Ramon (Coringa) A mesa tava cheia. De comida, de bagunça, de gente que me fazia esquecer — nem que fosse por alguns minutos — que lá fora o mundo me devia sangue. Eu observava. Sem falar muito. Fabrício largado na cadeira, Bruno com o rosto sujo de arroz, Matheus tentando disfarçar aquele olhar diferente pra Priscila — como se todo mundo ali não tivesse percebido — e ela… servindo a mesa como se sempre tivesse pertencido. Ela ria. De leve. Com os olhos. Com a alma. E eu? Eu fingia que tava mais focado na comida. Mas não tava. Eu tava absorvendo aquilo como quem sente o sol depois de dias em cela escura. Com cuidado. Com medo de perder. — “Coringa, tu não vai comer não, é?” — Fabrício provocou, mastigando alto. — “Tô digerindo outra coisa.” — murmurei, sem tirar os olhos da cena.

