Romana percebeu o olhar de Tomás sobre ela, mas chegou à conclusão de que ele estava desconfiado dela.
— Ela não volta mais hoje?
— Não, não volta. Está descansando.
A madre estava presa, mas não por muito tempo.
— Poderia me oferecer uma água, por favor, senhorita?
Ele tossiu sem querer, fingindo estar com a garganta seca.
— Minha garganta está seca.
— Claro, pego agora.
Romana abriu o pequeno frigobar que ficava na sala do escritório, retirando uma garrafinha de água mineral e entregando-a a Tomás.
— Obrigado.
— Disponha.
Tomás não tirava os olhos de cima de Romana. Ficou curioso para saber como era o corpo e os cabelos dela, porque o rosto era perfeito.
— Algum problema, senhor?
— Não, só tenho a impressão de que te conheço de algum lugar.
Romana deu um sorriso para ele, sem mostrar os dentes.
— Dizem que freira é tudo igual por causa da roupa.
Ela detestava fingir bom humor.
— Pode ser, mas você me parece muito com alguém, muito mesmo.
— Alguma amiga?
Ele não fazia ideia de onde.
— Sim, com uma conhecida.
Mas ele tinha certeza de que conhecia Romana de algum lugar. Já tinha visto, só não se lembrava onde.
— Não saio do convento, e é a primeira vez que te vejo por aqui.
Ela tentava ser convincente, mas sem preocupação, porque seus disfarces nunca levantaram suspeitas.
— Na verdade, eu esperei por você quase um mês atrás; a madre me disse que você viria.
— Eu não sei se estava com problemas, mas tive a sensação de estar sendo vigiada desde que cheguei na cidade. Depois tive a confirmação.
— É mesmo? Olha, que interessante, alguma admiradora?
Ela deixou seu lado sarcástico falar mais alto, mas depois voltou a se recompor.
— Perigoso, eu quis dizer; imagino que já tenha resolvido o problema.
— Acredito que não seja exatamente um problema; de qualquer modo, achei melhor despistar quem quer que seja.
— Que bom então. Como eu ia dizendo, a madre não está.
Ela estava doida para que ele fosse embora; precisava sair, tinha uma missão com horário marcado.
— Eu volto amanhã então.
— Não, não.
— Por quê?
— Sabe como é? Ela não anda muito bem de saúde, sabe como é, a idade.
— Não sei disso não, sou jovem.
— Deu pra perceber.
O desdém dela era impagável.
— Está insinuando que eu sou velho, senhorita?
— Uma freira não faria isso, senhor Grilmadi.
— Você me disse que sabia que eu viria.
— Sim, a madre me avisou.
— Então deve saber o que eu quero.
— Em tese, ela me contou por alto.
— Segundo meu pai, eu tenho uma noiva a revogar, por nome de Jasmine Dipp.
— Quer conhecê-la? Por isso veio? Ou veio buscá-la?
Pelo tempo que Tomás estava na cidade e pela forma como os acordos deles caminhavam, Jasmine já deveria ter retornado para a Itália há tempos, então não seria de admirar que Tomás tivesse ido buscá-la.
— Na verdade, não, porque pretendo ficar um pouco mais de tempo na cidade. E só vim porque, se caso meu pai entrar em contato com a madre, gostaria de um pequeno favor.
— Qual seria o pequeno favor?
— Simples: diga que a jovem que ainda deve estar assustada com a informação de que tem um noivo, que estou dando um tempo para ela.
— Não quer conhecê-la? Eu acho que ela ainda não está dormindo; é uma jovem bonita.
Blefando era o que Romana fazia; estava testando Tomás Grilmadi.
— Não, deixe a moça aproveitar os dias de paz que lhe restam.
— Me parece que quem quer aproveitar é o senhor.
Escapuliu sem Romana perceber a afronta, e ela soou ainda mais ríspida do que desejado.
— Não entendi a insinuação, senhorita.
— Peço desculpas.
— Tudo bem.
— Vai machucá-la, senhor?
— Jamais machucaria uma mulher, mas do jeito que conheço minha mãe, a coitada da jovem não terá um segundo de paz até a chegada desse casamento ou até a vinda de um herdeiro. Sendo assim, deixe que ela aproveite; eu estarei enviando uma quantia em valor; peça que ela compre roupas para culturas diferentes.
— Quais seriam os países?
— Índia e Itália.
— Vou só te passar o número da conta.
— Temos a conta da madre, na qual fazemos transferências.
— Como eu ia dizendo, ela não anda bem de saúde e estamos tentando administrar sem incomodá-la; algum problema em fazer a transferência em uma nova conta bancária?
— Problema nenhum; você quem está administrando?
— Sim, por quê?
— É um tanto jovem, não?
— Diz que não tenho experiência?
— Não quis dizer isso.
— Insinuou, me julgou pela idade ou pela aparência?
Romana entregou a nova conta bancária a Tomás Grilmadi. A madre tinha confiado na pessoa errada; Romana havia feito uma verdadeira limpa nas contas da madre, e o dinheiro estava sendo usado para novas reformas, ampliações e novos projetos, tanto no orfanato como no convento. Tomás não estranhou nada.
— Obrigado pela recepção e pela água também.
— Nós que agradecemos sua generosidade.
Tomás pegou mais uma vez na mão de Romana.
— Foi um prazer.
— Boa noite, senhor.
Tomás saiu e Romana voltou para o quarto correndo; não poderia se atrasar, embora já estivesse. Ela estava atrasada, saiu com pressa e não notou que havia sido seguida. Tomás não engoliu a história de que freiras são tudo igual por causa da roupa; ficou no carro de espreita, vendo se Romana saía, e ela saiu como de costume. Ele nem acreditou quando viu Romana entrando em um bordel.
— Desgraçada, freirinha safada.
Ele acabou sorrindo sozinho dentro do carro, mas ainda precisava confirmar se ela era a mulher que estava mexendo com ele ou se aquilo tudo era apenas uma mera coincidência. Ele entrou no bordel atrás dela.
— Ainda estamos fechados, senhor.
Uma travesti avisou.
— A mulher que entrou aqui; preciso vê-la.
— Não é permitido entrar nos camarins.
— Mesmo quando se paga bem?
Ele abriu a carteira recheada de dólares e entregou ao travesti algumas notas, sendo generoso.
— Ela está no segundo corredor, primeira à direita.
Tomás caminhou a passos largos.