A chuva ainda batia nas janelas da cobertura quando Ji-Won voltou para sua sala.
Ele largou o guarda-chuva dobrado sobre o sofá de couro e afrouxou a gravata, respirando fundo como se tivesse acabado de correr uma maratona emocional.
Por quê?
Por que aquela mulher mexia com ele daquele jeito?
Sentou-se na cadeira, passando a mão pelos cabelos, irritado consigo mesmo. Era ridículo. Ele não se abalava por ninguém. Não há anos. Não depois de tudo que tinha acontecido.
Mas a imagem dela sorrindo — aquele sorriso pequeno, tímido, corajoso — consumia o espaço na mente dele de um jeito que o deixava inquieto.
Uma notificação acendeu na tela do celular.
Era uma mensagem de Min-Ho.
“Hyung, amanhã almoço no hospital? Preciso falar com você.”
Ji-Won suspirou.
Min-Ho era seu único amigo. O único que sabia parte dos seus traumas. Mas nem ele conhecia tudo.
E Ji-Won pretendia manter assim.
Ele respondeu apenas:
“Veremos.”
Jogou o celular sobre a mesa, levantou-se e foi até a janela. A cidade brilhava em neon, refletida na chuva pesada.
Ao olhar para baixo, viu um ponto de luz — o movimento das pessoas correndo com guarda-chuvas, taxis, a pressa da vida — e imaginou Hana caminhando sozinha, com passos apressados e aquele casaco barato encharcado.
Sentiu um incômodo no peito.
— i****a… — murmurou para si mesmo.
No metrô, Hana respirava fundo, tentando controlar o sorriso que insistia em escapar.
Parecia boba. E sabia disso.
— Ele só foi educado. Não significa nada — repetiu várias vezes.
Mas seu coração não acreditava.
Porque o olhar dele… havia algo ali.
Uma tensão.
Um peso.
Um mundo inteiro escondido atrás daqueles olhos afiados.
Ela encostou a cabeça contra o vidro, observando as gotas escorrerem do lado de fora.
A cidade era grande, estranha, linda… e solitária.
Mas Ji-Won tinha feito aquela noite parecer menos fria.
Quando chegou no pequeno quarto que alugava, jogou a bolsa na cama e respirou fundo.
Precisava dormir cedo para não se atrasar de novo.
Antes de deitar, abriu o notebook para ligar para a mãe no Brasil.
Mas ao ver a tela inicial, seu coração apertou.
Uma pasta antiga.
Fotos do casamento dela.
Fotos do homem que a destruiu.
Rapidamente ela fechou o computador, como se aquilo queimasse.
— Nova vida… — sussurrou. — Nova Hana.
Mas as lágrimas vieram mesmo assim.
Na manhã seguinte, Hana chegou quinze minutos mais cedo — exatamente como Ji-Won “recomendou”.
Quando entrou na empresa, ele já estava lá.
Sempre estava.
Sério.
Impecável.
Distante.
Ele olhou para ela rapidamente, como quem faz um inventário silencioso:
Casaco seco. Cabelo arrumado. No horário.
— Bom dia — ela disse, tentando parecer profissional.
— Bom dia — ele respondeu sem olhar muito.
Mas quando ela passou por ele, algo o impulsionou a falar:
— Hana.
Ela se virou.
Ji-Won hesitou por um instante.
Seu rosto era sério, mas seus olhos… tinham uma estranha suavidade.
— Obrigado por ontem — ele disse.
Hana piscou, surpresa.
Ele agradecendo? Impossível.
— Eu só… caminhei com você até o metrô. Não foi nada demais.
Ji-Won desviou o olhar, sem saber como continuar.
Sentia-se exposto demais.
— Mesmo assim — murmurou. — Obrigado.
Hana sorriu — aquele sorriso que ele tanto evitava encarar — e entrou na sala.
Ji-Won ficou parado no corredor, imóvel, como se a presença dela tivesse mudado a gravidade do lugar.
À tarde, no laboratório, Hana se dedicava a revisar os dados do projeto quando a porta se abriu bruscamente.
Era uma mulher linda, elegante, com cabelos longos e pretos, salto alto perfeitamente afiado e perfume caro.
Soo-Yeon.
Ela entrou como quem possui o espaço.
— Você deve ser a nova estrangeira — disse, olhando Hana de cima a baixo com desprezo bem disfarçado.
Hana se levantou, educada.
— Prazer, eu sou a Hana—
— Não precisa — cortou Soo-Yeon. — Sei quem você é.
Antes que Hana pudesse entender, Ji-Won apareceu logo atrás, tenso.
— Soo-Yeon. Não tinha horário marcado.
— Não preciso de horário marcado, Ji-Won — ela disse, com um sorriso venenoso. — Principalmente quando quero ver quem você anda “protegendo”.
O estômago de Hana revirou.
Ji-Won fechou o rosto.
— Não comece.
Soo-Yeon cruzou os braços.
— Você sabe que não gosto quando se envolve com funcionárias.
Hana congelou.
Ji-Won arregalou os olhos, irritado.
— Não estou envolvido com ninguém.
Soo-Yeon se aproximou dele, tocando seu terno com i********e.
— Então ótimo. Porque eu ainda não terminei com você, Ji-Won.
Hana sentiu o coração despencar.
E Ji-Won…
pela primeira vez, olhou para Hana como se tivesse medo de perdê-la sem sequer tê-la.