A noite caiu pesada sobre Seul, carregada de nuvens escuras que pareciam refletir exatamente o clima dentro de Hana.
Desde a reunião, desde o confronto, desde o olhar cortante de Soo-Yeon… algo dentro dela pesava.
Ela precisava respirar.
Precisava sair dali antes que o mundo desabasse inteiro em cima do peito.
Sem avisar ninguém, ela pegou a bolsa, atravessou o saguão e empurrou as portas de vidro da Haneul Corp.
E foi como empurrar um véu entre dois mundos.
A chuva a atingiu imediatamente — grossa, fria, quase violenta.
Mas ela não se importou.
Deixou-se molhar enquanto caminhava rápido pela calçada iluminada pelo reflexo das luzes de neon.
Passou a mão no rosto, tentando distinguir o que era chuva e o que era lágrima.
— Eu só queria um lugar para recomeçar… — sussurrou, com a voz embargada.
Mas não sabia que alguém a observava.
No alto da escadaria corporativa, Ji-Won estava parado sob a marquise, olhando para ela como se ver Hana indo embora fosse um soco que tirava seu ar.
Ele não sabia quando tinha perdido o controle.
Só sabia que perder Hana ali, naquela chuva, naquele estado…
era simplesmente impossível.
Quando ela virou a esquina, Ji-Won desceu as escadas num impulso que nem ele entendia.
— Hana! — sua voz ecoou.
Ela não ouviu.
Ou talvez não quisesse ouvir.
Ele correu atrás dela, sentindo a água encharcar seu terno, grudar nos cabelos, escorrer sobre a pele quente e furiosa.
Ji-Won não lembra de ter corrido assim desde a infância — como se algo valesse a vida.
E dessa vez, valia mesmo.
Quando finalmente a alcançou, tocou seu braço com firmeza.
— Hana! Pare!
Ela congelou.
A chuva caiu mais forte, como se o universo soubesse que aquela era uma cena que ninguém esqueceria.
Hana virou lentamente o rosto, seus olhos brilhando sob as gotas.
— O que você quer, Ji-Won? — perguntou, com a voz quebrada. — Já não bastou hoje?
Ele respirava ofegante, a camisa colada ao corpo, o cabelo bagunçado pela tempestade.
Parecia tão humano ali que doía.
— Eu… — ele tentou falar, mas a voz falhou.
Droga.
Ji-Won nunca falhava.
— Por que veio atrás de mim? — Hana perguntou, dando um passo para trás.
Ele avançou um passo para frente.
— Porque eu não aguento te ver indo embora assim.
Hana desviou o olhar, apertando os lábios enquanto a chuva escorria sobre seu rosto.
— Eu estou cansada, Ji-Won. Cansada disso. Da sensação de que estou sempre incomodando. De ser acusada. De ter que provar meu valor todos os dias. E você… — ela respirou fundo — você é parte disso também.
Ele recebeu o golpe como se fosse verdade absoluta.
E era.
— Eu sei — Ji-Won disse, com honestidade que cortava. — Sei que tenho sido… difícil.
“Difícil” não era a palavra.
Ele era um muro.
E ela batia nele todos os dias.
— Então por que veio? — Hana insistiu. — Por que correr atrás de mim agora, debaixo dessa chuva?
Ele deu mais um passo, aproximando-se dela até que só a chuva os separava.
— Porque… — a voz saiu baixa, rouca, humana — …você me importa.
Hana fechou os olhos por um segundo.
Como se a frase fosse um golpe e, ao mesmo tempo, um alívio.
— Você não costuma se importar — ela respondeu.
— Eu sei.
Silêncio.
Tenso.
Carregado.
Vivo.
A chuva caía como cortinas, molhando tudo ao redor.
A cidade parecia desaparecer, deixando só os dois ali, naquela rua, naquela verdade.
— Hana — Ji-Won chamou, mais suave desta vez.
Ela abriu os olhos lentamente.
— Hoje… quando você enfrentou Soo-Yeon… quando você me olhou daquele jeito… — ele respirou fundo — …eu percebi que não posso deixar você enfrentar tudo sozinha.
Ela mordeu o lábio, sentindo o coração bater rápido demais.
— Você não pode ser quem decide o que eu enfrento sozinha ou não — respondeu, com firmeza.
Ji-Won assentiu.
— Tem razão.
Ele deu um passo ainda mais próximo.
Agora os dois estavam tão perto que o calor dos corpos quebrava a frieza da chuva.
— Então me diga — Ji-Won pediu, quase em súplica — o que você quer que eu faça?
A pergunta ficou pairando no ar como eletricidade.
Hana sentiu o peito apertar.
Ela nunca tinha visto Ji-Won assim.
Vulnerável.
Derretido.
Sem máscaras.
— Eu quero que você pare de fugir do que sente — ela disse.
A expressão dele mudou.
Os olhos escuros brilharam.
E ele ficou em silêncio por alguns segundos — um silêncio que dizia mais que qualquer palavra.
Finalmente, ele abriu a boca.
— Eu estou tentando.
A frase saiu tão sincera, tão falha, tão humana… que Hana sentiu as defesas caírem.
Ele ergueu a mão lentamente e tocou o rosto dela — o toque tão leve que m*l parecia real.
— Hana… — Ji-Won sussurrou, os lábios a poucos centímetros dos dela — …não vá embora assim. Não hoje.
Ela inspirou profundamente, sentindo o coração explodir.
— Então não me deixe sozinha — respondeu.
A respiração dele falhou.
Ele se inclinou.
Ela também.
O mundo prendeu o ar.
E quando os lábios estavam prestes a se encontrar—
Um carro buzinou ao virar a esquina, jogando água no asfalto e interrompendo a cena como um alerta brusco da realidade.
Hana recuou meio passo, o peito subindo e descendo rápido.
Ji-Won fechou os olhos, frustrado, tenso, quase desesperado.
Os dois ficaram ali, embaixo da chuva, encarando a verdade que quase aconteceu.
E que inevitavelmente…
ainda vai acontecer.