CAPÍTULO 8 — A CHUVA QUE CONFESSA O QUE ELE NÃO DIZ

925 Palavras
A noite caiu pesada sobre Seul, carregada de nuvens escuras que pareciam refletir exatamente o clima dentro de Hana. Desde a reunião, desde o confronto, desde o olhar cortante de Soo-Yeon… algo dentro dela pesava. Ela precisava respirar. Precisava sair dali antes que o mundo desabasse inteiro em cima do peito. Sem avisar ninguém, ela pegou a bolsa, atravessou o saguão e empurrou as portas de vidro da Haneul Corp. E foi como empurrar um véu entre dois mundos. A chuva a atingiu imediatamente — grossa, fria, quase violenta. Mas ela não se importou. Deixou-se molhar enquanto caminhava rápido pela calçada iluminada pelo reflexo das luzes de neon. Passou a mão no rosto, tentando distinguir o que era chuva e o que era lágrima. — Eu só queria um lugar para recomeçar… — sussurrou, com a voz embargada. Mas não sabia que alguém a observava. No alto da escadaria corporativa, Ji-Won estava parado sob a marquise, olhando para ela como se ver Hana indo embora fosse um soco que tirava seu ar. Ele não sabia quando tinha perdido o controle. Só sabia que perder Hana ali, naquela chuva, naquele estado… era simplesmente impossível. Quando ela virou a esquina, Ji-Won desceu as escadas num impulso que nem ele entendia. — Hana! — sua voz ecoou. Ela não ouviu. Ou talvez não quisesse ouvir. Ele correu atrás dela, sentindo a água encharcar seu terno, grudar nos cabelos, escorrer sobre a pele quente e furiosa. Ji-Won não lembra de ter corrido assim desde a infância — como se algo valesse a vida. E dessa vez, valia mesmo. Quando finalmente a alcançou, tocou seu braço com firmeza. — Hana! Pare! Ela congelou. A chuva caiu mais forte, como se o universo soubesse que aquela era uma cena que ninguém esqueceria. Hana virou lentamente o rosto, seus olhos brilhando sob as gotas. — O que você quer, Ji-Won? — perguntou, com a voz quebrada. — Já não bastou hoje? Ele respirava ofegante, a camisa colada ao corpo, o cabelo bagunçado pela tempestade. Parecia tão humano ali que doía. — Eu… — ele tentou falar, mas a voz falhou. Droga. Ji-Won nunca falhava. — Por que veio atrás de mim? — Hana perguntou, dando um passo para trás. Ele avançou um passo para frente. — Porque eu não aguento te ver indo embora assim. Hana desviou o olhar, apertando os lábios enquanto a chuva escorria sobre seu rosto. — Eu estou cansada, Ji-Won. Cansada disso. Da sensação de que estou sempre incomodando. De ser acusada. De ter que provar meu valor todos os dias. E você… — ela respirou fundo — você é parte disso também. Ele recebeu o golpe como se fosse verdade absoluta. E era. — Eu sei — Ji-Won disse, com honestidade que cortava. — Sei que tenho sido… difícil. “Difícil” não era a palavra. Ele era um muro. E ela batia nele todos os dias. — Então por que veio? — Hana insistiu. — Por que correr atrás de mim agora, debaixo dessa chuva? Ele deu mais um passo, aproximando-se dela até que só a chuva os separava. — Porque… — a voz saiu baixa, rouca, humana — …você me importa. Hana fechou os olhos por um segundo. Como se a frase fosse um golpe e, ao mesmo tempo, um alívio. — Você não costuma se importar — ela respondeu. — Eu sei. Silêncio. Tenso. Carregado. Vivo. A chuva caía como cortinas, molhando tudo ao redor. A cidade parecia desaparecer, deixando só os dois ali, naquela rua, naquela verdade. — Hana — Ji-Won chamou, mais suave desta vez. Ela abriu os olhos lentamente. — Hoje… quando você enfrentou Soo-Yeon… quando você me olhou daquele jeito… — ele respirou fundo — …eu percebi que não posso deixar você enfrentar tudo sozinha. Ela mordeu o lábio, sentindo o coração bater rápido demais. — Você não pode ser quem decide o que eu enfrento sozinha ou não — respondeu, com firmeza. Ji-Won assentiu. — Tem razão. Ele deu um passo ainda mais próximo. Agora os dois estavam tão perto que o calor dos corpos quebrava a frieza da chuva. — Então me diga — Ji-Won pediu, quase em súplica — o que você quer que eu faça? A pergunta ficou pairando no ar como eletricidade. Hana sentiu o peito apertar. Ela nunca tinha visto Ji-Won assim. Vulnerável. Derretido. Sem máscaras. — Eu quero que você pare de fugir do que sente — ela disse. A expressão dele mudou. Os olhos escuros brilharam. E ele ficou em silêncio por alguns segundos — um silêncio que dizia mais que qualquer palavra. Finalmente, ele abriu a boca. — Eu estou tentando. A frase saiu tão sincera, tão falha, tão humana… que Hana sentiu as defesas caírem. Ele ergueu a mão lentamente e tocou o rosto dela — o toque tão leve que m*l parecia real. — Hana… — Ji-Won sussurrou, os lábios a poucos centímetros dos dela — …não vá embora assim. Não hoje. Ela inspirou profundamente, sentindo o coração explodir. — Então não me deixe sozinha — respondeu. A respiração dele falhou. Ele se inclinou. Ela também. O mundo prendeu o ar. E quando os lábios estavam prestes a se encontrar— Um carro buzinou ao virar a esquina, jogando água no asfalto e interrompendo a cena como um alerta brusco da realidade. Hana recuou meio passo, o peito subindo e descendo rápido. Ji-Won fechou os olhos, frustrado, tenso, quase desesperado. Os dois ficaram ali, embaixo da chuva, encarando a verdade que quase aconteceu. E que inevitavelmente… ainda vai acontecer.
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