Desconfiança

1046 Palavras
Romana percebeu o olhar de Tomás sobre ela, mas chegou à conclusão de que ele estava desconfiado dela. — Ela não volta mais hoje? — Não, não volta. Está descansando. A madre estava presa, mas não por muito tempo. — Poderia me oferecer uma água, por favor, senhorita? Ele tossiu sem querer, fingindo estar com a garganta seca. — Minha garganta está seca. — Claro, pego agora. Romana abriu o pequeno frigobar que ficava na sala do escritório, retirando uma garrafinha de água mineral e entregando-a a Tomás. — Obrigado. — Disponha. Tomás não tirava os olhos de cima de Romana. Ficou curioso para saber como era o corpo e os cabelos dela, porque o rosto era perfeito. — Algum problema, senhor? — Não, só tenho a impressão de que te conheço de algum lugar. Romana deu um sorriso para ele, sem mostrar os dentes. — Dizem que freira é tudo igual por causa da roupa. Ela detestava fingir bom humor. — Pode ser, mas você me parece muito com alguém, muito mesmo. — Alguma amiga? Ele não fazia ideia de onde. — Sim, com uma conhecida. Mas ele tinha certeza de que conhecia Romana de algum lugar. Já tinha visto, só não se lembrava onde. — Não saio do convento, e é a primeira vez que te vejo por aqui. Ela tentava ser convincente, mas sem preocupação, porque seus disfarces nunca levantaram suspeitas. — Na verdade, eu esperei por você quase um mês atrás; a madre me disse que você viria. — Eu não sei se estava com problemas, mas tive a sensação de estar sendo vigiada desde que cheguei na cidade. Depois tive a confirmação. — É mesmo? Olha, que interessante, alguma admiradora? Ela deixou seu lado sarcástico falar mais alto, mas depois voltou a se recompor. — Perigoso, eu quis dizer; imagino que já tenha resolvido o problema. — Acredito que não seja exatamente um problema; de qualquer modo, achei melhor despistar quem quer que seja. — Que bom então. Como eu ia dizendo, a madre não está. Ela estava doida para que ele fosse embora; precisava sair, tinha uma missão com horário marcado. — Eu volto amanhã então. — Não, não. — Por quê? — Sabe como é? Ela não anda muito bem de saúde, sabe como é, a idade. — Não sei disso não, sou jovem. — Deu pra perceber. O desdém dela era impagável. — Está insinuando que eu sou velho, senhorita? — Uma freira não faria isso, senhor Grilmadi. — Você me disse que sabia que eu viria. — Sim, a madre me avisou. — Então deve saber o que eu quero. — Em tese, ela me contou por alto. — Segundo meu pai, eu tenho uma noiva a revogar, por nome de Jasmine Dipp. — Quer conhecê-la? Por isso veio? Ou veio buscá-la? Pelo tempo que Tomás estava na cidade e pela forma como os acordos deles caminhavam, Jasmine já deveria ter retornado para a Itália há tempos, então não seria de admirar que Tomás tivesse ido buscá-la. — Na verdade, não, porque pretendo ficar um pouco mais de tempo na cidade. E só vim porque, se caso meu pai entrar em contato com a madre, gostaria de um pequeno favor. — Qual seria o pequeno favor? — Simples: diga que a jovem que ainda deve estar assustada com a informação de que tem um noivo, que estou dando um tempo para ela. — Não quer conhecê-la? Eu acho que ela ainda não está dormindo; é uma jovem bonita. Blefando era o que Romana fazia; estava testando Tomás Grilmadi. — Não, deixe a moça aproveitar os dias de paz que lhe restam. — Me parece que quem quer aproveitar é o senhor. Escapuliu sem Romana perceber a afronta, e ela soou ainda mais ríspida do que desejado. — Não entendi a insinuação, senhorita. — Peço desculpas. — Tudo bem. — Vai machucá-la, senhor? — Jamais machucaria uma mulher, mas do jeito que conheço minha mãe, a coitada da jovem não terá um segundo de paz até a chegada desse casamento ou até a vinda de um herdeiro. Sendo assim, deixe que ela aproveite; eu estarei enviando uma quantia em valor; peça que ela compre roupas para culturas diferentes. — Quais seriam os países? — Índia e Itália. — Vou só te passar o número da conta. — Temos a conta da madre, na qual fazemos transferências. — Como eu ia dizendo, ela não anda bem de saúde e estamos tentando administrar sem incomodá-la; algum problema em fazer a transferência em uma nova conta bancária? — Problema nenhum; você quem está administrando? — Sim, por quê? — É um tanto jovem, não? — Diz que não tenho experiência? — Não quis dizer isso. — Insinuou, me julgou pela idade ou pela aparência? Romana entregou a nova conta bancária a Tomás Grilmadi. A madre tinha confiado na pessoa errada; Romana havia feito uma verdadeira limpa nas contas da madre, e o dinheiro estava sendo usado para novas reformas, ampliações e novos projetos, tanto no orfanato como no convento. Tomás não estranhou nada. — Obrigado pela recepção e pela água também. — Nós que agradecemos sua generosidade. Tomás pegou mais uma vez na mão de Romana. — Foi um prazer. — Boa noite, senhor. Tomás saiu e Romana voltou para o quarto correndo; não poderia se atrasar, embora já estivesse. Ela estava atrasada, saiu com pressa e não notou que havia sido seguida. Tomás não engoliu a história de que freiras são tudo igual por causa da roupa; ficou no carro de espreita, vendo se Romana saía, e ela saiu como de costume. Ele nem acreditou quando viu Romana entrando em um bordel. — Desgraçada, freirinha safada. Ele acabou sorrindo sozinho dentro do carro, mas ainda precisava confirmar se ela era a mulher que estava mexendo com ele ou se aquilo tudo era apenas uma mera coincidência. Ele entrou no bordel atrás dela. — Ainda estamos fechados, senhor. Uma travesti avisou. — A mulher que entrou aqui; preciso vê-la. — Não é permitido entrar nos camarins. — Mesmo quando se paga bem? Ele abriu a carteira recheada de dólares e entregou ao travesti algumas notas, sendo generoso. — Ela está no segundo corredor, primeira à direita. Tomás caminhou a passos largos.
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