O toque da mão de Ji-Won permanecia queimando na pele de Hana muito depois de ele ter soltado seus dedos. Era como se aquele contato tivesse aberto algo dentro dela — uma brecha silenciosa em um homem que vivia fechado para o mundo.
Mas a noite ainda não tinha terminado.
Naquele mesmo dia, a diretoria convocou uma reunião de emergência. A empresa enfrentava uma instabilidade no setor internacional, e todos os coordenadores deveriam estar presentes. Hana, por ser parte do novo projeto, foi chamado também.
A sala de reuniões era grande, fria e cheia de olhares que pesavam sobre ela.
Quando Hana entrou, sentiu o ar mudar. Alguns a encaravam como se fosse intrusa, outros apenas curiosos sobre “a estrangeira que o CEO anda protegendo”.
Ji-Won estava sentado à cabeceira, postura impecável, mas Hana notou algo diferente nele —
uma tensão nos ombros,
um músculo travado no maxilar,
uma raiva silenciosa direcionada a alguém.
Soo-Yeon.
Ela estava sentada à esquerda de Ji-Won, com um sorriso tão perfeito que era quase uma obra de arte. Mas seus olhos… seus olhos queimavam com veneno.
Hana sentou-se no lugar mais discreto possível.
As apresentações começaram, planilhas surgiram na tela, e a reunião seguiu de forma monótona… até que Soo-Yeon pediu a palavra.
— Eu gostaria de levantar um ponto sobre o relatório do setor internacional. — Sua voz era suave demais, o que nunca era um bom sinal.
— Algumas informações parecem inconsistentes. E coincidentemente… são da parte enviada pela funcionária nova.
Todos olharam para Hana.
Soo-Yeon continuou:
— Não estou afirmando que ela errou — disse, com tom de falsa inocência — mas, considerando seu histórico profissional incompleto, talvez devêssemos rever sua participação no projeto.
Hana sentiu o rosto queimar.
“Histórico incompleto.”
Era a forma elegante de dizer que ela tinha mudado de país após um divórcio, que havia passado meses desempregada, que tinha recomeçado do zero.
Uma agressão disfarçada de cuidado.
Ji-Won fechou o laptop devagar. Cada centímetro que a tampa descia parecia elevar o silêncio na sala.
— Soo-Yeon — ele disse, com voz baixa — você está sugerindo que Hana é incompetente?
Um frio percorreu a espinha de todos.
A voz dele não era alta. Mas carregava uma ameaça.
— Claro que não — disse a vilã, sorrindo. — Estou apenas preocupada com a empresa.
Hana apertou as mãos, tentando manter a calma.
Ela não deveria falar.
Não deveria se meter.
Mas algo dentro dela… disse basta.
— Eu posso responder — Hana disse, antes de pensar.
Todos a encararam, inclusive Ji-Won, que parecia prestes a impedi-la.
Mas ela manteve a posição.
— Se há algo incoerente, posso corrigir. — Sua voz saiu firme. — Mas não aceito que meu passado seja usado como motivo para duvidarem do meu trabalho.
Um silêncio mortal se espalhou.
Soo-Yeon arqueou a sobrancelha.
— Meu comentário não foi sobre seu passado.
Foi sim. Todos sabiam.
Ji-Won inclinou-se para frente, apoiando os braços na mesa.
— Basta — ele declarou. — O relatório está correto. Eu revisei pessoalmente.
Se antes o silêncio era pesado, agora era cortante.
Ji-Won nunca revisava relatórios de funcionários novos.
Nunca colocava sua palavra para defendê-los.
Soo-Yeon estreitou os olhos, furiosa.
— Então está dizendo que eu estou errada? — perguntou ela.
— Estou dizendo — respondeu ele, encarando-a diretamente — que você está ultrapassando limites.
A sala inteira prendeu a respiração.
Era a primeira vez que um conflito tão claro acontecia entre os dois.
E não era por causa de trabalho.
Todos sabiam.
Era por causa de Hana.
A reunião terminou com clima de caos silencioso.
Conforme as pessoas saíam, cochichavam, trocavam mensagens, alimentavam fofocas que nasceriam fortes pela manhã.
Hana levantou-se para ir embora, sem saber onde colocar os olhos, quando Ji-Won chamou:
— Hana. Fique um minuto.
O tom dele fez seu coração falhar uma batida.
A sala ficou vazia.
Ji-Won respirou fundo antes de dizer:
— Você não precisava ter respondido.
— Precisava sim — ela murmurou. — Se eu continuar calada, ela vai continuar fazendo isso.
Os dois se encararam.
— Eu estou tentando te proteger — Ji-Won disse, com frustração despercebida escapando na voz.
— Eu não preciso ser protegida — Hana rebateu. — Preciso ser respeitada.
Ele ficou em silêncio por longos segundos.
Então… algo raro aconteceu.
Ele desviou o olhar primeiro.
— Você tem razão — disse, quase num sussurro.
Quando ergueu de novo o rosto, havia algo diferente em seus olhos.
Um brilho que era tão suave quanto perigoso.
Como se ele tivesse entendido algo sobre ela… ou sobre si mesmo.
— Hana… — ele começou, dando um passo na direção dela — sobre o que aconteceu hoje mais cedo, no corredor…
Ela sentiu o ar prender no peito.
Mas antes que ele pudesse continuar, a porta se abriu bruscamente.
Soo-Yeon estava lá.
Os olhos dela eram pura fúria contida.
— Ji-Won — disse com um sorriso que não alcançava os olhos — precisamos conversar. Agora.
Ji-Won cerrou o punho.
Hana sabia que aquilo era apenas o começo da guerra.
Mas quando saiu da sala, com o coração batendo forte demais, ela percebeu algo:
Pela primeira vez…
ela não tinha medo.
Por quê?
Porque, mesmo que ele não admitisse…
Ji-Won estava do lado dela.
E isso mudava tudo.