respondeu — ela não está mais no ataque. Está na defesa.
Hana sorriu, com calma.
— Então é minha vez de decidir o próximo passo.
Ji-Won ouviu firmeza na voz dela.
Não dor.
Não medo.
Força.
— Eu estou com você — ele disse.
— Eu sei. — Hana respondeu. — E dessa vez… vamos caminhar lado a lado.
Ela desligou o telefone e olhou pela janela.
O céu ainda estava nublado.
Mas, pela primeira vez, parecia haver luz suficiente para atravessar a tempestade.
Yoon-Hee tinha errado.
E erros, quando expostos…
se transformam em queda.