CAPÍTULO 7 — A NOITE EM QUE OS MUROS TREMERAM

882 Palavras
O toque da mão de Ji-Won permanecia queimando na pele de Hana muito depois de ele ter soltado seus dedos. Era como se aquele contato tivesse aberto algo dentro dela — uma brecha silenciosa em um homem que vivia fechado para o mundo. Mas a noite ainda não tinha terminado. Naquele mesmo dia, a diretoria convocou uma reunião de emergência. A empresa enfrentava uma instabilidade no setor internacional, e todos os coordenadores deveriam estar presentes. Hana, por ser parte do novo projeto, foi chamado também. A sala de reuniões era grande, fria e cheia de olhares que pesavam sobre ela. Quando Hana entrou, sentiu o ar mudar. Alguns a encaravam como se fosse intrusa, outros apenas curiosos sobre “a estrangeira que o CEO anda protegendo”. Ji-Won estava sentado à cabeceira, postura impecável, mas Hana notou algo diferente nele — uma tensão nos ombros, um músculo travado no maxilar, uma raiva silenciosa direcionada a alguém. Soo-Yeon. Ela estava sentada à esquerda de Ji-Won, com um sorriso tão perfeito que era quase uma obra de arte. Mas seus olhos… seus olhos queimavam com veneno. Hana sentou-se no lugar mais discreto possível. As apresentações começaram, planilhas surgiram na tela, e a reunião seguiu de forma monótona… até que Soo-Yeon pediu a palavra. — Eu gostaria de levantar um ponto sobre o relatório do setor internacional. — Sua voz era suave demais, o que nunca era um bom sinal. — Algumas informações parecem inconsistentes. E coincidentemente… são da parte enviada pela funcionária nova. Todos olharam para Hana. Soo-Yeon continuou: — Não estou afirmando que ela errou — disse, com tom de falsa inocência — mas, considerando seu histórico profissional incompleto, talvez devêssemos rever sua participação no projeto. Hana sentiu o rosto queimar. “Histórico incompleto.” Era a forma elegante de dizer que ela tinha mudado de país após um divórcio, que havia passado meses desempregada, que tinha recomeçado do zero. Uma agressão disfarçada de cuidado. Ji-Won fechou o laptop devagar. Cada centímetro que a tampa descia parecia elevar o silêncio na sala. — Soo-Yeon — ele disse, com voz baixa — você está sugerindo que Hana é incompetente? Um frio percorreu a espinha de todos. A voz dele não era alta. Mas carregava uma ameaça. — Claro que não — disse a vilã, sorrindo. — Estou apenas preocupada com a empresa. Hana apertou as mãos, tentando manter a calma. Ela não deveria falar. Não deveria se meter. Mas algo dentro dela… disse basta. — Eu posso responder — Hana disse, antes de pensar. Todos a encararam, inclusive Ji-Won, que parecia prestes a impedi-la. Mas ela manteve a posição. — Se há algo incoerente, posso corrigir. — Sua voz saiu firme. — Mas não aceito que meu passado seja usado como motivo para duvidarem do meu trabalho. Um silêncio mortal se espalhou. Soo-Yeon arqueou a sobrancelha. — Meu comentário não foi sobre seu passado. Foi sim. Todos sabiam. Ji-Won inclinou-se para frente, apoiando os braços na mesa. — Basta — ele declarou. — O relatório está correto. Eu revisei pessoalmente. Se antes o silêncio era pesado, agora era cortante. Ji-Won nunca revisava relatórios de funcionários novos. Nunca colocava sua palavra para defendê-los. Soo-Yeon estreitou os olhos, furiosa. — Então está dizendo que eu estou errada? — perguntou ela. — Estou dizendo — respondeu ele, encarando-a diretamente — que você está ultrapassando limites. A sala inteira prendeu a respiração. Era a primeira vez que um conflito tão claro acontecia entre os dois. E não era por causa de trabalho. Todos sabiam. Era por causa de Hana. A reunião terminou com clima de caos silencioso. Conforme as pessoas saíam, cochichavam, trocavam mensagens, alimentavam fofocas que nasceriam fortes pela manhã. Hana levantou-se para ir embora, sem saber onde colocar os olhos, quando Ji-Won chamou: — Hana. Fique um minuto. O tom dele fez seu coração falhar uma batida. A sala ficou vazia. Ji-Won respirou fundo antes de dizer: — Você não precisava ter respondido. — Precisava sim — ela murmurou. — Se eu continuar calada, ela vai continuar fazendo isso. Os dois se encararam. — Eu estou tentando te proteger — Ji-Won disse, com frustração despercebida escapando na voz. — Eu não preciso ser protegida — Hana rebateu. — Preciso ser respeitada. Ele ficou em silêncio por longos segundos. Então… algo raro aconteceu. Ele desviou o olhar primeiro. — Você tem razão — disse, quase num sussurro. Quando ergueu de novo o rosto, havia algo diferente em seus olhos. Um brilho que era tão suave quanto perigoso. Como se ele tivesse entendido algo sobre ela… ou sobre si mesmo. — Hana… — ele começou, dando um passo na direção dela — sobre o que aconteceu hoje mais cedo, no corredor… Ela sentiu o ar prender no peito. Mas antes que ele pudesse continuar, a porta se abriu bruscamente. Soo-Yeon estava lá. Os olhos dela eram pura fúria contida. — Ji-Won — disse com um sorriso que não alcançava os olhos — precisamos conversar. Agora. Ji-Won cerrou o punho. Hana sabia que aquilo era apenas o começo da guerra. Mas quando saiu da sala, com o coração batendo forte demais, ela percebeu algo: Pela primeira vez… ela não tinha medo. Por quê? Porque, mesmo que ele não admitisse… Ji-Won estava do lado dela. E isso mudava tudo.
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