Hana m*l lembrava como tinha saído da sala de reuniões.
Só lembrava das palavras.
Dos olhares.
Da dúvida.
Da voz dele.
“Você… teve acesso a essa pasta.”
Aquela frase não era só uma acusação.
Era uma facada vinda de alguém que ela estava começando a confiar.
O corredor parecia um túnel apertado.
O som dos passos dela ecoava junto com o desespero preso no peito.
Quando empurrou as portas de vidro da entrada da empresa, a chuva caiu sobre ela como se o céu tivesse desabado.
Mas ela continuou andando.
Sem guarda-chuva.
Sem rumo.
Sem fôlego.
As gotas batiam forte no rosto, misturando-se às lágrimas que ela não conseguia controlar.
— Por que…? — Hana sussurrou para si mesma, a voz engolida pelo som da tempestade. — Por que sempre acham que eu sou o elo fraco?
Seu passado, seus traumas, seus medos…
Tudo parecia voltar.
O ex-marido acusando-a de coisas que ela nunca fez.
As pessoas olhando para ela como se fosse descartável.
E agora Ji-Won.
Ji-Won.
O homem que ela quase beijou.
O homem que confessou medo.
O homem que estava se abrindo pela primeira vez…
E que mesmo assim duvidou.
A cada passo, o coração parecia rasgar um pouco mais.
Do lado de dentro da empresa, Ji-Won estava paralisado.
As palavras dele ecoavam de volta, como flechas acertando o próprio peito.
“Eu preciso saber a verdade.”
Ele viu o olhar dela quebrar.
Sentiu algo dentro dele quebrar junto.
— Hana… — ele murmurou, a voz falhando.
Min-Ho se aproximou, furioso.
— Você a machucou de novo — disse com raiva contida. — Você sabe o que ela passou. Você sabe o quanto isso pesa nela. Por que sempre escolhe a dúvida?
Ji-Won apertou os olhos com força, o peso da culpa esmagador.
— Eu… eu não queria—
— Mas fez — Min-Ho cortou. — E agora ela está lá fora, sozinha, no meio dessa tempestade. Você ao menos sabe para onde ela foi?
Ji-Won abriu os olhos, e algo mudou dentro dele.
Pânico.
Desespero.
Medo real.
— Eu vou atrás dela — disse, antes mesmo de pensar.
Min-Ho segurou seu braço.
— Não para arrumar desculpas — avisou. — Se for atrás… vá para consertar.
Ji-Won não respondeu.
Ele apenas saiu correndo.
A chuva se intensificou, transformando as ruas em espelhos quebrados de luz.
Ji-Won desceu as escadas da Haneul Corp com tanta pressa que quase escorregou.
A camisa encharcada colou ao corpo, os cabelos despencaram sobre os olhos.
Ele olhava para todos os lados, procurando por ela.
Nada.
Então ele correu.
Pela calçada.
Pela rua.
Pelas sombras de Seul.
— Hana! — gritou, a voz rasgando a tempestade.
Mas a chuva levou sua voz.
O medo cresceu no peito — aquele medo antigo, profundo, o mesmo que sentiu quando perdeu a irmã.
E então viu.
Lá na frente, sob um letreiro brilhante, Hana caminhava devagar, como se o mundo tivesse ficado pesado demais para carregar.
Ji-Won parou por um segundo.
O coração bateu tão forte que doeu.
Depois ele correu até ela.
— HANA! — ele chamou de novo.
Ela não virou.
Ou talvez não quisesse virar.
Quando ele alcançou o braço dela, a chuva caiu ainda mais forte, criando um halo de água ao redor dos dois.
Hana parou.
Respirou fundo.
E virou o rosto.
Os olhos dela estavam completamente vermelhos.
— Me solta, Ji-Won — disse, firme, mas a voz tremia.
Ele soltou.
Porque ela pediu.
Mas não deu um passo para trás.
— Hana… eu errei — ele disse, a voz quebrada. — Me desculpa.
Ela riu.
Um riso amargo, molhado pela chuva.
— Você sempre diz isso. “Eu errei.” “Me desculpa.” — Ela apertou os braços ao redor do próprio corpo. — Mas você não entende, Ji-Won. Quando você duvida de mim… você me joga de volta no passado que eu passei anos tentando esquecer.
Ele sentiu o golpe como se fosse nele.
Hana continuou:
— Você diz que está tentando não me machucar… mas é exatamente isso que faz. Porque você tem medo do que sente… e eu não posso ser a pessoa que sofre por causa desse medo.
A cada palavra, o coração dele apertava mais.
Ji-Won deu um passo à frente.
— Eu não duvidei porque achei que você fosse culpada — ele disse, tentando respirar. — Eu duvidei porque… porque tenho medo de confiar. E mais medo ainda de perder.
A chuva escorria pelo rosto dele como se também estivesse chorando.
— Desde o dia em que você chegou… — continuou — eu sinto coisas que não sentia há anos. E isso me assusta. Eu não sei agir com isso. Eu não sei ser… melhor do que fui hoje.
As lágrimas de Hana se misturavam com a chuva.
— Eu não quero ser seu trauma, Ji-Won — ela sussurrou.
— E eu não quero ser a razão da sua dor — ele respondeu.
Um passo.
Outro.
Eles estavam tão perto que podiam ouvir a respiração um do outro.
— Por favor… — Ji-Won murmurou. — Não vai embora de mim.
Hana fechou os olhos por um momento.
A decisão parecia pesar o mundo inteiro.
Quando abriu… havia algo diferente ali.
Força.
E dor.
— Eu preciso de tempo — ela disse. — Para respirar. Para não sentir que estou afundando. Para você descobrir… se realmente quer me ter na sua vida ou só quer fugir menos.
Ji-Won sentiu o coração desabar, mas assentiu.
Porque ele sabia.
Ela tinha razão.
Hana deu um passo para trás.
Ele não a segurou.
Pela primeira vez…
ele deixou ir.
E a chuva os separou como uma cortina de despedida.
Ji-Won ficou parado ali, no meio da tempestade, vendo a mulher que começou a curar o gelo dentro dele se afastar.
Mas dentro dele, algo acendeu:
Ele não desistiria dela.
Não dessa vez.
Não de novo.
A reviravolta só tinha começado.