Angelina Narrando
No dia seguinte, acordo decidida a consertar a merda que fiz, na noite do dia anterior. Levanto o mais cedo possível, antes mesmo do papai acordar, tomo um banho bem relaxante, visto uma calça preta de couro, uma blusa vermelha de alça grossa, com um pequeno decote em v e uma jaqueta preta, também de couro, por último uma bota de cano curto, deixo os cabelos soltos ao vento.
Faço questão de não tomar café antes de sair, preciso chegar na casa dos Hilberg o mais cedo possível. Pego a chave da minha moto em cima da mesinha ao lado da cama e saio do quarto. Chegando na garagem da nossa mansão, retiro a capa protetora da minha Ducati Panigale vermelha, sorrio de lado vendo minha belezinha.
Dou uma alisada e finalmente subo nela, engato a chave na ignição e giro o acelerador, saindo a mais de cem quilômetros por hora, sentindo a brisa leve do vento em meus cabelos e a adrenalina em minhas veias. Moto é minha paixão.
Em pouco tempo chego ao meu destino, desço da moto, retirando o capacete e sigo para a enorme mansão a minha frente, respiro fundo, pedindo que dê tudo certo e toco a campainha, não demora alguém vir me atender.
— Fala, baixinha! Quanto tempo, hein. — sou atendida pelo Higor, irmão mais novo do Thomaz.
— Pensei que estivesse na Itália. Senti sua falta.
— Cheguei há pouco tempo, vem cá — me puxa para um abraço — Também senti sua falta. Está ainda mais gata que antes. — nos afastamos e ele me observa de cima a baixo, fechando a porta.
Reviro os olhos.
— Você também está um gato, Higor. Aposto que arrasou os corações das italianas.
— Jamais, gatinha. O único coração que eu sempre quis arrasar foi o seu, uma pena nunca ter me dado uma chance. — dá um sorriso galanteador e dou um murro em seu ombro em seguida.
Confesso que o Higor é um homem maravilhoso, além de ser lindissimo, alto, olhos castanho-claros, lábios carnudos, assim como os do Thomaz — não o suporto, mas não posso negar sua beleza — os dois não tem muita semelhança, porque um puxou mais ao pai e o outro a mãe, porém, são dois gatos. Higor sempre quis ficar comigo, no entanto, o medo que isso estragasse nossa amizade, nunca me permitiu tal coisa.
— A que devo a honra de sua visita, mademoiselle? — rio do jeito brincalhão dele.
— Vim conversar com seus pais, eles estão em casa?
— Sim, mas não estão com uma cara nada boa... — crispa os olhos.
— É, eu sei, tudo minha culpa.
— Como assim? O que aprontou dessa vez?
— Longa história, Higor... Longa história.
— Me conta, tenho todo tempo do mundo para te ouvir — segura minha mão, me guiando até o sofá — Vem.
Sento-me ao seu lado e lhe conto tudo o que aconteceu no jantar de ontem a noite. Ao concluir, ambos estamos rindo como duas hienas, enquanto Higor parecia não acreditar que realmente fiz tudo isso.
— Agora entendi porque meus pais chegaram furiosos ontem. — comenta em meio a risada, me fazendo parar de rir, pois, não imaginava que fosse tão grave.
— Eles chegaram com tanta raiva assim? — é óbvio que já sabia a resposta, porém, no fundo nutria uma esperança de que a resposta fosse outra.
— Infelizmente sim... Estão muito chateados com você, mas acho que em relação ao meu irmão também estão, sabem o quanto vocês se detestam.
— Meu pai também está, levei uma bronca daquelas. — repouso as costas no recosto do sofá.
— Não é para menos, se comportou pior que uma criança. — a voz estridente de seu pai ecoa, me assustando e nos pegando de surpresa.
Engulo em seco. Sei o quanto estou ferrada, ele está bem chateado, nunca me tratou dessa forma.
— Bom, vou deixa-los a sós. — Higor se levanta e sai. Vejo o senhor de meia-idade me encarar com um olhar indecifrável.
— Vem comigo. — faz um menear de cabeça para eu segui-lo.
Mesmo com receio, caminho atrás dele, entrando em seu escritório em seguida. Tio Andrey vai até sua poltrona atrás da mesa, sentando-se, fico parada sem reação.
— Sente-se. — aponta para a poltrona em sua frente.
Sua postura e semblante são sérios. Respiro fundo e sento.
— Sabe o quanto estamos decepcionados contigo, não é? — apoia os cotovelos sobre a mesa e cruza os dedos.
— Sei.
— O que passou em sua cabeça quando decidiu agir daquela forma, Angel? Você se tornou uma mulher incrível, linda, assim como sua mãe, mas esse tipo de atitude não vai te levar a lugar algum. Além disso, você é a futura herdeira dos Becker, acha que será respeitada?
Por mais irritada que eu esteja em ouvir essas palavras, sei que cada uma delas tem seu grau de relevância e quanta verdade há nelas.
— Tio, eu sei que fiz besteira e, que talvez não me perdoem tão cedo por isso. Devo ser honesta em dizer que quando estou perto do Thomaz, meu sangue ferve e as vezes perco a noção das coisas, mas por favor, não façam o papai pagar pelos meus erros — ele franze a testa sem entender — Sim, o papai me falou sobre a parceria de vocês e que tem informações sobre o nosso traidor. Sei que acabei ferrando tudo, porém, venho te pedir que não deixem o meu erro atrapalhar a amizade ou os negócios. Prometo que daqui em diante, tentarei não me deixar levar tanto pelas minhas emoções.
Tio Andrey sorri de lado.
— Sabe, você lembra muito a sua mãe, até nesse jeito genioso.
— Papai sempre fala isso. — me sinto mais relaxada depois de seu comentário.
— Eu realmente pensei em desfazer nossa parceria, não pelo seu pai, o Mikhail é um homem de fibra, mas sim, por sua causa, não confiaria ter meus negócios em suas mãos e você é a única herdeira dele — abaixo a cabeça, desanimada com a última parte — Porém, minha amizade com seu pai é de anos, não deixarei isso por causa de uma tolice de sua parte. Te darei uma chance de me provar que estou errado e, por favor, parem de tanta confusão você e o meu filho, não suportamos mais isso.
Levanto entusiasmada e vou até ele, o enchendo de beijos.
— Obrigada, tio. Prometo que não irá se arrepender, só não garanto a parte do Thomaz. — ele ri.
— Vocês dois não tem jeito, são assim desde que eram criança. Dizem por aí que amor e ódio andam lado a lado, talvez seja essa a razão para tanta briga. — dou um passo para trás, o encarando incrédula, ele continua rindo.
— Não fala isso nem de brincadeira, tio Andrey.
Dá de ombros.
— Vamos até a Nádia.
— Será que a tia Nádia vai me perdoar?
— Não se preocupe com isso, ela não ficou chateada como eu... Ela te vê como uma filha, sabe como é coração de mãe, né?
— Espero que esteja certo, odiaria ver o olhar de decepção dela.
Saímos do escritório e voltamos para a sala, onde estavam a tia Nádia e os filhos, ela estava paparicando eles como sempre. Tio Andrey solta um pigarro, os tirando de seu momento.
— Espero não estar atrapalhando... — sou a primeira a falar.
— Está sim! — Thomaz me responde, o ignoro totalmente, tentando cumprir com o que falei agora a pouco.
— Tia, será que podemos conversar?
— Depois da merda que fez ontem, agora veio tentar se redimir, tão típico de você, Angelina. — respiro fundo, na tentativa de resistir às suas provocações.
— Vamos, minha querida — ela se levanta — E você, Thomaz... É bom ficar aí quietinho, não pense que não sei que vivem trocando farpas, é tão errado quanto ela.
Thomaz arregala os olhos sem graça, por essa ele não esperava. Permaneço séria, mas por dentro estou soltando fogos de artificio. Vejo o Higor rir do irmão e receber um soco no ombro.
— Ai, seu brutamontes! — Higor massageia o local.
Seguimos até o jardim, sentando nas espreguiçadeiras ao redor da piscina.
— A senhora vai me perdoar? — ela curva os lábios em um sorriso.
— Eu já te perdoei, Angel. Você é como uma filha para mim e os pais sempre acabam perdoando os filhos, não é mesmo? Só me promete que vai tentar se entender com o Thomaz, não aguentamos mais isso.
Engulo em seco, sem saber o que responder.
— Desculpa, tia. Mas isso é quase impossível, a senhora sabe o que aconteceu para as coisas chegarem onde chegaram.
— Vocês não são mais crianças, Angel. Já são dois adultos, comecem a agir como tal e esquecer o passado! — fala firme — Sem contar que pela forma como agiam um com o outro, sempre achei que acabariam juntos, no fim das contas, eu e sua mãe sempre sonhamos com isso.
Esbugalho os olhos com essa informação e ela dá uma gargalhada, levando a cabeça para trás.
— Eu e o Thomaz? Nunca! E quando digo nunca, é nunca mesmo!
— Nunca diga nunca, meu anjo — segura meu queixo — O destino costuma pregar peças em nós. — dá uma piscadela para mim.
— Vou embora, que essa conversa ficou muito estranha — dá de ombros — Obrigada, tia. Você é maravilhosa.
Voltamos para dentro de casa, tia Nádia segue para a sala e eu vou até a cozinha, beber um pouco de água. Enquanto estou enchendo o copo, sinto como se estivesse sendo observada e estava certa. Ao olhar para trás, me deparo com o Thomaz encostado no balcão, olhando para mim.
— Gostou do que viu? — lhe pergunto com deboche.
— Já vi melhores.
— Impossível! Sou o melhor que há em toda a Rússia — deixo um pouco de água escorrer entre meus s***s. Thomaz desvia o olhar para eles por alguns segundos — Tira uma foto, vai durar mais. — rio de sua cara.
Percebendo que fiz de propósito, ele se irrita.
— Otá.rio! — olho para ele com firmeza.
— Ah, Angelina... Você não perde por esperar.
Nos encaramos por um tempo, até que deixo o copo na pia e saio rebolando em provocação. Confesso que o modo como ele falou, me deixou na expectativa, sei que vai aprontar alguma para cima de mim. Nada que eu não saiba lidar. Rio com meus próprios pensamentos. Me despeço do Higor, que insiste em querer me levar para casa, porém, não deixei, gosto de andar em minha moto sozinha e volto para casa.