Juliana Narrando
Quando cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e tirei a sandália, sentindo o alívio imediato nos pés. O celular vibrou quase na mesma hora. Era mensagem do Tubarão. Abri sem pressa, já imaginando o conteúdo. Lá estava o comprovante do pagamento do programa. Oitocentos reais, mais o valor do Uber. Suspirei aliviada.
— Obrigada — respondi, curta e direta.
Eu sei como as coisas funcionam. Ele cobra caro por mim e pelas outras garotas, mas paga o que quer. Não é negociação, é regra. Mesmo assim, aquele valor tinha sido alto. O mais alto que eu já tinha recebido por um programa. Normalmente não passa de quatrocentos reais. Aquilo já dizia muito sobre o Cliente de hoje. Magnata, será?
Me sentei na cama devagar, sentindo o corpo finalmente relaxar. Abri a bolsa com calma. O maço de dinheiro ainda estava lá, do jeito que ele colocou na minha mão. Meu coração acelerou um pouco. Tirei a liga, coloquei o dinheiro sobre a colcha e comecei a contar, nota por nota.
Cinco mil reais. Tudo em notas de cem.
Meus olhos se encheram de água na mesma hora. Engoli em seco, respirando fundo. Aquilo dava pra pagar cinco meses no presídio. Cinco meses de dignidade pro meu pai. Claro que eu não vou pagar tudo de uma vez. Não sou boba. A gente aprende rápido a não mostrar tudo o que tem.
Guardei o dinheiro de novo com cuidado. Tirei a roupa, me deitei e fechei os olhos.
— Vou só cochilar — murmurei pra mim mesma.
Ainda tinha que trabalhar. Mas antes disso, o dinheiro dessa noite, já tem destino certo. Minha tia vai usar pra comprar comida, produto de limpeza, remédio, e preparar o jumbo do meu pai. Pelo menos por um tempo, eu posso respirar.
O despertador tocou cedo demais. Abri os olhos com dificuldade, desliguei o barulho e fiquei alguns segundos encarando o teto. O corpo estava cansado, mas a mente já corria. Não dava pra ficar.
Me arrastei até o banheiro. Banho rápido, rotina de sempre. Água fria no rosto pra acordar. Roupa limpa. Prendi o cabelo, ajeitei a franja. Olhei meu reflexo no espelho e respirei fundo.
Antes de sair, deixei quinhentos reais em cima da mesa da cozinha.
— Deus te abençoe, menina — ela disse baixinho, quando me viu passando.
— Amém — respondi, pegando a bolsa.
Às cinco e meia da manhã, eu já estava na parada. Céu ainda escuro, ônibus passando cheios, gente com a mesma cara de sono e cansaço que a minha. Ajustei a alça da bolsa no ombro e fiquei ali, esperando.
Mais um dia de luta começando.
Mas, no fundo, uma parte de mim ainda estava presa naquela noite. Naquele quarto. Naquele dinheiro. Naquele tratamento diferente. Eu sei que não posso me apegar, não posso criar ilusões.
Mesmo assim, pela primeira vez em muito tempo, eu estou doida pra ter pelo menos um dia de glória.
Trabalhei o dia todo sem parar. O relógio parecia travado, e cada cliente que encostava no balcão vinha com pressa, reclamação ou cara fechada. Preparei café, passei troco, limpei mesa, sorri mais do que sentia vontade. Meu corpo ainda estava cansado da noite anterior, mas não tinha espaço pra moleza. Ali, atrás do balcão, eu era só a Juliana balconista, ninguém precisa saber de mais nada.
Quando deu meu horário, tirei o avental, peguei a bolsa e saí direto. Não fui pra casa. Fui ao banco. Entrei, peguei senha e esperei. Quando chegou minha vez, respirei fundo antes de entregar o envelope. Depositei os cinco mil reais na minha conta. Ver aquele valor registrado ali, oficial, me deu uma sensação estranha de alívio e medo ao mesmo tempo. Dinheiro que salva também pesa.
Saí do banco e segui andando. Entrei em uma loja, depois em outra. Comprei algumas coisas pra me arrumar pras noites: maquiagem, um perfume novo, lingeries. Meus arrastão. Tudo exagerado. Tudo pensado. Cada escolha era prática. Aquilo também era trabalho, mesmo que ninguém chamasse assim.
Meu celular vibrou quando eu estava pagando.
Mensagem do Tubarão.
— Hoje não tem Cliente, aproveita que estou bonzinho.
Li duas vezes. Estranhei. Ele quase nunca cancela. Pensei em perguntar o motivo, mas deixei quieto. Questionar demais nunca foi uma boa ideia. Eu também estou exausta.
— Ok — respondi apenas.
Guardei o celular e segui pra casa. Amanhã eu tenho que acordar às quatro da manhã. Dia de visita. O pai está preso no Complexo de Gericinó, o famoso Bangu, onde ficam muitos estelionatários. É longe, cansativo e humilhante, mas é o único jeito de vê-lo.
Quando cheguei em casa, encontrei minha mãe e minha tia na cozinha. Minha mãe estava sentada na cadeira, conversando, com um semblante mais leve do que nos últimos dias.
Dei um beijo na testa dela.
— Cheguei, mãe.
— Demorou hoje, minha filha — ela disse.
— Fiz hora extra — respondi rápido, sem pensar muito.
Não dava pra contar a verdade. Não podia dizer que passei no banco pra depositar cinco mil reais que ganhei de um desconhecido. Muito menos admitir que estava comprando lingerie pra atender homens em camas que minha mãe nem imagina que existam. Algumas mentiras são formas de proteção.
— Hoje eu não vou sair — completei. — Vou tomar um banho, comer qualquer coisa e deitar. Amanhã tenho que levantar cedo.
— Vai visitar seu pai, né? — minha tia perguntou.
— Vou.
Minha mãe sorriu de leve.
— Deus te acompanhe.
Fui pro banho. Água caindo, pensamentos correndo soltos. Amanhã será outro tipo de cansaço. Fila, revista, espera, aquele ambiente pesado que gruda na pele. Mas eu vou. Sempre fui.
Depois do banho, comi um pão com queijo e café. Não tinha fome de verdade. Era mais rotina do que necessidade. Me deitei cedo, ajeitando o despertador pra tocar às quatro em ponto.
Antes de apagar a luz, fiquei olhando pro teto. Não é fácil sustentar a casa, cuidar da minha mãe, não abandonar meu pai, e não enlouquecer no meio disso tudo.
Acordei às quatro em ponto, o despertador nem precisou tocar muito. O frio da madrugada já tinha me arrancado do sono. Levantei rápido porque dia de visita não dá margem pra atraso. Banho gelado, cabelo preso num coque simples, rosto limpo, nada de maquiagem pesada. Pra visitar parente em presídio tem regra pra tudo: calça comprida sem r***o, blusa sem decote, nada transparente, sutiã sem aro, chinelo simples. Vesti uma calça de moletom escura, camiseta de manga e um casaco fino. Era o máximo de conforto que dava pra ter nesses dia.
Fui pra cozinha e tava tudo separado em cima da mesa, do jeitinho que minha tia sempre organiza. Marmitas transparentes, cada uma etiquetada: arroz, feijão, frango desossado. Num canto, os produtos de higiene: sabonete neutro, escova de dente, creme dental sem embalagem, papel higiênico, desodorante roll-on. Tudo conferido, contado, dentro das regras. Até o jumbo do meu pai tinha limite, e qualquer coisa fora do padrão era motivo pra perder tudo.
Peguei as sacolas, e saí. Do lado de fora, o frio cortava a pele. O céu ainda escuro, a rua quase deserta. O vizinho já tava no carro, encolhido dentro da jaqueta.
— Bom dia, Ju. Tá frio hoje, hein.
— Tá de doer — respondi, entrando rápido.
O caminho até o Presídio foi silencioso. Cada quilômetro parecia pesar mais. Quando cheguei, a fila já dobrava a esquina. Mulheres com sacolas iguais às minhas, crianças com sono no colo, idosos sentados em banquinhos improvisados. Todo mundo esperando, todo mundo calado, todo mundo cansado antes mesmo do dia começar.
A visita no sistema penitenciário é assim: primeiro a fila externa, depois a conferência de documentos, revista das sacolas, revista no corpo. Tudo demorado, tudo humilhante. Entrei, esperei, sentei num banco de concreto até chamarem o pavilhão dele.
Quando meu pai apareceu, meu coração deu aquele aperto de sempre. Mais magro, mais abatido. Sentou na minha frente e tentou sorrir.
— Minha filha.
— Trouxe tudo certinho, pai — falei rápido, como se isso fosse o mais importante do mundo.
A conversa mäl tinha começado quando senti alguém sentar do meu lado.
— Juliana, né? — ele disse baixo. — A gente precisa conversar.
Meu estômago gelou.
— Sobre o quê?
— A partir do mês que vem, nosso combinado muda. Mil reais é pouco. Agora vai ser dois mil. Todo mês. Na mesma conta.
Olhei pra ele sem entender.
— Como assim aumentar? Eu não tenho dois mil por mês. Eu cuido da minha mãe, da casa.
Virei o rosto pro meu pai. Ele não me encarou. Baixou a cabeça, as mãos tremendo.
— Se vira — o homem disse, calmo demais. — Se não tiver dois mil na minha conta mês que vem, teu pai vai pro saco.
O chão sumiu debaixo dos meus pés. O barulho do pavilhão ficou distante, como se eu tivesse mergulhado na água. Senti o desespero subir, a garganta fechar, os olhos queimarem. Meu pai continuou calado. E naquele silêncio, eu entendi que tava sozinha. E que, a partir de agora, tudo vai ficar ainda mais difícil.