Thomaz Narrando
— Sukyn syn! (filha da pu.ta) Você vai me pagar caro por isso. — falo olhando para o céu, a voz meio embolada pela dormência que está a minha língua.
Quem aquela menina acha que é para fazer isso? Se ela acha que sou um dos seus subordinados, do qual ela tem a liberdade de pintar e bordar com eles, está muito enganada! Aqui é olho por olho e dente por dente, o que ela fez comigo agora vai ter volta e vai ser bem pior.
Não acredito que ela teve coragem de fazer isso, me fazer pagar de palhaço na frente de todos, fiquei parecendo um homem das cavernas, bebendo água daquela forma.
Pego a porta de sua casa e bato com força ao sair, torcendo para que quebre essa por.ra de uma vez. Entro em meu carro em frente à casa e saio com tudo, sentindo o meu sangue fervendo e com uma raiva sem igual possuir todo o meu corpo. Pagaria milhões pela cabeça dela em cima de uma bandeja agora mesmo.
Dou um soco forte no volante, procurando descontar minha raiva, ódio, mas nada alivia, só vou me sentir bem quando ela sentir o gostinho do que acaba de me fazer passar. Me aguarde, Angelina Becker! Você não perde por esperar.
Conecto o rádio do carro com o meu celular e já coloco no nome do meu melhor amigo Ivan. Nos conhecemos há anos, em uma das minhas muitas noitadas. Em seguida, Ivan começou a trabalhar para minha família,e passamos a fazer muitas coisas juntos. Ele acabou se tornando um homem da confiança de meu pai, até porque quando se trata dos nossos negócios, não podemos envolver qualquer pessoa, nos tornamos melhores amigos, desde então.
Se tem alguém que pode me ajudar a me vingar daquela maldita, com certeza é ele.
— Cara, você está me atrapalhando, seja rápido. — sua voz está meio ofegante e posso escutar um gemido lá no fundo.
Solto um sorriso de lado, se não estiver fode.ndo com alguém, não é o meu amigo. Já aconteceu tantas vezes de um ligar para o outro em meio a uma fo.da, que já nem esquentamos mais.
— Termina aí e me encontra no meu apartamento, preciso falar com você. — desligo na sua cara, antes que ele fale algo.
Em questão de segundos, o grande prédio de luxo no qual resido, adentra o meu campo de visão. Entro pela garagem, estaciono o meu carro e pego o elevador, indo para o meu apartamento, ou melhor, a minha cobertura.
Vou direto até à adega e pego a melhor garrafa de whisky, o mais forte de todos, até que eu consiga a minha vingança, vou recorrer ao álcool para conseguir me acalmar um pouco.
Volto para a sala, encho o copo até a boca, tomando tudo de uma vez, lembrando daquela mulherzinha, coloco mais uma dose, outra e mais outra. Pesco o meu celular e me sento em frente à parede de vidro, vou cobrando alguns favores, até que consigo a agenda completa daquela diaba pelos próximos três meses.
— Eu vou acabar com sua raça, Angelina! — praguejo.
Em alguns minutos, Ivan chega. Como ele tem a chave de casa, não preciso sair do meu lugar.
— Espero que seja muito importante o assunto, porque eu estava com uma morena daquelas... — entra em minha adega, mexendo no celular, sem olhar diretamente para mim.
— Não tô nem aí pra quem você estava comendo, quero a cabeça da Angelina em minha mesa! — percebendo o quanto estou irritado, finalmente olha em minha direção.
— Uou! — franze o cenho e guarda o celular — O que houve?
— O que houve? Aquela diaba armou uma daquelas para mim. — digo entredentes.
— Pela sua cara, foi das boas mesmo, mas você deve ter merecido. — dá um sorrisinho de lado.
Rosno.
— Ela colocou pimenta na minha comida. — Ivan estava tomando um gole de whisky, acaba se engasgando de tanto rir e cospe a bebida em meu rosto.
— Por.ra, Ivan! — ele continua rindo e eu pego um pano para me limpar.
— Eu só queria estar lá e ter visto a sua cara, Thom. — bufo.
— Já acabou? — o encaro sério.
— Sim — tenta conter o riso — Se você me chamou aqui, provavelmente quer se vingar, acertei?
Assinto, tomando mais um gole da bebida.
— O que pretende?
Sorrio arteiro.
— Entre uma ligação e outra, cobrando uns favores de alguns pilantras, consegui a agenda completa dela pelos próximos três meses e, em um desses compromissos, vai precisar receber uma carga de armamentos... — continuo contando todo meu plano ao Ivan, que sempre é meu cúmplice em minhas armações — Então, topa? — sorrio de lado.
— A Angel vai ficar indignada contigo, cara. — dou de ombros.
— Foi ela que começou, chumbo trocado não dói.
— Tecnicamente, quem começou com essa rixinha i****a, foi você, mas... — sorrio de lado tendo flashes do que fiz com Angelina, quando éramos mais novos.
— Topa ou não?
— Esse plano é muito bom, não posso ficar de fora. Conta comigo! — brindamos.
Continuamos bebendo, até me ligarem. Antes de atender, vejo que é um dos meus capos.
— Só me diga que é muito importante... — atendo impaciente.
— Precisamos de você aqui, chefe. — pelo seu tom de voz, a coisa não era nada boa.
— Não é possível que vocês não consigam resolver nada sem mim. Para que p***a eu contratei vocês? — respondo irritado, ele não diz nada — Daqui a pouco chego aí.
Desligo sem esperar resposta.
— Vamos! — levanto, pegando a chave do meu carro e fazendo menção para Ivan levantar também.
Meu amigo, me conhecendo bem, não me questiona, apenas me segue.
— É hoje que eu mato alguém. — entro no carro, absorvendo todo meu ódio da Angelina e agora dos meus subordinados.
(...)
Angelina Narrando
— Angelina Becker. — papai fala meu nome entredentes, seus olhos estão mais escuros que o normal.
Seu tom de voz me mostra o quanto está furioso.
— Amor da minha vida... — faço a minha melhor cara de inocente, procurando fugir da bronca.
Eu não sou imatura, porém, não queria participar desse jantar porque sabia que o Thomaz estaria presente e nos odiamos desde que me entendo por gente. Mesmo sabendo das consequências que viriam por esse ato, não pensei duas vezes em fazer.
— No meu escritório agora! — engulo em seco.
Olho para a minha amiga, que fala um fodeu de forma silenciosa. Seguro a vontade de lhe mandar um dedo do meio e saio da sala de jantar de cabeça erguida, sentindo-me vitoriosa depois disso tudo.
Adentro o escritório de meu pai, abrindo devagar a porta de madeira maciça, vejo papai sentado em sua poltrona confortavelmente, com os braços apoiados sobre a mesa, ele respira fundo.
Sento-me na poltrona em frente à sua mesa, pensando em diversas desculpas que eu poderia dar nesse momento. Papai não gostou da minha brincadeira, vi pelo seu rosto. Mas sendo sincera, eu não me arrependo, faria tudo de novo. Ele sabe o quanto eu e o Thomaz nos detestamos.
— Pai. — chamo sua atenção, imediatamente olha para mim.
Sua expressão é séria e de decepção. Confesso que isso me corta o coração.
— Quantos anos você tem?
— Vinte e quatro.
— Então, por que cara.lho insiste em se comportar como uma adolescente? — grita, fazendo com que eu me encolha.
— Foi uma brincadeira inocente, papai. — tento me defender, sabendo que é em vão.
Tenho noção do quão ferrada estou e sabia disso desde o momento em que planejei tudo.
Ele leva suas mãos á cabeça, passando diversas vezes pelo cabelo em uma tentativa de se controlar. A veia na lateral do seu pescoço denuncia o quanto estava com raiva.
— Os filhos são tudo para os Hilberg, eles saíram daqui revoltados com o que você fez. Tem noção disso, Angelina? — não digo nada, apenas afirmo com um menear de cabeça.
— Eles os mimam demais, o senhor sabe disso...
— Isso não importa Angelina! — soca a sua mesa, me fazendo assustar — Eles tem um informante de alto escalão na máfia rival, ia tentar entrar em um acordo para que descobrissem para nós qual o nome do outro desgraçado que está fodendo com a nossa organização.
— Me perdoe, papai... Eu não sabia. — abaixo a cabeça envergonhada.
Se eu soubesse dessa informação, jamais teria feito o que fiz.
— Pelo amor de Deus, minha filha. Você não é uma criança, pare de se comportar como uma. Você já é uma mulher, uma grande mulher, uma Becker! E os Becker não se comportam dessa forma, mesmo que seu trabalho tenha ótimos resultados, eles tem grandes chances de nos arruinar, porque você só age e não monta um plano antes. Esse seu jeito de resolver as coisas as vezes me tira do sério, foi assim que perdi sua mãe, ela era exatamente como você e agora está morta — engole em seco, e sua voz muda. Ele fecha ao olhos, tentando se livrar de seus fantasmas — Já deu, estou cansado disso.
— Perdoe-me, papai. — minha voz sai quase como um sussurro. Apesar de ter perdido a mamãe há muitos anos, tocar no assunto ainda dói.
Só então tenho noção do quanto o machuquei.
— Eu só quero que você pare de se comportar desse jeito, não esta sendo digna de tomar o meu lugar, não foi dessa forma que te eduquei — apenas ouço, sem falar nada — Essa sua brincadeira infantil pode ter custado muito caro para os nossos negócios.
— Não se preocupe, papai... Prometo consertar isso — levanto e me aproximo dele, dando um beijo em sua testa — Eu te amo.
Papai respira fundo e me olha com ternura. Mesmo com as burradas que faço constantemente com esse meu jeito impulsivo, sei que sempre posso recorrer a ele; Depois da morte da mamãe, só temos um ao outro, somos a força um do outro e não vou deixar isso mudar por causa de uma bobagem minha, menos ainda perder o que é meu por direito. Se for necessário abrir mão do meu orgulho, assim farei. Eu sou uma Becker e os Becker não desistem assim tão fácil.
— Eu também te amo, filha. Só quero que repense suas atitudes. — beija minha mão.
— Não se preocupe, papai. Pode confiar em mim. — sorri sem mostrar os dentes.
— Tenha uma boa noite, vê se não fica acordado até tarde.
— Boa noite, Angel.
Saio de seu escritório, subo a escada indo até meu quarto, ainda com os pensamentos a mil. Vou até o closet, troco de roupa, vestindo uma camisola preta, toda trabalhada na seda, coloco o robe por cima e caminho até a janela. Fecho os olhos, sentindo a brisa da noite em meu rosto.
— Sinto tanto a sua falta, mãe — uma lágrima rebelde rola em meu rosto — Me desculpe por decepcionar o papai, daqui em diante farei tudo diferente. Eu prometo!
Limpo as lágrimas, fecho a janela, desfaço o laço do robe, retirando-o e deito na cama, me entregando ao sono.